Aldo Arantes, maior liderança jovem de uma geração


É com alegria e orgulho que celebramos hoje os oitenta anos de Aldo Arantes. Seu aniversário é marco de uma travessia em curso, admirável e exemplar, pela persistência invariável na militância aguerrida, qualquer que seja a situação a enfrentar.

Por Haroldo Lima, especial para o Portal Vermelho*

Acervo

 Aldo Arante (ao centro, de terno) quando presidiu a União Nacional dos Estudantes (UNE)  Aldo Arante (ao centro, de terno) quando presidiu a União Nacional dos Estudantes (UNE)

A trajetória política de Aldo Arantes é longa, diversificada e rica. Começa com o jovem líder estudantil que se projeta no cenário nacional em dramático momento de crise; passa pelos vinte e um anos da resistência à ditadura de 1964, com exílio, clandestinidade, prisões, torturas e anistia; percorre o Parlamento na linha de frente de batalhas memoráveis como a das Diretas Já, a da eleição de Tancredo, que pôs fim à ditadura, a da Constituinte, a das quatro campanhas de Lula a presidente, inclusive daquela que o elegeu em 2002. Chega enfim às pelejas recentes contra o golpe do impeachment de 2016 e contra os rumos ultradireitistas que o futuro governo Bolsonaro ameaça seguir.

Em sua caminhada firme, mas tormentosa, Aldo Arantes conheceu mudanças de concepção. Membro da Juventude Universitária Católica, foi dos principais fundadores e Coordenador Nacional da Ação Popular. Comunista, passou a integrar a direção central do PCdoB, em 1973, onde está até hoje.
Experiência tão variada não poderia ser bem contemplada nos limites de um artigo. Por isso destaco aqui apenas um aspecto, o do Aldo Arantes líder estudantil, e o faço principalmente para dar às novas gerações uma notícia e o meu testemunho sobre aquele que foi o maior líder estudantil de toda uma geração e, a meu juízo e de muitos, o maior presidente da União Nacional dos Estudantes, por onde passaram tantos e tão brilhantes quadros.

Aldo era um goiano que estudou Direito na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro/ PUC-Rio e foi presidente do seu DCE em 1960 quando essa entidade lançou o “Manifesto do DCE da PUC” sobre a situação do país. O Manifesto, nitidamente de esquerda, refletia as posições avançadas da Juventude Universitária Católica. Repercutiu intensamente e tornou Aldo Arantes conhecido no meio universitário.

Em Niterói, em julho de 1961, realizou-se o XXIV Congresso da UNE. A força da JUC e o apoio do grupo que em seguida iria para o PC Brasileiro elegem Aldo Arantes presidente da entidade. Entre os seus companheiros de chapa estavam Marco Aurélio Garcia e Roberto Amaral que, 42 anos depois, seriam Ministros do Governo Lula.

O Brasil vivia os sete meses tormentosos do presidente Jânio Quadros. Um conservadorismo interno contrastava com uma política externa independente, que estabeleceu relações diplomáticas com a União Soviética, com a Cuba de Fidel e condenou o colonialismo na África e Ásia. Ocorreram, ainda, gestos simbólicos de grande alcance, como as condecorações ao soviético Yuri Gagarin, primeiro homem a ir ao espaço, e a Ernesto “Che” Guevara, líder guerrilheiro cubano. Os Estados Unidos e a direita brasileira ficaram enfurecidos.

Aldo Arantes foi presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE)

Eleito presidente da UNE, Aldo Arantes pede audiência ao presidente da República e Jânio Quadros o recebe em período crítico. Três dias antes condecorara Guevara, três dias depois renunciou.
Logo após a renúncia, os três ministros militares declaram que não iriam permitir a posse do vice-presidente João Goulart, que estava na China, nem mesmo deixariam que ele entrasse no país, por ser de esquerda. Era a crise, em toda a sua plenitude.

Então, o inesperado acontece. E nas terras gaúchas uma resistência audaz se levanta, sinalizando que o golpe não seria aceito passivamente, que a Constituição seria respeitada e assumiria a presidência da República quem de direito, o vice João Goulart. Um líder destemido pôs-se à frente dessa insubmissão – o governador Leonel de Moura Brizola. O Comando do III Exército, o maior destacamento do país, sediado no Rio Grande, junta-se ao governador.

A situação era de grande tensão. Forças que se entrincheiravam, quando Aldo Arantes desembarca em Porto Alegre e vai logo a Brizola comunicar que a UNE se perfilava ao lado da resistência. Incontinente, pela “Cadeia da Legalidade”, a voz de Aldo se espraia por todo o Brasil, dando conta de que a “palavra de ordem” da UNE naquele momento, para todos os estudantes universitários brasileiros, era de greve geral até a posse do presidente legal do Brasil.

A crise da “legalidade” demorou 14 dias. O país esteve à beira de um choque armado. Houve ordem para aviões bombardearem o Palácio Piratini onde estava Brizola. A ordem foi truncada e não foi cumprida. Um comando do Exército destituiu o brigadeiro Aureliano Passos da base aérea de Canoas. Armas começaram a ser distribuídas ao povo. A “Cadeia da Legalidade” mobilizava a população.

Os estudantes de todo o país enchiam as assembleias, ganhavam as ruas e empolgavam-se quando Aldo Arantes, pelas ondas da “Cadeia da Legalidade” dirigia-se vibrante, pleno de indignação e entusiasmo, do alto de seus 22 anos, para levar a orientação da UNE a todos os estudantes do Brasil, conclamando-os a permanecerem em greve até a vitória.

Um acordo foi feito, Jango entrou no país e tomou posse em setembro de 1961, num arranjo parlamentarista aprovado de última hora. A UNE e seu presidente escreveram uma página valorosa, de alcance histórico. E foi assim que começou a gestão de Aldo Arantes na presidência da UNE.
Em pleno parlamentarismo improvisado, Jango começou a levantar a campanha pelas “reformas de base” e o debate político-ideológico se espalha pelo país.

Nesse momento a UNE estreita relações com um grupo de artistas desejosos de formar um movimento para ajudar na politização das massas através de teatro, música e livros, e cria, em 1962, o Centro Popular de Cultura, conhecido como o CPC da UNE. Do seu núcleo inicial participaram o sociólogo Carlos Estevam Martins, o dramaturgo, ator e diretor de teatro Oduvaldo Viana Filho (Vianinha) e o cineasta Leon Hirszman. Aldo, sua turma na UNE e aquele grupo de artistas tiveram a percepção clara de que a cultura poderia ser fator fundamental na mobilização política.

O CPC da UNE teve um poder aglutinador enorme. Dele participaram Ferreira Gullar, Chico de Assis, Paulo Pontes, Carlos Lyra, Gianfrancesco Guarnieri, Luís Werneck Vianna, Armando Costa, Capinam, Cecil Thiré, Carlos Vereza, Cacá Diegues, Eduardo Coutinho, Moacyr Félix, Sérgio Ricardo e muitos outros.

É então que o presidente da UNE projeta outra iniciativa de grande efeito: mobilizar a diretoria da UNE e o CPC para uma marcha pelo Brasil, para levantarem, através de peças teatrais, músicas e discursos os temas político-sociais do momento junto às massas estudantis e populares. Era a UNE-Volante.

Pelo seu desempenho na “Crise da Legalidade”, Aldo granjeara muito prestígio e fizera amizade junto a Brizola, o que facilitou o acesso da UNE a um avião da Viação Riograndense, a Varig, que levou a caravana da UNE-Volante por três meses a quase todas as capitais do país. Apresentações teatrais foram feitas em palcos públicos, debates diversos eletrizaram auditórios de trinta e seis universidades. Doze CPCs estaduais foram criados.

Ocorre que no curso da UNE-Volante, Herbert José de Souza, o Betinho, Aldo Arantes e outros trataram de fazer numerosas articulações por onde passaram, principalmente com políticos da JUC, profissionais liberais e trabalhadores, consultando-os sobre a possibilidade de integrarem um novo partido político que pensavam criar, de esquerda, socialista, não confessional, não estudantil, não vinculado a nenhum outro existente. As articulações tiveram grande sucesso. Quando a UNE-Volante terminou, a nova organização, Ação Popular, estava pronta e apareceu como a maior organização política de esquerda do movimento estudantil brasileiro da época.

Aldo Arantes (à esquerda, de bigode) quando deputado constituinte e Haroldo Lima (ao centro, de óculos)

Relembrando o líder estudantil Aldo Arantes do início da década de 1960, queremos que o Aldo que hoje completa oitenta anos sinta-se homenageado pelos de sua geração e sobretudo pelas novas gerações, de quem se espera o prosseguir, o adiante, a coragem, a reflexão. “Tropeços são aceitos, recuos nunca”. (Luciete Valente)

 Haroldo Lima é membro do Comitê Central do Partido Comunista do Brasil e testemunha dos
fatos relatados envolvendo o Aldo Arantes.

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