Joan Edesson: Geraldinos e Arquibaldos


Há quem imagine que estamos disputando partida oficial de campeonato, em moderna “arena”, como deram agora de chamar os estádios, com juiz e bandeirinha do primeiro escalão da federação e auxílio do árbitro de vídeo. Há quem imagine que as regras do jogo estão sendo respeitadas, tudo bonitinho, nos trinques, nos conformes.

 

 

Ledo engano. É jogo de várzea mesmo, contra adversário desleal para quem, da sobrancelha para baixo, é tudo canela. O juiz é compadre do dono do time e os auxiliares são dois cabos de polícia que não se incomodam em mostrar a pistola na cintura quando levantam a bandeira para marcar impedimento inexistente do time visitante. Nessa partida, a maior parte da federação dos juízes torce abertamente pela vitória do adversário e, sempre que pode, dá uma forcinha para ele.

É jogo bruto, não nos enganemos. É bem verdade que o capitão do outro time é um frouxo, que só se dá a arroubos de valentia quando bem protegido pelos brutamontes do seu time. Mas a torcida está com ele, e ganhando mais gente, pelo medo, pela intolerância ou pela descrença. Descrença na vitória do time de cá, e descrença geral, achando que tanto faz mesmo.

Em jogo assim, de tamanha brutalidade, e jogado no campo do outro, é bom lembrar dos versos de Gonzaguinha, sempre um alento em tempos de dureza: “no campo do adversário é bom jogar com muita calma, procurando pela brecha pra poder ganhar”.

É isso que precisamos fazer, encontrar uma brecha para ganhar. A unidade de todas as forças democráticas que fizeram frente ao candidato do autoritarismo é fundamental, mas tem se mostrado insuficiente. Até porque há incompreensões no nosso campo, há projetos personalistas tentando se sobrepor ao projeto maior de nação, há cálculos eleitorais bisonhos, há erros. Com tudo isso, é necessário que preservemos a unidade, que nos esforcemos ao máximo para garantir a unidade, mas é necessário que consigamos ir além disso. É imperioso ir nas fileiras do adversário, tentar ganhar de volta parte da torcida.

Muitos dos que, momentaneamente, estão do lado de lá, eram do nosso campo e, por um ou outro motivo, desencantaram-se e trocaram de time. Vamos buscá-los, vamos trazê-los de volta. A disputa agora é voto a voto. Se o adversário joga na brutalidade, precisamos responder com o drible, com a firula. Se o segundo atacante deles maltrata a bola, dando bicão em direção à torcida, nosso meia tem que inventar, fazer um chapéu, dar uma caneta, ganhar a geral e a arquibancada para que eles aplaudam e gritem olé.

Estamos perdendo, é bem verdade, mas há muito jogo pela frente, o segundo tempo mal começou. O que não podemos, nos minutos que restam, é ficar na retranca. Quem precisa ganhar tem que buscar o gol. Jogar unido, buscar a unidade. Mas jogar no ataque, com ofensividade.
O zagueiro de lá parece uma parede? Não dá para passar? Ora, recorramos a Gonzaguinha novamente: “se por baixo não tá dando, é melhor tentar por cima, com a cabeça dá”.

Há mais uma coisa que precisamos lembrar. Essa não é apenas mais uma partida entre dois times, o nosso e o deles. É uma disputa entre a democracia e o fascismo, entre a civilização e a barbárie, entre a convivência pacífica e a intolerância violenta.

Se o time do fascismo ganhar, não saberemos nem mesmo se ainda haverá jogos a ser disputados. E quem vai sofrer mesmo de verdade é a torcida, inclusive muitos dos que, nesse momento, torcem pelo adversário.

 *Joan Edesson de Oliveira é educador, Mestre em Educação Brasileira pela Universidade Federal do Ceará.

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