Haroldo Lima: a propaganda para virar o jogo


O ex-presidente FHC afirmou ao Estadão de 14 passado que “só ouvi a voz do
Bolsonaro agora. Nunca tinha ouvido”. “Nunca vi o Bolsonaro”.
FHC milita na política há mais de 40 anos, já foi senador, constituinte, presidente da República. Nunca ter ouvido Bolsonaro, nunca o ter visto, é porque Bolsonaro passou os últimos 40 anos, dos quais 28 como deputado federal, como uma pessoa insignificante e desconhecida no cenário político nacional.
Daí pode-se concluir que o eleitorado que lhe deu uma votação estrondosa no
primeiro turno dessa eleição de 2018 votou sem o conhecer. Como disse FHC: “Não
creio que seja por influência do que ele diz ou pensa que votam nele. O voto é anti-
PT”.
Na verdade, Bolsonaro conseguiu que o povo acreditasse que sua insignificância escondia uma plataforma de questionamento de “tudo que está aí” e de expectativa de mudanças. Uma empulhação.
Por onde se vê que um aspecto importante -embora não único – da propaganda
eleitoral do Haddad e Manuela é trazer à tona para a população que o Bolsonaro é
uma fraude. A população que votou nele na expectativa de melhorias precisa ser
esclarecida que votou enganada, ludibriada.
Perpassou pelos círculos democráticos a estranhíssima ideia de que durante a
campanha não se devia falar do Bolsonaro, nem do seu nome, nem do que ele fez, ou
não fez, ou pensava. Há quem diga que essa proposição saiu das hostes do capitão,
que teria muito a ganhar se a campanha democrática não se pusesse ante a tarefa de
desconstruir a farsa do Bolsonaro. Levar nos programas eleitorais trechos de vídeos do
Bolsonaro, ele próprio falando, é desmascará-lo e não fazer isto é ajuda-lo, escondê-lo,
porque escondido ele está avançando.
Bolsonaro ganhou o voto de muitas mulheres, negros, gente de camada média
e gente pobre. Todos com a ideia de que, com ele haverá melhorias. Essa falsidade,
que envolveu a maioria do eleitorado, não será desfeita apenas apresentando um
plano adequadamente elaborado, bem feito, viável, com proposições justas. Isto deve
ser feito, sem dúvida, mas só isto basta para virar o jogo.
Este jogo está sendo ganho na base da enganação, do grito, e para virá-lo será
necessário desnudar o Bolsonaro, mostrando ao povo ele próprio falando, em seus
vídeos, sobre os mais diversos assuntos. Assim ele será desconstruído.

Devemos, por exemplo, mirar as mulheres, e mostrar que elas não podem
esperar melhorias de um candidato que diz que “não empregaria homens e mulheres
com o mesmo salário”? E devemos projetar mais a vice mulher que é a Manuela, com
grande potencialidade de atração de apoios, de mulheres e de jovens.
Os negros de forma alguma podem ser embrulhados por uma pessoa que diz
que se um filho seu namorasse uma negra seria “uma promiscuidade”.
Os trabalhadores não podem esperar nada de bom de um candidato que votou
pela reforma trabalhista de Temer e diz que vai criar uma carteira de trabalho verde e amarela que acabará com a carteira de trabalho azul, que tem as garantias da CLT.
Tampouco podem deixar de saber que general-vice do Bolsonaro já disse ser a favor de
acabar com o 13º salário. Devem ser alertados que o capitão Bolsonaro desautorizou
essa opinião do general, mas que general não aceita ser enquadrado por subordinado
e já disse que é vice, mas tem ideias próprias.
É preciso escancarar para a população que o candidato que quer ser presidente
é a “favor da tortura” e acha que ditadura errou porque “não matou uns 30.000”.
É preciso assumir a dianteira no combate à corrupção, por um lado chamando a
atenção – que é o que está sendo feito – de que Lula foi quem deu força ao Ministério
Público, às Controladorias, à Polícia Federal, que não tinham nenhum papel na luta
contra a corrupção; por outro lado, promovendo mudanças que evitem a corrupção no
futuro, tipo a desburocratização, que pode retirar a base das propinas; defendendo
que corrupto deve ser punido onde quer que esteja, mas que é inaceitável ações
punitivas seletivas, que usem meios ilegais, ou que condenem sem provas; e que,
finalmente, na luta contra a corrupção, não poderemos aceitar um presidente que,
como deputado federal, disse, como disse Bolsonaro, com a maior empáfia, que “eu
sonego tudo que for possível”.
O povo deve ser apresentado ao vídeo em que o personagem que quer ser
presidente, foi entrevistado, quando era deputado, pelo jornalista Jair Marchesine que
lhe perguntou: “se você fosse hoje o presidente da República você fecharia o
Congresso Nacional?”. E a resposta: “não há a menor dúvida, daria golpe no mesmo
dia”; “através do voto não vai se mudar nada nesse país”.
Aos patriotas de nossa Nação e aos que querem o desenvolvimento devemos
exibir trechos da entrevista da banqueiro neoliberal Paulo Guedes – que Bolsonaro já
chamou para ser o seu super-ministro da Economia – na qual o “Posto Ipiranga”, no
dizer do Bolsonaro, externou ser a favor da privatização de todas, repito, todas as
estatais, incluindo a Petrobras e o Banco do Brasil.
A propaganda naturalmente deverá continuar a apresentar suas proposições
governamentais. Estas deverão ser transformadoras do quadro que está aí, o do
governo Temer, apoiado pelo Bolsonaro.
A melhoria da situação das massas deve ser tratada com destaque, a
valorização do salário mínimo, do bolsa-família, do SUS, a isenção do imposto de renda

para quem ganha até cinco salários, a revisão de privilégios de juízes e parlamentares,
tipo auxílio-moradia a quem já tem casa, a demarcação de terras indígenas e
quilombolas, a reforma agrária, reforma política, etc.
A retirada da situação negativa de dezenas de milhões de brasileiros, pobres ou
de classe média, junto ao SPC, como foi proposto por Ciro Gomes, deve ser assumida
de imediato, dizendo-se que é do Ciro, porque é justa, e é também uma forma de
atrair esse líder nordestino para a virada da campanha.
Se a propaganda nesse período final deve atingir as massas populares em
primeiro lugar, não pode descurar de sinalizar para o empresariado, principalmente o
nacional, que ele vai ter um tratamento adequado, ajustado às circunstâncias do
momento no Brasil, onde impera a desindustrialização, que deve ser contida, e no
mundo, onde está em curso uma mudança do eixo econômico, que se desloca para os
lados da Ásia, de onde podem vir grandes investimentos. Um novo projeto nacional de
desenvolvimento tem que contar com a apoio do empresariado brasileiro, atento para
que o mundo já assiste ao que se tem chamado de uma 4ª revolução industrial 4 D,
com imensos desafios e possibilidades dos quais o Brasil não pode estar ausente.
Estamos começando duas semanas decisivas. Vamos vencer.

Haroldo Lima – é membro da Comissão Política do
Comitê Central do Partido Comunista do Brasil,
ex-deputado federal e ex-Presidente da Agência Nacional
do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis.

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1 comentário Adicione o seu

  1. mariel disse:

    Pois é, a comunicação falhou. Mais do que a comunicação, talvez as práticas más tenham falado mais alto. Vender esperança é um perigo. Não entrega-la (por impossível) é fatal.

    Curtir

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