Ronald Freitas: Por que ganhou. Ganhou por que?


Buscar entender os motivos da vitória de Jair Bolsonaro nas últimas eleições presidenciais é uma tarefa complexa e que exigirá tempo para que os múltiplos aspectos dessa batalha sejam conhecidos, analisados e compreendidos. Ouso tentar contribuir para esse processo.

Por Ronald Freitas*

 

 Bolsonaro e Mourão assumem a presidência e a vice-presidência da República em janeiro de 2019  Bolsonaro e Mourão assumem a presidência e a vice-presidência da República em janeiro de 2019

 

A eleição de Bolsonaro para a presidência da República, em outubro último, foi uma enorme derrota estratégica para as forças democráticas, progressistas e socialistas de nosso país, e se insere dentro da ofensiva da direita, de natureza política e ideológica, que se desenvolve em escala mundial e que entre nós foi potenciada e politicamente deflagrada na esteira das manifestações de 2013. Significa também o fim do ciclo de avanços políticos, democráticos, econômicos e sociais que vivemos desde o fim da ditadura militar e da promulgação da Constituição de 1988.

Alcançar uma plena compreensão do significado e do potencial destrutivo dessa derrota do campo democrático, progressista e de esquerda exigirá estudo das condições socioeconômicas do país e de seu povo, observação da realidade cultural que nos envolve, da situação conceitual e prática dos partidos políticos atuantes no país, destacadamente os de esquerda, bem como de seus líderes, e uma boa dose de humildade para compreender como foi possível tão estrondosa derrota.

Chegar a conclusões as mais acertadas possíveis sobre essa derrota será a chave para retomarmos o caminho da luta em prol da continuidade da construção da nação brasileira, dentro da perspectiva de sermos um país soberano, desenvolvido, democrático, socialmente justo, pacífico e solidário.

O campo político, que vai do centro-democrático à esquerda, subestimou gravemente, nos anos recentes próximos às eleições de outubro, o avanço da direita: de natureza conservadora na ideologia, reacionário na política, nos costumes e culturalmente obscurantista. Não atentou para os sinais latentes de insatisfação em setores das classes médias que, culturalmente reacionárias, não viam com bons olhos a ascensão social que amplas camadas pobres tiveram durante os anos dos governos Lula e Dilma. Não ajuizou de forma adequada a profunda crise econômica que o país passou a viver a partir do segundo governo Dilma, além de ter sido incapaz de evitar que as consequências dessa crise, principalmente o desemprego, fossem atribuídas exclusivamente a incúria e corrupção do PT, de seus aliados próximos, e de seus governos.

Enquanto isso, as forças de oposição ao sistema de governo que se implantou com a posse de Lula em 2003, nas suas mais variadas vertentes – direita radical, direita “civilizada”, mercado, militares da reserva e ativa, setores da alta burocracia estatal, mídia monopolista etc. –, desenvolveram um trabalho de longo fôlego, realizado de forma metódica, e por que não dizer muito eficiente, por meio de uma operação articulada, que tinha por objetivo retirar do governo esse bloco de forças democrático-progressista que governava o país.

Tudo isso, apesar de aparentemente caótico e difuso, foi conduzido – é bom que se registre – por uma ação estimulada pelas elites econômicas e políticas, nacionais e estrangeiras, que agiu em cima de fatos concretos, e contou com a ação diligente de setores nacionais reacionários: do mercado; da grande imprensa monopolista; de parte da alta burocracia estatal, encastelada no MP (Federal e Estadual), na Magistratura, na Polícia Federal, entre outros.

Embora durante o desenrolar desse processo político tenha sido dada pouca credibilidade às possibilidades de Bolsonaro vir a se tornar, como se tornou, presidente eleito, uma série de acontecimentos políticos e extrapolíticos, relativamente próximos e durante a campanha eleitoral, contribuiu para a sua viabilização.

Bolsonaro conquistou expressivos setores da classe média

 

Uma data emblemática nesse processo é a das manifestações de junho de 2013. Desencadeadas a partir de uma pueril reivindicação sobre os preços das passagens de ônibus urbanos, assumiram uma dimensão desproporcional. Desenvolvendo-se de forma irregular, foram paulatinamente manipuladas por setores de direita, que as direcionaram contra o então governo Dilma que, atabalhoado, não soube reagir.

Aquelas manifestações, bem como o desenrolar da autointitulada operação Lava Jato, ensejaram a deflagração e o desenvolvimento de uma forte e sistemática campanha de desestabilização do governo Dilma, com expressivo apoio nas ruas, que culminou com a sua derrubada, por meio de um golpe jurídico-parlamentar, consumado com o impeachment em 2016.

A operação Lava Jato tem uma posição de destaque em todo esse processo. Com grande e sensacionalista cobertura da grande mídia, ela foi diligentemente conduzida pela 13ª Vara da Justiça Federal de Curitiba, Paraná, que – atuando de forma integrada com o MPF e com a Polícia Federal e interpretando de forma muito “criativa” o Código Penal e o Código de Processo Penal – desenvolveu e desenvolve uma campanha contra a corrupção. Mas, da forma como foi até aqui conduzida, instalou no país um clima contra política, políticos, partidos políticos e governos.

Esse contexto permitiu o surgimento de um quadro de insatisfação na sociedade, inicialmente difuso, que, adequadamente manipulado por setores de direita, criou a base subjetiva para o surgimento de um movimento político de direita, altamente organizado, baseado em forças reacionárias internas e estrangeiras, cujo objetivo maior era apear do governo o bloco de forças que governava o país desde 2003.

Durante todo o período, ocorrem vários eventos políticos, que fizeram parte do processo de desestabilização do governo Dilma e determinaram seu afastamento, e em certo sentido ajudaram a eleger Bolsonaro: a atuação agressiva da Lava Jato contra o PT, cujo exemplo maior foi a condução coercitiva de Lula ainda em 4 de março de 2016; os movimentos Não vai ter Copa e contra a realização das olímpiadas etc.

Nessas jornadas foi constatada de forma superficial a utilização das chamadas mídias sociais como um fator novo no processo de convocação de manifestações, sendo essa ferramenta fundamentalmente utilizada por forças de direita.

A reeleição de Dilma em 2014 foi muito disputada, e ganha no segundo turno de forma apertada. Isso ensejou que o candidato derrotado Aécio Neves e seu partido, o PSDB, movessem uma ação de impugnação das eleições, sob alegação de abuso de poder econômico e fraude nas urnas eletrônicas, que deu forte munição ao processo de desestabilização político em curso. Lembremo-nos do julgamento dessa ação durante meses no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com transmissão ao vivo e ampla cobertura negativa da grande mídia.

Não foi desprezível nesse processo a atuação de forças de centro-direita, que faziam parte do governo, como o então PMDB, que, tendo um de seus quadros na vice-presidência, Michel Temer, manobraram, na onda de insatisfação com o governo, para acelerar sua queda, assumir o governo e, com base em um programa de cunho liberal – lembram-se do Ponte Para o Futuro, o pró-mercado? –, retomar o controle do Estado e, segundo eles, pacificar o país.

Após o golpe parlamentar que retirou Dilma do governo, as forças de centro-direita e da direita civilizada puseram em execução seu plano de continuidade no poder central da República por um largo período. Temer tinha o papel de realizar uma série de reformas econômicas e políticas que criassem as condições para que um futuro governo, legitimado pelo voto (quem sabe, a reeleição do próprio, ou de Aécio ou Alckmin), continuasse esse projeto. Ocorre que uma variável, fora do controle das forças desse centro-direita civilizado, frustrou esses planos, quando, dentro do escopo da operação Lava Jato, foram divulgados pelo Procurador-Geral da República áudios e vídeos que incriminavam diretamente Michel Temer, então presidente da República, em transações supostamente ilícitas com o empresário Joesley Batista. Acusações que atingiram o PMDB, e altas lideranças do PSDB.

Na sequência os dois pedidos feitos ao congresso pela PGR e o MPF, para processar o presidente da República, fizeram-no se concentrar na defesa de seu mandato, de modo a evitar a autorização do legislativo para a abertura do processo. Nesse movimento político, Temer desgastou-se profundamente, e seu governo se inviabilizou. O seu partido, MDB, tornou-se uma legenda sem força para a disputa presidencial e o PSDB, que também pleiteava ser uma alternativa de centro-direita à sucessão, viu seu principal nome para essa disputa, Aécio Neves, também se inviabilizar a partir das denúncias acima referidas. Dessa maneira, o projeto sucessório de um dos setores dos golpistas tornou-se impossível, e a atividade política como um todo foi sendo mais e mais criminalizada, e caracterizada como uma atividade de corruptos e corruptores.

Na sociedade, o ambiente no entorno desses eventos políticos era de aprofundamento de insatisfação com a crise econômica, e a política de preços de combustíveis então implementada pela Petrobras serviu de rastilho para a deflagração de uma greve de caminhoneiros, que conflagrou o país e teve como alvos o governo Temer e a democracia. No desenrolar da greve, ela assumiu cada vez mais um tom de questionamento, de qualquer governo eleito, e pedia-se insistentemente “intervenção militar constitucional”, contra os “políticos corruptos”, adensando-se dessa maneira o clima de antipolítica existente e favorecendo a pregação que o candidato Bolsonaro realizava.

Enquanto isso, o campo de esquerda, tendo o PT como centro, se debatia com a complexa situação de ter sido apeado do governo por meio de um impeachment, e de ser denunciado como o centro de um gigantesco escândalo de corrupção que levou à cadeia seu principal líder, LULA. Além disso, a esquerda e a centro-esquerda foram incapazes de construir um amplo movimento político, como proposto pelo PCdoB, que aglutinasse amplas forças político-sociais em defesa da democracia, da soberania nacional, do desenvolvimento econômico socialmente justo e sustentável, em torno de uma candidatura única à presidência; tendo predominado objetivamente interesses partidários específicos e mesmo pessoais.

Diante do espaço político aberto por esse quadro, e do continuado e eficiente trabalho de propaganda, nos moldes mais sofisticados do que hoje se chama de Guerra Híbrida, realizado por forças interessadas em desestabilizar o sistema político como um todo, a candidatura Bolsonaro foi ganhando corpo, ampliando apoios com base num metódico e profissional trabalho nas “mídias sociais”, e se tornando uma alternativa para as forças de centro-direita, ainda que estas estranhassem seus posicionamentos e métodos.

Iniciou-se, no establishment, um processo de cooptação da candidatura. O mercado de capitais passa a apoiá-lo a partir da escolha do banqueiro e economista ultraliberal, Paulo Guedes, para cuidar do setor econômico de um eventual governo. Setores da burguesia industrial e comercial se tornam ativos participantes de sua campanha. O agronegócio, que já o apoiava de forma discreta, assume de vez a candidatura. O setor militar, que inicialmente se restringia ao apoio de alguns oficiais da reserva, passa a apoiá-lo, concordando inclusive com a indicação de um de seus mais importantes quadros, um general do Exército, quatro estrelas, recém-passado para a reserva, para o cargo de vice-presidente. Isso tudo levou a candidatura de Jair Bolsonaro a um status impensável poucos meses antes. Quando faltava um mês para as eleições, ocorreu contra ele um atentado, até hoje não suficientemente esclarecido, e que teve o efeito de transformá-lo em vítima, proporcionando-lhe excepcional exposição na grande mídia e fornecendo-lhe uma justificativa plausível para não participar de debates públicos com os demais candidatos. Com isso, sua candidatura assumiu a dianteira nas pesquisas e ele se tornou o favorito na disputa.

Campanha de Bolsonaro usou intensamente as redes sociais

 

Simultaneamente, a campanha de Bolsonaro inspirava-se na utilização intensa das mídias sociais em campanhas eleitorais estrangeiras, como o plesbicito do Reino Unido acerca da continuidade ou não na União Europeia, ou a eleição de Trump nos Estados Unidos. Contando com sofisticada assessoria nesse campo, e possivelmente apoiado financeiramente por significativos recursos, pôde desenvolver uma verdadeira guerra de guerrilha de informação e contrainformação, utilizando a internet como ferramenta essencial e as plataformas You Tube, Instagram, Facebook, WhatsApp como instrumentos de comunicação direta com o eleitorado. Recursos técnicos modernos, que sem dúvida tiveram importante papel em sua vitória.

Mas o xis da questão é que a campanha conseguiu apresentar, e convencer a maioria do eleitorado, Bolsonaro como o único político capaz de tirar o Brasil da crise civilizacional, moral, ética, política, econômica e social que o país atravessa.

Esse complexo de fatores ideológicos, políticos, econômicos, organizacionais, morais etc. e o uso de modernos meios tecnológicos de comunicação estão, sem dúvida, em destaque entre as causas da vitória de Jair Bolsonaro para presidente da República nas eleições de outubro último.

*Ronald Freitas é jornalista, advogado e membro da Comissão Política Nacional do PCdoB.

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