Vagas que Bolsonaro não poderá preencher


“Essa é a mesma história, a mesma de 2013, os médicos daqui disseram ir para as comunidades e no final não o fizeram, a situação repete-se”, relata uma mulher que de repente veio para se despedir de nossos médicos, e que felizmente ela nos confundiu com eles. “Vocês são do programa Más Médicos”, pergunta Carmen Moreira com a voz embaralhada para um amigo e para mim. Nós respondemos que não, também estamos lhes esperando. A senhora está com pressa e não quer ir embora sem deixar seu agradecimento a quem “têm salvado este povo dando-lhe muita saúde e amor”, ela afirma em um bem-acabado português que meu parceiro ajuda-me compreender: “Eu quero me desculpar pelas palhaçadas do presidente Bolsonaro. Ele está manipulando os médicos lá, mente grosseiramente e temos certeza de que o governo dele não vai conseguir o que vocês fizeram”, diz ela e repete: “Isso, a convocação é a mesma história, que de 2013.”

Em poucos minutos, são muitas as lembranças que me vêm à mente daquele ano; alguns tristes, outros de encorajamento: a morte do melhor amigo que o povo cubano teve Hugo Rafael Chávez Frías, e também de um amado professor universitário, Juan Nuiry Sánchez, no ano do 8vo Congresso da Federação Estudantil Universitária, de Villa Clara, campeão da Série Nacional de Beisebol após 18 anos, de uma grande comemoração familiar do Dia das Mães… mas também é a data em que Cuba começou a participar do Programa Mais médicos para o Brasil.

Penso nas palavras da Carmen Moreira e, justamente, que essa iniciativa de Dilma Rousseff, na época presidente do país carioca, também chegou para garantir o atendimento médico à maior quantidade da população brasileira, pois os profissionais desse país nem de outras nações registradas para completar vagas de assistência sanitária não foram para os lugares mais necessitados.

“A maioria dos médicos que são formados nesta nação o fazem nas universidades públicas, são pessoas com muito dinheiro, elite…, que têm famílias médicas e, depois da formatura, infelizmente não têm interesse em atuar na periferia, nas favelas, nos confins dos desertos, é mesmo por isso que os cubanos vieram e o povo está muito agradecido por seu trabalho”, refere o jovem Everton Sousa, membro do Movimento Paulistano e da Brigada de Solidariedade Sul-americana com Cuba.

Assevera que infelizmente ele fala da sua Pátria, mas as realidades não podem ser escondidas. «Os médicos que se dizem “patrióticos” partidários do neofascista Bolsonaro irão agora servir nas periferias? Sabemos que não, e que o que está para vir para o Brasil é algo muito terrível, viveremos numa ditadura, porque o novo presidente foi escolhido para ser um ditador, mas ele disfarçou tudo.

Lembre-se que em 2013, o Brasil possuía apenas 1,8 médicos por mil habitantes. Menos do que México, Uruguai e a Argentina. E, que nestes cinco anos de trabalho nossos colaboradores atenderam 113 milhões de 359 mil pacientes, em mais de 3 mil 600 municípios, resultando que um universo de até 60 milhões de brasileiros era coberto por eles na época em que constituíam 80 por cento de todos os médicos participadores do programa. Outro dado: mais de 700 municípios tiveram um médico pela primeira vez.

 

¿ALEJADOS DE LA CIVILIZACIÓN?

Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde, por meio da qual é realizada a participação da Maior das Antilhas, “os lugares onde os cubanos trabalham foram oferecidos inicialmente aos médicos brasileiros que não os aceitaram” devido a seu distanciamento da “civilização” e a falta de condições básicas para viver de maneira confortável.

Precisamente, relatos da imprensa brasileira de setembro de 2013 evidenciaram essa situação. “Um dia antes de findar o prazo para comparecer nos municípios em que trabalharão através do Programa Más Médicos, 53 por cento dos médicos brasileiros selecionados pelo programa ainda não têm se apresentado para trabalhar. Ao todo, 47 por cento – 511 profissionais em um universo de 1096- já iniciaram suas atividades nas unidades básicas de saúde”, relataram.

Naquela época, Alexandre Padilha, ministro da Saúde do Brasil, disse que o quadro reforçava “o diagnóstico do drama vivido pelos municípios e Estados quando fazem uma seleção pública para médicos: nem todos comparecem para começar seu trabalho, e avisava que ia” procurar substituir com brasileiros ou estrangeiros ».

As lembranças são compartilhadas agora também, ao chegar ao aeroporto internacional Governador André Franco Montoro, melhor conhecido como Guarulhos, aonde veio homenagear a atitude de um grupo de colaboradores que partem para Cuba. Ao mesmo tempo, qualifica como desastroso o impacto da saída dos médicos para a saúde pública brasileira, algo que continua escondendo na sua face.

“Alguns profissionais compareceram ao nosso chamado em 2013”, aponta, e lembra-nos que eles quiseram negociar a carga horária de trabalho e isso não o admitiram. “O fato é que não podíamos aceitar quem apenas queria trabalhar um ou dois dias por semana ou sair de férias três dias depois do início do Mais Médico.

“Vale lembrar que os amigos cubanos somente foram chamados depois que 11 mil vagas não foram ocupadas pelos brasileiros, que têm prioridade na seleção. Então, cada ano era repetido a convocação para nossos médicos, quem infelizmente não completavam as vagas”, diz o também político brasileiro e médico de doenças infecciosas.

Nós distanciados da civilização? Nada disso, diz-me sorrindo a doutora Yisel Celina Fuentes Rueda, quem estava locada no município de Piracicaba. “Era um lugar muito pequeno e isolado, mas ali estamos interagindo com a população, uma população muito carinhosa. Tínhamos vários serviços e também atuávamos como psicólogos e amigos.

“Deixei meus pacientes chorando e houve muitos que me pediram para ficar, não para deixá-los. Despedimo-nos entre a gratidão e a incerteza de quem os atenderá agora. Por isso, é importante que esse município, como os demais nos quais trabalhamos, tenha reposição imediata, para evitar um vácuo”, acrescenta.

APENAS A DOENÇA DO DIA

 

Cinco anos depois, a futura administração de Jair Bolsonaro emitiu um plano de emergência para cobrir as vagas deixadas pela partida de nossos profissionais. De acordo com o balanço atualizado do Ministério da Saúde, 97,2 por cento das vagas no novo Edital do Programa Mais Médicos já foram cumpridas e 8278 médicos já estão designados no município para atuação imediata.

Porém, como nos advertiu, Renato de Souza Lemos, médico da família e da comunidade, formado pela Faculdade de Medicina Latino-americana em 2009 e supervisor do Mais Médicos, isso não deve acontecer, pois aqui “cada formatura é uma para o mercado, para o consumo Os médicos querem fazer parte do programa, mas das capitais, e não há ninguém para alocar, por exemplo, na Amazônia.

“Aqui temos médicos plantonistas, mas eles tratam a doença do dia, e não dão acompanhamento médico, enquanto não seja substituído, ficará sem esse serviço”, ressalta e lembra que os formados em Cuba, “não apenas aprendemos medicina, senão também como tratar o paciente da maneira mais humana possível e como se colocar no lugar do outro”, enfatiza.

Parece que essas coisas não são compreendidas por Jair Bolsonaro, quem desde 2016, quando era deputado, tem criticado os Mais Médicos e o profissionalismo com que os cubanos trabalhavam. Posso eu, lhes garantir isso, diz Wanderley Oliveira, um ativista pelos direitos humanos no Brasil, quem recebeu atendimento de nossos médicos.

“A consulta estendeu-se por volta de uma hora e isso nunca teria acontecido com um médico daqui. Você tinha que ver como me olhavam nos olhos e me tocavam e me perguntavam sobre a minha dor. Eles nos acolheram como se fôssemos sua família e enfrentaram situações complexas e fizeram todo o possível para conseguir nossa melhora e sermos curados”, acrescenta.

Agora, como em 2013, os profissionais brasileiros que se inscreveram para substituir os cubanos no Programa Mais Médicos são, em sua maioria, médicos que já ocupam outra posição nos diferentes estados. Sem a entrada de novos médicos, o simples reajuste como dizem vários especialistas, poderia tornar mais grave a saúde, já que os médicos teriam que sair da cidade onde atualmente exercem para tratar pacientes em outra.

Embora Bolsonaro argumente que os médicos brasileiros são capazes de atender a demanda dos serviços de saúde no país, Lincoln Lopes Ferreira, o presidente da Associação Médica Brasileira, disse que “há falta de política, financiamento, estruturação adequada para que a medicina brasileira possa ser exercida em toda a sua plenitude ».

Resta saber se as áreas mais distantes, remotas e pobres…, das populações indígenas serão ocupadas, mas tudo indica que estamos falando do mesmo cão, mas com um colar diferente, como a brasileira Carmen Moreira disse que será a mesma história.

Texto:  YUNIEL LABACENA ROMERO, enviado especial yuniel@juventudrebelde.cu

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