Ramonet: A opinião pública não quer verdades, quer confirmar crenças


“Na física quântica é possível estar em dois lugares ao mesmo tempo. Hoje estamos diante de informações quânticas. (…) A verdade não é relevante, não é mais pertinente, e por isso se colocou esse conceito de pós-verdade ou verdade alternativa: você tem a sua, eu tenho a minha”, diz o jornalista frânces Ignácio Ramonet

Por Cíntia Alves, do GGN

Foto: David Fernández

 

Em novembro de 2018, La Casa Encendida, um centro cultural de Madri, divulgou no Youtube o vídeo de uma mesa de debate com o jornalista francês Ignácio Ramonet, autor de “A Explosão do Jornalismo” na era da internet.

No início dessa década, Ramonet viajava o mundo propagando ideias sobre como as novas tecnologias da informação e comunicação (TICs) catapultaram a ascenção dos “meios-polvo” sobre os “meios-sol”. Qualquer cidadão com um dispositivo conectado à internet agora opera como um propagador de mensagens ou produtor de conteúdo, dinamitando o monopólio da imprensa tradicional.

Por um lado, esses avanços tecnológicos representaram a democratização dos meios de informação mas, de outro, já perto do final da década, ficou claro que esses mesmos avanços nos levaram diretamente a uma segunda explosão do jornalismo: no mérito, uma desvalorização ou desqualificação do conteúdo feito por profissionais, somada à uma crise de confiança que desbaratou emissoras de TV e rádio, jornais impressos e digitais, blogs e afins.

Manipulado ou espontâneo, certo é que esse desinteresse de parte da sociedade acerca da verdade factual lapidada pelo jornalismo profissional virou terreno fértil para as fake news.

No vídeo abaixo, Ramonet comenta suas perspectivas sobre a era da pós-verdade, notícias falsas e uso das redes sociais por populistas de direita na América Latina, Estados Unidos e Europa.

A partir de 1 hora e 6 minutos de vídeo, ele trata da eleição de Jair Bolsonaro neste contexto de sociedade organizada em rede, com cidadãos fortemenete inclinados a formular uma verdade própria.

O GGN destacou alguns trechos desse momento do debate:

“Para entender a comunicação no século XXI é preciso entender que naturalmente a opinião pública não busca a verdade. O que a opinião pública busca são informações que confirmem suas crenças prévias.

O que acaba de passar no Brasil de Bolsonaro?

Há uma investigação sobre Bolsonaro ter utilizado oficianas de ciberguerra para infiltrar no WhatsApp mensagens falsas.

No Brasil, as empresas ajudaram Bolsonaro financiando a difusão de mentiras.

Em particular:

– Que o Haddad havia distribuído um kit gay aos meninos de 6 anos nas escolas.

– Que o homem que apunhalou Bolsonaro era militante do PT e amigo de Lula. E havia uma foto de um meeting de Lula com o esfaqueador, uma foto manipulada.

– Uma atriz com os olhos roxos, difundiram que ela foi agredida porque gritou em favor de Bolsonaro. Ela faleceu há 2 anos.

– Disseram que Haddad defendia o incesto e o comunismo.

– E difundiram que se Haddad ganhasse as eleições, ira aprovar uma lei para legalizar a pedofilia.

São exemplo de fake news que permitiram a Bolsonaro ganhar a eleição.

A internet não impede que uma informação falsa possa se difundir.

Todas as controversias se alimentam, todas as teses são válidas. Todas as afirmações são legítimas. É a teoria da relatividade em matéria de informação. Não há informação mais válida que outra, se eu a afirmo com mais força.

Na física quântica é possível estar em dois lugares ao mesmo tempo. Hoje estamos diante de informações quânticas.

Foulcault dizia que a verdade tem uma história. Finalmente o mundo funciona com uma ideia de verdade não-científica, não-racional, que ele chamava de “verdade raio”, porque se manifesta num momento, num lugar e numa pessoa.

No século XVIII apareceu a “verdade céu”. Um metro mede um metro seja aqui ou em qualquer lugar do planeta.

A pergunta que faço hoje é se estamos abandonando a “verdade céu” para regressar à “verdade raio”.

Estamos sendo enganados pela ideia de que podemos ter crenças que se podem introduzir no nosso pensamento.

Os psicólogos nos dizem que preferimos crer em realidades alternativas do que na realidade real porque nos dá mais prazer emocional.

Nos EUA, 61% já se informam através do WhatsApp.

Escrevemos o que pensamos que as pessoas querem ler, não a verdade.

A pós-verdade e os meios alternativos estão reposicionando o campo da informação, modificando a batalha eleitoral e contribuindo na influência da opinião pública. É um problema para a democracia, o emocional das verdades fictícias.

É perigoso porque a historia nos ensina que quando desaparece a verdade, também desaparece a liberdade.”

“Já não influenciam os meios influentes?”

Estão aparecendo novas formas de governo. No mundo democrático, globalmente, tinhamos governos conservadores, progressistas ou de alianças entre os dois. De uns anos para cá, estamos vendo surgir organizações políticas que vencem as eleições e que não correspondem a nenhuma dessas famílias políticas que conhecemos.

Em vários países europeus, mais recentemente na Itália, temos visto a ascensão do governo populistas que fazem a Europa entrar numa nova etapa política, em que a questão das imigrações e das novas tecnologias são importantes.

Hoje o funcionamento da democracia está em crise. Estamos entrando em uma nova era da política em que as regras do jogo não estão funcionando. Há uma crise de confiança nas democracias.

Em vários países da América Latina, a maioria responde que entre um governo democrático sem emprego e um governo autoritário que promova empregos, eles preferem o segundo. É o que estamos vendo na Europa.

Uma parte da sociedade já não crê na democracia e na economia neoliberal.

A crise de 2008 provocou uma crise de desconfiança traumática na economia de mercado tal como estava sendo dada.

As sociedades que pensavam ter deixado a pobreza para trás viram como os ricos continuaram bem durante a crise e isso ajudou a desencadear a crise da democracia.

Nem o neoliberalismo, nem o marxismo tradicional, nem a sociodemocracia têm conseguido responder às mudanças dessa sociedade que não se vê representada na classe política.

Ao mesmo tempo, estamos com dificuldade de encontrar uma agenda política com a qual nos identificamos diante da oferta.

O caso mais emblemático é o de Trump. Sua eleição constitutiu um verdadeiro traumatismo.

Como alguém atacado por todos os meios hegemônicos pode ter sido eleito? A mesma pergunta pode ter sido feita sobre Bolsonaro.

Trump tinha a mídia e Wall Street contra ele. Todos os grandes intelectuais e todos os grandes pensadores e formadores de opinião estavam contra.

A mesma coisa com o Brexit: toda a vida inteligente estava contra o Brexit.

Fica a pergunta: já não influenciam os meios influentes?

As coisas mudaram com a internet. Não estamos no mundo midiático que conhecemos por muito tempo.

Agora, todos somos meios. E todos podemos nos comparar com grandes canais de televisão. É uma revolução copernicana. Todos podemos produzir conteúdo.

Os meios dominantes impuseram a moral e a agenda política. A imprensa era capaz de criar uma manipulação de massa sutil para conduzir a sociedade na direção desejada. Isso se rompe com a democratização dos meios de comunicação.

Trump, por exemplo, não foi a programas de televisão durante a campanha. E diz que a imprensa é inimigo do povo. Os EUA têm 4 grandes canais, sendo a Fox um deles, o único em que Trump vai.

Trump tem 55 milhões de seguidores no Twitter, o dobro de espectadores que assistem a um telejornal. E tem mais 24 milhões de seguidores no Facebook. Tem mais do que os meios tradicionais, que estão perdendo audiência.

O meio dominante hoje são as redes sociais. Está fragmentada, mas é o meio domintante. Não há nenhum canal de televisão hoje que tenha mais influência que os chamados digital influencers.

Não podemos mais pensar que a TV tem influência. Muita gente tem TV para ver Netflix ou canais privados. Hoje os indivíduos podem se comunicar por suas redes e alcançar mais gente do que os grandes canais de comunicação. É uma revolução comunicação de grande envergadura.

Os meios de massa deixaram de ser meios dominantes e devemos perguntar se continuam sendo meios de massa ou só meios hegemônicos, porque os meios sociais são os novos meios de massa. Eles é que estão fazendo mudança no plano político e eleitoral, inclusive.

“A verdade não é mais necessária”

A vitória de Trump também demonstrou que a verdade não é mais necessária. Para ganhar a eleição, você não precisa se apoiar na verdade. A verdade não é relevante, não é mais pertinente, e por isso se colocou esse conceito de pós-verdade ou verdade alternativa: você tem a sua, eu tenho a minha.

As fake news, a construção de uma falsidade é algo que a gente pensava ser normal, já existia. Mas profissionalmente é algo novo. Foram uma parte do debate político, como se fossem algo normal.

Estamos impactados e traumatizados pelo universo da comunicação estar colonizado pelas falsas notícias.

Fonte:GGN

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