Flávio Dino: Disseminação das fake news é uma maneira de evitar debate


Em entrevista ao UOL nesta quarta-feira (17), o governador reeleito no Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), alertou que a vantagem do candidato Jair Bolsonaro (PSL) sobre Fernando Haddad (PT) é devido a agenda de mentiras, ataques, calúnias, invenções e manipulações de declarações, que estão sendo compartilhadas rapidamente nas redes sociais.

Para Flávio Dino, que também é ex-juiz federal, a eleição é marcada por uma brutal ilegalidade das fake news. Ele explicou que há muita dificuldade no diagnóstico dos ataques e lentidão nos procedimentos jurídicos de repressão dessa ilegalidade. “Veja o tal falado kit gay, demorou duas semanas até ser determinada a retirada, mas o dano já foi feito”, pontuou.

Na visão do governador, a Justiça Eleitoral precisa refletir sobre a onda das fake news nesta eleição. “Se você deixa uma mentira, uma calúnia prosperar por semanas, a decisão judicial é quase que totalmente ineficaz”.

Questionado se é possível o Haddad vencer a eleição, Flávio Dino respondeu que ainda faltam 10 dias de campanha e que é necessário mudar a agenda da eleição. Segundo ele, a disseminação das fake news é uma maneira para evitar que o debate sobre as propostas de governo seja feito.

Indagado novamente se Haddad pode reverter os números que as pesquisas apontam diante deste cenário de fake news, Flávio Dino ressaltou que todos os institutos de pesquisa não conseguiram captar os resultados do primeiro turno, e isso mostra uma volatilidade muito grande e muito rápida do voto, com movimentos surpreendentes. “Considero que ainda tem jogo, é muito precoce dizer que a eleição está decidida”.

Leia a entrevista na íntegra:

As pesquisas ao final do primeiro turno indicavam um segundo turno com Fernando Haddad (PT) empatado tecnicamente com Jair Bolsonaro (PSL), mas agora aparece bem atrás. O que ocorreu para tamanha mudança?

Flávio Dino: Acho que o elemento surpresa foi a força de uma virulenta campanha de ataques nas redes sociais, algo claramente muito organizado, muito profissionalizado, que acabou por gerar um inesperado, que foi o crescimento da rejeição do Haddad. Acho que a questão central da eleição foi essa hegemonia que o bolsonarismo conseguiu estabelecer de sua agenda por intermédio da fake news. Não é uma coisa feita pelo Bolsonaro, é algo claramente feita por empresa, fala-se até de consultores estrangeiros, não sei afirmar isso, mas é algo muito organizado e planejado e que até aqui tem desequilibrado a eleição.

Como ex-juiz, o senhor vê ilegalidade passível de punição?

Claro que há uma brutal ilegalidade. Infelizmente há de um lado muita dificuldade no diagnóstico dos ataques e muita lentidão nos procedimentos jurídicos de repressão dessa ilegalidade. Veja que o tal falado kit gay demorou duas semanas até ser determinada a retirada, mas o dano já foi feito. Nós estamos diante de uma forma nova de ilegalidade, difícil de ser combatida. A Justiça Eleitoral vai ter de refletir sobre isso, porque com esse longo tempo, numa eleição de primeiro turno mais curto, se você deixa uma mentira, uma calúnia prosperar por semanas, a decisão judicial é quase que totalmente ineficaz. Nesse sentido é uma eleição contaminada por essa ilegalidade inédita nessa proporção. Isso que explica uma mudança tão profunda nos números. Vamos lembrar que, no primeiro turno, a rejeição do Bolsonaro era muito maior e, duas semanas depois, isso mudou radicalmente. E por que mudou? Por causa da rejeição ao PT? Não é verdade, senão teria se manifestado desde no primeiro turno, todos sabiam que ele era do PT. O que pegou e levou a rejeição foi sem dúvida a imposição de agenda de mentiras, ataques, calúnias, invenções, manipulações de declarações.

É possível reverter uma diferença tão grande?

Nós temos ainda 10 dias, e muito provavelmente precisa tentar mudar a agenda da eleição. A tentativa principal hoje é conseguir fazer com que o debate eleitoral não seja presidido por esse tipo de agenda, como tem sido, e seja colocada uma agenda real, sobretudo de emprego, de trabalho, políticas públicas. Talvez das eleições presidenciais que acompanho, a que me lembro que teve um debate similar de nível tão rebaixado foi de 1989, entre Lula e Collor. Com os candidatos do PT e PSDB havia um certo debate sobre votou contra e a favor do Plano Real, sobre privatizações, sobre a dívida do pais; agora está zerado.

 Mas nesse cenário tem chance de reverter?

Olha, uma eleição em que todos os institutos de pesquisa não conseguiram captar os resultados do primeiro turno, a gente vê que há uma volatilidade muito grande e muito rápida do voto, com movimentos surpreendentes e que só foram captados na pesquisa boca de urna praticamente. Considerando isso, considero que ainda tem jogo, é muito precoce dizer que a eleição está decidida.

Recentemente os ex-ministros Jaques Wagner (PT) e Cid Gomes (PDT) fizeram uma espécie de fogo amigo. Como o senhor avalia essas falas?

Eu acho que é totalmente fora de hora, fora de lugar, é absurdamente inadequado esse tipo de debate agora. Acho que ele é válido posteriormente. Agora não há mudança possível em relação a esse desenho, então é lutar com a situação tal como ela está posta. Eu não participo desse tipo de debate, nem que concordo ou discordo do discurso, só que acho que é um absurdo colocar esse debate nesses termos nesse momento. Não ajuda em nada diante da gravidade do que temos em curso. Não é uma eleição qualquer. A eleição do Bolsonaro sinaliza com uma possível ruptura da Constituição e da ordem democrática. Então, como é momento grave, acho que você não deve dispersar energia com coisas que nesse momento são secundárias, acessórias. Hoje é absolutamente desnecessário discutir se deveria ser candidato A, B ou C. O que é crucial hoje é impedir a vitória do Bolsonaro e tudo que ele representa de conteúdo antipopular, antidemocrático e antinacional.

O que o senhor acha da cobrança de uma autocrítica do PT? 

Eu acho que sinceramente é indiferente, porque se fosse por esse ponto, Dilma não teria ganho 2014. Acaba sendo um falso debate esse da autocritica. Em 2014 já tinha começado a operação Lava Jato e não houve essa coisa de autocritica, de ajoelhar no caroço de milho em praça pública, se autoflagelar. E a Dilma ganhou. Novamente é um desvio do debate principal e é desnecessário. Na minha cultura política, a autocrítica você faz é na prática, mostrando mudanças de comportamento. Não existe esse momento de se autoflagelar, se auto chicotear. Essa cobrança acaba enfraquecendo a candidatura do Haddad.

Como o senhor avalia um eventual governo Bolsonaro para o Nordeste? Acha que o fato dos governadores (re)eleitos até agora não o apoiarem vai afetar?

A questão é que o Nordeste faz parte do Brasil, e com certeza a agenda econômica que ele apresenta é de destruição de instrumentos fundamentais para o desenvolvimento brasileiro. Por exemplo: a Petrobras, os bancos públicos; ele fala de privatizações, de fechamento de órgãos públicos. Para o Nordeste é muito ruim não ter o Banco do Nordeste, por exemplo. É um retrocesso gigantesco, diria de décadas. Assim como Banco do Nordeste, a Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba) também é para o desenvolvimento regional. Então essa agenda de menos serviço, de menos estado, de privatizações, fechamento de empresas pública é contrária ao Brasil e contra o desenvolvimento. Ela atrapalha quem mais precisa. Para o desenvolvimento regional é uma tragédia.

O senhor vislumbra Bolsonaro presidente de bom lido com gestores e parlamentares?

Até aqui, considerando a trajetória política dele dessas décadas no Congresso, não é alguém que se notabiliza pela aglutinação e diálogo. É claro que em um eventual governo dele, é dever de todos os governadores –e eu vou cumprir esse dever– dialogar com o governo federal. Claro que se essa for a decisão popular, da minha parte eu não me recuso ao diálogo. Agora o perfil dele não é muito animador, pelo contrário: ele tem sido um político de rompantes, mais de atitudes intempestivas, muito parecido com o Collor nesse sentido.

Muitos falam em risco a democracia com uma eventual eleição de Bolsonaro. O senhor vê esse risco?

Eu vejo riscos reais, infelizmente, porque quando você vê o que Bolsonaro fala, o que o vice dele fala, e você prospecta o nível de instabilidade que esse governo terá –de conflitos muito agudos, um governo de caos, periga até os democratas desse pais terem saudade de Michel Temer. Digo isso porque a agenda econômica que ele vai implantar –pelo que ele diz e pelo que o mago econômico dele (Paulo Guedes) diz– vai rapidamente destruir a popularidade do governo, como a reforma da Previdência nos termos que eles dizem. Então, na medida em que popularidade desse hipotético governo cairia muito rapidamente, se amplia a instabilidade. E na medida em que amplia a instabilidade com esses personagens que são inconsequentes, que não medem as palavras e as atitudes, realmente é um risco agudo. São pessoas imprevisíveis e incontroláveis. Há uma ilusão da classe dominante brasileira de que Bolsonaro e Mourão vão entregar o país a esse Paulo Guedes, que vai fazer o quer o tempo todo e vão só ficar comendo churrasco. Isso é uma grande bobagem. Uma parte da elite brasileira está torcendo para entregar o poder do país a uma pessoa que não tem compromisso democrático, a uma pessoa intempestiva, imprudente, inconsequente como ele mostrou a vida inteira. Inclusive com riscos de conflitos graves entre brasileiros com a agenda econômica que ele propõe.

O senhor teme um governo autocrático?

Até aqui a atitude deles é profundamente autocrata. Portanto, não vejo de onde extrair otimismo desse hipotético governo.

Os Sarney tiveram mais uma derrota nas urnas e ficam fora do poder executivo e de Brasília depois de décadas. Inclusive, eles apoiam Bolsonaro. Como o senhor avalia a sua vitória e o futuro da família?

Eles estão muito enfraquecidos. Na verdade, eles sempre tiveram força local porque tiveram força nacional, aplicaram a cartilha do coronelismo com muita precisão, apoiaram todos os governos ferais desde [Juscelino] Kubitschek [1956-1961] para ter poder e hegemonia a política aqui no Maranhão. Na medida em que o espaço nacional deles hoje é zero, eles têm muita dificuldade de se posicionar. Roseana anunciar seu apoio ao Bolsonaro só vem a confirmar aquele que disse esses anos todos: a relação dela com o lulismo era oportunista. Quando aparentemente o lulismo pode ter uma derrota, ela é a primeira a pular do barco e se alinhar a um eventual novo governo. Só confirma que eles se alinham a qualquer governo, o negocio deles é se dar bem. Eles devem estar atrás de franjas de poder, de migalhas desse banquete, mas na conjuntura atual é muito difícil porque eles estão muito pouco a oferecer.

O PCdoB foi um dos partidos que não atingiu a cláusula de barreira e pode perder o fundo partidário. O que se planeja a partir de agora?

O PCdoB vai fazer o debate após segundo turno, já falamos inicialmente e vamos ver quais são as alternativas legais. Por exemplo: fusão com outros partidos. Esse é o caminho provável, de buscar articulação com outros partidos que permitam nossa bancada a funcionar lá na Câmara.

Por falar em partido, nessa eleição é comum ouvir o termo comunista como uma crítica a políticos e eleitores de esquerda…

[Risos] Isso é uma distorção histórica no Brasil em torno no sentido dessa palavra. Por conta dessas ditaduras que o pais teve, especialmente a de 1964, estigmatizou-se muito fortemente esse termo, e até deu uma força que os comunistas nunca tiveram. Qualquer pessoa que pensasse em termos de liberdade, como artistas, jornalistas, padres etc. eram classificados de comunista. Qualquer pessoa que incomodasse o regime dominante, os poderosos, era etiquetado como se fosse comunista, a encarnação do mal. É muito triste de um lado, e ridículo de outro, imaginar que um partido pequeno como o nosso é responsável pelos males da nação. Ao contrário disso, temos colaborado muito para essa nação avançasse. Isso é um retrato da nossa direita troglodita, militarista, saudosa da ditadura.

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