O ministro “predador” de Bolsonaro e a segunda morte de Chico Mendes


Alguém disse – e foi o jornalista Apparício Torelly (1895-1971), o Barão de Itararé – que, “de onde menos se espera, daí é que não sai nada”. Esse irreverente adágio até poderia ilustrar as primeiras semanas do governo Jair Bolsonaro (PSL), já tão fartas de retrocessos. O problema é que, não bastasse o próprio presidente da República, há todo um ministério ávido a inverter a máxima do Barão e provar que o pior desse governo emergirá, muito provavelmente, das fontes mais óbvias.

Por André Cintra

 

O ministro Ricardo Salles, no <i>Roda Viva</i>: uma personificação do governo que fala e volta atrás sem pararO ministro Ricardo Salles, no Roda Viva: uma personificação do governo que fala e volta atrás sem parar

No solo rude da Esplanada dos Ministérios, entre sementes de moros e damares, vélez e guedes, ernestos e helenos, a mudinha que germinou no começo de semana, encontrando seu lugar ao sol – ou sob o radar das redes sociais – foi a de salles. Quem a regou foi o ministro do Meio Ambiente, o advogado Ricardo Salles, um dos neoliberais menos enrustidos do governo federal. Constam em seu currículo a criação do movimento Endireita Brasil e a filiação ao Partido Novo.

Em entrevista nesta segunda-feira (11) ao Roda Viva, da TV Cultura, Salles mostrou a que veio. Quando o jornalista Ricardo Lessa, apresentador do programa, perguntou sua opinião sobre o líder seringueiro e ambientalista Chico Mendes (1944-1988), Salles tentou fugir do assunto: “Eu não conheço o Chico Mendes. Eu tenho um certo cuidado em falar sobre coisas que eu não conheço”.

Era mentira, e a tentativa do ministro de contemporizar sua resposta demonstrou a contradição: “Eu escuto histórias de todo lado. Do lado dos ambientalistas, mais ligados à esquerda, o enaltecimento do Chico Mendes. As pessoas que são do agro, que são da região, dizem: ‘Olha, o Chico Mendes não era isso que é contado (…). O Chico Mendes usava os seringueiros para se beneficiar, fazia uma manipulação da opinião’”.

“Beneficiar em quê? Ele morreu pobre…”, retrucou Lessa. “O fato é que é irrelevante. Que diferença faz quem é o Chico Mendes neste momento? Eu sou um homem muito pragmático”, irritou-se o ministro. Educadamente, a jornalista Cristina Serra lembrou que o trabalho de Chico Mendes é reconhecido até pela ONU, que lhe agraciou com o Prêmio Global de Preservação Ambiental das Nações Unidas. Ao que Ricardo Salles se exasperou: “Mas a ONU reconhece um monte de coisa errada também”.

A reação do ministro é, antes de tudo, contraditória para uma pessoa que, de início, se declarou leiga no assunto – e ainda disse ter “certo cuidado em falar sobre coisas” que não conhece. É igualmente inaceitável para qualquer gestor que assuma a pasta do Meio Ambiente e ignore a robusta história das lutas ambientais no Brasil. Por sinal, o ministério responde pelo Instituto Chico Mendes de Biodiversidade, voltado à gestão das áreas de conservação.

Acrescente-se que, em mais um ruído do governo Bolsonaro, Ricardo Salles nem sequer procura alinhar-se à narrativa de seu chefe. Em 22 de janeiro, na plenária do Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, Bolsonaro ousou dizer duas mentiras sobre o status ambiental do Basil.

“Somos o país que mais preserva o meio ambiente”, declarou, primeiro, o presidente. Num ranking elaborado em 2018 pelas universidades Yale e Columbia, ocupamos apenas o 69ª lugar entre 180 países em termos de políticas ambientais. O estudo, por sinal, é apoiado pelo Fórum Econômico.

Segunda fake news: Bolsonaro emendou que “nenhum outro país do mundo tem tantas florestas como nós”. A Rússia, sozinha, tem uma área florestal equivalente a todo o território brasileiro. De quebra, o Brasil é um das nações com um dos maiores índices de desmatamento no Planeta.

A genérica conclusão do discurso de Bolsonaro em Davos é válida para todo e qualquer chefe de Estado: “Nossa missão, agora, é avançar na compatibilização entre a preservação do meio ambiente e da biodiversidade com o necessário desenvolvimento econômico, lembrando que são interdependentes e indissociáveis”. Mas as premissas falsas de sua fala tornam a promessa tão implausível quanto demagógica. A nomeação de um ministro do tipo “predador”, alérgico à preservação ambiental e à sustentabilidade, desqualifica ainda mais a pregação bolsonarista.

Se a “semente de salles” brota, assim, na capital federal tal qual a de outras espécies exóticas, há de se reconhecer que, em contraponto ao clima seco e hostil de Brasília, a grande mídia ajudou decisivamente a fertilizar o solo. Não consta que jornalistas brasileiros tenham cobrado Bolsonaro no Fórum Econômico por tantas e tamanhas falácias sobre o meio ambiente no País. A tarefa coube, sobretudo, à mídia alternativa e a algumas agências de checagem.

Em meio à semeadura errática, o fantasma de Chico Mendes confunde e assombra Ricardo Salles. Em menos de um minuto de sabatina no Roda Viva, o ministro diz desconhecer o líder seringueiro, depois demonstra conhecimento de causa ao julgá-lo “irrelevante” e, por fim, sentencia que as Nações Unidas erraram no reconhecimento à sua luta. Salles é mais uma personificação do governo que fala e volta atrás sem parar.

De duas, uma: ou o ministro padece de uma ingenuidade primária, a ponto de ser tão facilmente desmascarado diante das câmeras; ou o governo Bolsonaro, de laços promíscuos com as elites da mineração, da agricultura e de pecuária – além da madeira –, terá de renunciar em breve à dissimulação.

Nada disso diminui o simbolismo da vida e do legado de Chico Mendes, que foi covardemente assassinado às vésperas do Natal de 1988, a mando do fazendeiro Darly Alves da Silva. Fundador do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri, líder do 1º Encontro Nacional de Seringueiros e idealizador do Conselho Nacional dos Seringueiros, Chico Mendes fez a voz dos “povos da floresta” ecoar até mesmo fora da região amazônica.

Já a voz de Ricardo Salles terá de se fazer ouvir e convencer no Judiciário, uma vez que, como secretário estadual do Meio Ambiente do governo Geraldo Alckmin (PSDB), em São Paulo, seu passivo está em xeque. Apesar de ter ficado menos de dois anos no cargo, ele avançou na privataria irresponsável dos parques públicos, adulterou mapas de manejo ambiental do rio Tietê e foi condenado por improbidade administrativa.

Com a Lei 16.260/2016, sua gestão liberou a concessão, por 30 anos, de nada menos que 25 parques – dos quais 18 têm populações tradicionais (caboclas, caiçaras, indígenas, quilombolas e ribeirinhas). A medida foi objeto de uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) no Supremo Tribunal Federal, além de representações no Ministério Público Federal e na Procuradoria Geral da República.

Em São Paulo, Salles não deixou saudade, a não ser para os arautos e os executores da predação ambiental. Agora, ao tentar promover a segunda morte de Chico Mendes, o ministro ratifica que seu público-alvo é tão-somente o setor ruralista. Se há ministério de onde se pode esperar o pior, aí está o Meio Ambiente sob o governo Jair Bolsonaro e o comando de Ricardo Salles.

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