Haroldo Lima: O PCdoB e a presidência da Câmara


Sente-se uma movimentação política contrária à posição que o PCdoB está construindo, e ainda não concluiu, para a eleição a presidente da Câmara dos Deputados. Aparecem protestos e advertências contra o que seria um erro do Partido.

 

 

Alguns desaprovam a posição que o Partido constrói por acharem, sinceramente, ser ela uma posição equivocada. São pessoas nossas, gente de esquerda e até militantes, com quem eventualmente podemos divergir, na busca do melhor caminho.

Há os que, sendo nossos aliados, enxergam a oportunidade de tirar uma “lasquinha” no PCdoB, fomentando uma onda contra o Partido, na esperança de que isto pode lhes ser útil na próxima campanha eleitoral, na sucessão do sindicato ou na entidade estudantil. São oportunistas.

Há ainda os que alardeiam decepção com o Partido, deformam suas posições, incitam freneticamente os ânimos contra ele e o criticam com tal virulência, que revelam, na verdade, estarem satisfeitos em ver o Partido ser criticado. Esses são nossos adversários históricos, que se fingem de esquerda para ganharem autoridade nas nossas áreas e dizerem que estão descontentes com os comunistas.

Em todas essas situações, devemos ficar atentos com os problemas postos, enfrentá-los com serenidade, não nos envolvermos no alarido que tumultua, tomar as iniciativas que o momento e nossa responsabilidade exigem e, sempre que possível, esclarecer os fatos.

Reiterar, por exemplo, que não há duas eleições, a de 2018 e agora a de 2019, na Câmara. A de 2019 é consequência da de 2018, é seu desdobramento. Quem ganhou a de 2018, vai ganhar a de 2019, pois o pessoal que aí vai votar é, majoritariamente, a turma vitoriosa em 2018. Os partidos que chegaram à maioria nessa eleição – extrema-direita, direita, centrão – vão agora escolher as pessoas que dirigirão a Câmara. Mas eles têm que observar o Regimento da Casa, que não permite o trucidamento das minorias. De qualquer forma, quem ganhou em 2018 não vai entregar o comando da Câmara a quem perdeu. E quem perdeu fomos nós.

Como a Câmara é uma Casa eminentemente política, as minorias, apoiando-se no Regimento, tem alternativas a seguir.

Podem, por exemplo, em grupo ou individualmente, simplesmente aderir às forças dominantes. Os traidores assim procedem.

Podem lançar candidato avulso para marcar posição e projetar algum nome, correndo o risco de mostrar a insignificância da força que o apresentou. Na eleição para a presidência da Câmara, de 2015, o PT insistiu em lançar candidato próprio, que recebeu apoio da esquerda, mas não do centro. Este saiu separado. E o Psol resolveu “marcar posição”, saindo com candidatura própria e teve oito votos. Resultado, ganhou Eduardo Cunha, o promotor do impeachment que redundou no desastre que está por aí.

Finalmente podem seguir a alternativa que PCdoB e PDT estão construindo. Identificar, entre os setores que estão galvanizando apoios, um candidato que tenha alguma tradição de defesa da instituição, que respeite forças políticas diferenciadas e de esquerda, e não as “tratore”, que garanta a essas forças espaços nas comissões temáticas e outras que surjam, indispensáveis a uma atuação parlamentar eficiente de inspiração popular. Na situação posta, essas condições estão levando ao nome do Rodrigo Maia.

Agora uma questão: estaremos apoiando então o candidato do PSL, do partido do Bolsonaro, como adversários e “mui amigos” estão a vociferar?

De forma alguma. Isto é calúnia oportunista que serve para engrandecer o PSL e Bolsonaro.
Desde que apareceu a hipótese de o capitão reformado ganhar a eleição de 2018, que o PSL começou a trabalhar para ter o comando da Câmara, seja com um presidente de suas próprias fileiras, seja com um bolsonarista de primeira hora.

A deputada do PSL de São Paulo, eleita com mais de um milhão de votos, Joice Hasselmann, sobre o assunto declarou ser “muito natural que o PSL pleiteie o comando da Câmara” (O Globo, G1, 22.10.2018). Luciano Bivar, presidente licenciado do partido, e eleito deputado federal por Pernambuco, na mesma oportunidade, disse haver um “movimento” para que ele disputasse a presidência da Câmara. (id)

Caminhando nesse rumo, o PSL logo começou a ter problemas. Analistas registraram, por exemplo, que “o PSL deve ter dificuldade nas negociações com os outros partidos, por ter muitos membros em primeiro mandato” (Cláudia Tavares, O Globo). O próprio Bolsonaro teria admitido não ficar seu partido com a presidência da Câmara.

O peso da inexperiência e a arrogância do PSL foram afastando setores do centro político e a imprensa já informava ainda em outubro: “Investidas do PSL por comando da Câmara irritam deputados do Centrão”. (Revista Exame, 18.10.2018).

No final de 2018, os projetos do PSL para a presidência começam a desandar e já em janeiro de 2019 naufragaram. “O partido do presidente da República abre mão de disputar a Presidência da Câmara dos Deputados”, informa a Gazeta do Povo, do Paraná, em 08.01.2019.

A desistência não foi acompanhada de um apoio imediato e tranquilo à candidatura do Rodrigo Maia, com quem o PCdoB já vinha discutindo espaços políticos e garantias há mais tempo. Havia certa má vontade contra o Maia, como se deduz da postura do filho do presidente assim anunciada, “Eduardo Bolsonaro descarta apoio do PSL a Maia: outras preferências” (O Globo, G1 10.12.2018)

Apesar de “outras preferências”, no início de janeiro de 2019, o PSL delibera apoiar Rodrigo Maia e negocia com ele os termos do apoio.

Agora bem. As conversações e buscas de espaços e garantias do PCdoB com o Rodrigo Maia já estavam avançadas quando o PSL, derrotado em seu intento de comandar a Câmara, a despeito de já ter descartado publicamente o apoio a Maia e de “ter outras preferências”, à falta de alternativa, vem apoia-lo. E aí o PCdoB que faz? bate em retirada, potencializando o apoio a Maia do recém chegado PSL? Estaria o mais experimentado partido do Brasil ao sabor do PSL? Se ele vier “a gente sai”, se não vier “a gente fica?”.

De forma alguma. Está certo o Líder da bancada federal Orlando Silva ao dizer que “o PSL ensaiou construir um candidato à presidência da Câmara dos Deputados e não conseguiu. Todos viram a lista de alternativas (a presidente da Câmara) apresentadas pelo presidente eleito, que não incluía Rodrigo Maia. E os parlamentares do clã Bolsonaro falavam que “o tempo de Maia passou”. Completava Orlando: “é o PSL que tem que se explicar.” (O Antagonista, 16.01.2019)
O PCdoB não está fazendo nenhum bloco com o PSL. Isto é difamação e falsidade. Porque todos sabem, mesmo os que tentam esta difamação, que, na linha de frente da luta renhida que nosso povo terá que travar contra o governo reacionário do Bolsonaro estará, com destaque, o PCdoB.

*Haroldo Lima é membro da Comissão Política Nacional do Comitê Central do Partido Comunista do Brasil.

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