PCdoB se fortalece unido com o PPL


Em congressos conjuntos, o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e o Partido Pátria Livre (PPL) selaram a união das duas legendas históricas. O PCdoB se fortalece com a incorporação e a esquerda se revigora para enfrentar o governo Bolsonaro, defender os interesses da nação e os direitos trabalhadores. O evento ocorreu no domingo (17), no  Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo. Os congressos tiveram a coordenação dos secretários de organização do PCdoB e do PPL, Fábio Tokaski e Miguel Manso.

 

 

A seguir, trechos das intervenções de dirigentes e militantes dos dois partidos, agora unificados sob a legenda do Partido Comunista do Brasil.

Luciana Santos

Março, com suas chuvas de fim de verão, vai marcando uma vez mais a saga do Partido Comunista do Brasil. Com essas palavras, a presidenta do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Luciana Santos, iniciou a sua intervenção nos congressos extraordinários, realizados no domingo (18), que oficializaram a união da legenda comunista com o Partido Pátria Livre (PPL). Segundo ela, a corrente revolucionaria se fortaleceu com essa decisão. Para Luciana Santos, o PCdoB, que no próximo dia 25 completará 97 anos de existência, escreveu uma página importante na história.

A incorporação do PPL, de acordo com ela, é um feito de grande magnitude e sentido histórico. “Trata-se do reencontro de correntes revolucionárias, que possuem em suas inspirações mais longínquas, a Revolução de Outubro de 1917, a primeira experiência de um modelo alternativo ao capitalismo. E que fizeram ao longo de seus percursos a defesa da nação, da democracia, do desenvolvimento e dos direitos suas bandeiras”, registrou.

Luciana Santos também considerou que a opção firmada por PPL e PCdoB vai muito além do cumprimento de burocráticas “cláusulas de desempenho” instituídas pelas forças do golpe de 2016 como forma de impedir a livre atuação de legendas históricas da vida política nacional. “As organizações que ora se congregam empunham um projeto transformador para o Brasil: a retomada do desenvolvimento nacional soberano, com a reconquista da democracia e a ampliação dos direitos sociais e trabalhistas”, afirmou.

Segundo ela, em tempos de profunda crise do capitalismo, de ascensão no mundo de forças da extrema-direita, com características fascistas até, a grande questão é a perspectiva. “Existe ou não alternativa ao capitalismo?”, indagou. “O socialismo nasceu no século XX, com a gloriosa Revolução Russa e se desenvolve no século XXI como a grande alternativa para os dilemas da humanidade”, respondeu. Para ela, a nova luta pelo socialismo se ergue da brava resistência dos trabalhadores e das trabalhadoras, e das nações contra as imposições neocoloniais do sistema dominante.

É uma alternativa que se alimenta do poder criador do marxismo, que se renova e se mostra capaz de interpretar os grandes dilemas e problemas da atualidade, e da pertinácia do movimento revolucionário que, mesmo ainda sob defensiva estratégica, está presente e atuante em países de todos os continentes, explicou. Para Luciana Santos, o socialismo no século XXI está vivo e pulsante nos países que, mesmo enfrentando grandes adversidades, mantiveram sua construção, segundo as singularidades de cada um.

A presidenta Luciana disse ainda que os comunistas têm a convicção de que a união dessas duas legendas revolucionárias, PCdoB e PPL, fortalece a luta dos que almejam construir uma sociedade democrática, mais justa, desenvolvida e soberana, dos que defendem a construção do socialismo no Brasil. “O Partido é um instrumento da ação política, de luta para conquistar o poder político, por transformar a sociedade em benefício da ampla maioria da população”, avaliou.

Para ela, com os congressos os revolucionários deram um passo a mais na construção de um Partido forte, com solidez ideológica, flexibilidade e amplitude tática, que compreenda a natureza e os anseios do povo, uma força organizada, com ampla militância em distintas esferas da sociedade e com unidade política e de ação. “A incorporação do PPL ao PCdoB é decorrente da compreensão de fortalecermos a luta política e de nos colocarmos à altura das tarefas e dos desafios de uma realidade instável, regressiva, perigosa, no mundo e no Brasil”, avaliou.

Ela falou também dos perigos que pairam sobre o Brasil, que ameaçam a sua existência como um Estado democrático, soberano e independente. “Estamos vivenciando uma das mais graves crises econômicas e políticas de nossa história recente. As forças que ascenderam ao poder procuram estabelecer um amplo processo de reorganização do Estado brasileiro, que passa pela revisão dos marcos do Estado Democrático de Direito e sua dimensão garantista; pelo desmonte dos instrumentos econômicos de promoção do desenvolvimento; pela liquidação do patrimônio nacional; e pela eliminação dos direitos conquistados”, explicou.

A presidenta do PCdoB observou que trata-se de uma luta que tem por objetivo instaurar um novo regime político, de feição autoritária, retrógado nos costumes e ultraliberal, que procura realinhar o Brasil aos Estados Unidos com uma postura que se assemelha à vassalagem. “A nossa unidade fortalecerá a resistência a este governo nefasto”, enfatizou. “Apesar da força que preserva, em menos de três meses já há evidências de perda de prestígio do presidente, seja pelos números das pesquisas de opinião, seja pelo humor das ruas, como veio à tona no carnaval e nos protestos do 8 de março, marcados por manifestações de rechaço a Bolsonaro”, afirmou.

Segundo ela, é urgente que as forças sociais e as instituições permanentes da nação e do Estado se conscientizem das consequências da situação atual. “Precisamos construir uma resistência alvissareira que requer definirmos com exatidão os alvos que buscamos priorizar. Por mais justa que sejam todas as causas, não é possível fazer frente a todas elas de uma vez. O nosso desafio principal, diante do vasto reagrupamento das forças reacionárias no país, é atuarmos para a união de amplas forças políticas, sociais, econômicas e culturais, do campo democrático, patriótico e popular, para se opor ao governo Bolsonaro, impor derrotas e reveses à sua agenda”, asseverou.

Para Luciana Santos, é no caminhar de uma ativa resistência nas ruas, no parlamento, na luta de ideias que se reverterá as atuais adversidades, acumulando forças e descortinando perspectivas de vitórias vindouras. “Com amplitude, sagacidade e flexibilidade, o campo da oposição pode explorar as tensões e as contradições de interesses e ideias que existem no governo Bolsonaro, na sua base de sustentação no Congresso Nacional e na sociedade. Na base de sustentação, há quem respalde integralmente a pauta da agenda ultraliberal e neocolonial, mas tem restrições ao crescente sufocamento do Estado Democrático de Direito pelo Estado de Exceção”, avaliou.

Neste cenário, disse Luciana Santos, manobras, alianças pontuais e passageiras, podem ocorrer para explorar fissuras no campo adversário como fator de reforço da jornada oposicionista. “Temos desafios gigantes. Mas nós, comunistas, somos feitos de uma fibra que se rejuvenesce em momentos como este. Nossa luta a partir de hoje ficará mais forte e combativa com os companheiros do PPL. É momento de valorizarmos nossa inteligência coletiva, nossa ação nas ruas, nos âmbitos institucionais. O carnaval deu o sinal: é hora de pormos o bloco nas ruas”, concluiu.

Sérgio Rubens

Sérgio Rubens, o então presidente do PPL e agora um dos vice-presidentes do PCdoB, ao lado de Walter Sorrentino — os Estatutos da legenda comunista preveem a existência de mais de um vice —, falou em seguida e agradeceu a indicação para o novo posto. Afirmou que se sentia honrado “em poder ajudar a companheira Luciana a dirigir o PCdoB”. “Para nós, a incorporação é um primeiro passo para a unificação. Nós não aprendemos e não concordamos com uma estrutura partidária que se organiza por tendências. Isso acaba parecendo um casamento com separação de bens, que não é muito próprio para um partido ligado ao mundo do trabalho”, disse ele. “Essa questão da separação de bens é para quem tem muitos bens. Então nós somos a favor do casamento com comunhão de bens”, afirmou.

Para Sérgio Rubens, a concentração das forças revolucionárias, com a união do PPL e do PCdoB, é um processo vital. Ele fez referência a um texto do dirigente comunista chinês Mao Tse-tung, de 1938, chamado “Problemas Estratégicos da Guerra Revolucionária na China”, relacionando-o com as necessidades contemporâneas das forças de oposição no Brasil. “A concentração de forças é um método que geralmente se usa para destruir o inimigo quando ele está na ofensiva. Se o inimigo é mais forte, e está na ofensiva, você precisa concentrar as forças para poder destruí-lo”, disse.  “A nossa unificação representa uma primeira resposta a essa situação de ofensiva estratégica do inimigo. Nós sofremos uma derrota. Por isso é vital fazermos a concentração de forças para podermos isolar e derrotar o inimigo”, ressaltou.

Ele disse que não há 100% de unidade, mas ela pode ser desenvolvida e aprofundada, superando determinadas divergências, não nas questões de fundo, mas no ritmo com que se aplica uma ou outra medida. Sérgio Rubens comentou aspectos do socialismo científico e do comunismo, conceitos que sempre precisam ser discutidos, mas afirmou que o fundamental, nesse momento, é trabalhar de forma decidida para montar uma frente ampla, trabalhar com a ideia de duas frentes e isolar o bolsonarismo, que representa o fascismo, ideia que tem muitas variantes. Para Sérgio Rubens, o esquema Bolsonaro fez a junção de quase tudo o que não presta. “Ficou pouca coisa fora desse processo obscurantista. É isso que precisamos isolar”, destacou.

“Precisaremos fazer uma política de frente com setores amplos da sociedade. Será unidade em questões pontuais. Na questão da Previdência, por exemplo, alguns setores podem ficar do lado do governo, mas na Escola Sem Partido, não. Eu não posso fazer uma frente neste momento apenas com quem pensa uma alternativa ao governo igual à nossa, porque isso seria dar mole para o inimigo. O que está na ordem do dia não é um programa alternativo, mas sim o isolamento do governo”, observou.

Na política de isolar o governo, segundo Sérgio Rubens, “é possível que setores que apoiam algumas medidas contra o povo decidam não votar nelas para não fortalecer politicamente Bolsonaro”. “O determinante é constituir uma frente que pense a alternativa a ser apresentada, um programa nacional e democrático. A política de resistência se dá em todos os campos, inclusive do ponto de vista eleitoral”, explicou.

Segundo Sérgio Rubens, é importante trabalhar num programa não só para governar o Brasil, mas para também isolar o bolsonarismo. Ele citou, como exemplo, a eleição da Mesa da Câmara dos Deputados, quando os partidos de esquerda optaram por caminhos diferentes. O mesmo pode ocorrer no caso da Previdência, com votos contrários do campo mais conservador para não fortalecer Bolsonaro. Para ele, já está bem claro que esse governo significa um processo de atropelos à democracia.

Sérgio Rubens registrou também que o PPL chegou ao fim desse processo praticamente inteiro, registrando a compreensão do partido sobre essa importante decisão. Agora, afirmou, o importante é trabalhar a questão da resistência democrática. “Precisamos desenvolver um programa. O PCdoB precisa apresentar, mais para frente, um programa e uma candidatura para a Presidência da República”, destacou.

Ele fez um breve comentário sobre as consequências da “reforma” da Previdência Social e enfatizou o objetivo da ofensiva contra a estrutura sindical. Para Sérgio Rubens, essa ofensiva tem o objetivo de desmontar a organização dos trabalhadores, os mais combativos opositores deste governo. Comentou, também, a importância da unidade das entidades sindicais que, juntas, têm mais forças e condições de luta. E terminou com a citação de Cláudio Campos, histórico líder do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), que deu origem ao PPL: ter a cabeça fria, o coração quente e as mãos limpas. “Eu acho que o PCdoB tem essas três características”, concluiu.

Orlando Silva

O deputado federal Orlando Silva (PCdoB-SP) discursou em seguida, afirmando que a união entre o PPL e o PCdoB incorpora um conjunto de líderes e militantes da defesa do socialismo, uma força patriótica muito grande. E complementou dizendo que os comunistas honram a tradição daqueles operários que em 1922 fundaram a corrente comunista no Brasil.

Ele lembrou as complexidades do Brasil, as dificuldades que exigem um grau de consciência muito elevado e, ao mesmo tempo, cabeça fria, recorrendo ao pensamento  de Cláudio Campos, citado por Sérgio Rubens. “Cabeça fria para que não caiamos em nenhuma armadilha. A necessidade de construir a frente ampla tem denominador comum: a defesa da democracia, que ganha faces distintas no curso da luta política”, afirmou.

Orlando Silva disse ainda que os comunistas têm um compromisso profundo com a luta dos trabalhadores. “Vivemos uma das mais duras ofensivas do capital sobre o trabalho no Brasil. Não apenas na retirada de direitos; eles perderam a vergonha e tentam ferir de morte a luta dos trabalhadores e o sindicalismo, imaginando que ao tornar inviável a atividade sindical, ao tornar clandestina a atividade sindical, vão inibir a luta do nosso povo”, destacou.

Segundo ele, os trabalhadores brasileiros têm experiência e lutam no terreno em que a luta se der. “É democrático termos os sindicatos atuando livremente. Não há democracia no mundo que não tenha liberdade e autonomia sindical. Vamos lutar no terreno que for necessário para garantir a soberania do nosso país, a democracia e os direitos do nosso povo”, concluiu.

João Vicente Goulart

João Vicente Fontella Goulart, destacou que os integrantes dos dois partidos que se uniram têm uma caminhada de lutas contra as ditaduras e compromissos com o povo brasileiro. Goulart registrou que muitos deram a vida para deixar os passos marcados, agora seguidos pelos que defendem a democracia.

Para ele, a alma dos militantes das duas organizações se ilumina pela nova esperança que surge da junção entre PPL e PCdoB. “A alma se ilumina quando dentro dessa esperança temos a condição de criar uma nova alternativa para esse país, uma nova propositura para libertar o povo brasileiro daquilo estamos vivendo”, registrou, complementando que agora há novos tipos de ditaduras e golpes, como o presenciado na atualidade do Brasil.

Goulart asseverou que esse processo de união haverá de dar os frutos da resistência e o caminho a ser seguido, num primeiro momento contra o governo fantoche, de servilismo, liderado pelo presidente Jair Bolsonaro, que se traduz no combate à “reforma” da Previdência e na construção de outras alternativas, uma proposta para a libertação do Brasil. Para ele, a lembrança e o resgate da história dessas organizações são importantes, mas o determinante é que a esperança da luta por dias melhores para o país está cada vez mais consolidada.

Irapuam Santos

Em seguida falou Irapuan Santos, então presidente d PPL no Rio de Janeiro, resgatando o legado de militantes das duas organizações, como João Amazonas, Maurício Grabois, Stuart Angel e Cláudio Campos. “Essa união de forças tem condições de superar esse momento duro. Vamos aplicar uma derrota na questão da Previdência, como primeiro passo”, afirmou, asseverando que este governo já foi longe demais quando acabou com o Ministério do Trabalho. “Os trabalhadores são o principal alvo. Ele sabe de onde vem a resistência. Unindo essas forças e o conjunto das forças populares, através das entidades de massa, não vamos permitir que se faça essa tentativa de destruir a Previdência. O trabalho se apoia no salário e nos direitos conquistados”, afirmou.

Jandira Feghali

A líder da Minoria na Câmara dos Deputados, Jandira Feghali (PCdoB-RJ), disse que daria o testemunho de que via nos dois congressos as pessoas com brilho no olhar e uma alegria “que nos entusiasma profundamente”. “Digo que só é possível esse brilho no olhar e essa alegria em pessoas que trazem em si o histórico de valores fundamentais da solidariedade, do afeto e da luta profundamente vinculada à luta da nossa gente, ao povo brasileiro e àquelas pessoas que em toda uma vida se doam, se vinculam, se articulam e trazem dentro de si esses valores que são fundamentais para a continuidade da nossa batalha e da nossa luta”, afirmou.

Segundo ela, é possível perceber em pessoas que nutrem o ódio e a intolerância, valores dos que querem o aniquilamento de quem pensa diferente, valores antidemocráticos, que contrastam com “esse brilho e essa poesia, essa alegria e essa possibilidade que temos na nossa militância e na nossa vida” de fazer transformações sociais. “Estou sinceramente feliz ao ver que conseguimos construir algo tão belo, tão brilhante, tão entusiasmado, como o que vejo nesses congressos nesse momento”, afirmou, lembrando que está fazendo 38 anos de militância no PCdoB.

Jandira Feghali reverenciou a memória de João Amazonas, de Elza Monnerat e do capitão Lamarca, “brutalmente assassinado pela ditadura”. “Amazonas e Elza Monnerat, que foram fundamentais, como Maurício Grabois, na luta armada que merece a nossa homenagem, que foi a Guerrilha do Araguaia” destacou. “Eu quero aqui expressar a minha profunda emoção e alegria ao dizer que nesse momento complexo da vida política do Brasil, em que teremos desafios imensos e profundos, sabemos que nesses congressos estamos integrando forças revolucionárias, marxistas, que defendem a soberania nacional, a revolução, o socialismo, a nacionalidade, e que sabem que a opressão tem caráter de classe, de gênero, de raça”, asseverou.

Jandira também considerou que naquela reunião conjunta das duas instâncias máximas de decisão do PCdoB e do PPL estavam representados setores da sociedade brasileira como a negritude, a juventude, as mulheres, a cultura, “aquilo que devemos expressar na nossa militância”. “Não vamos permitir o machismo, o racismo, a opressão de classe; vamos enfrentar isso com altivez, com as nossas ideias, com a nossa coragem e a nossa ousadia”, enfatizou. “Que esse governo nos aguarde! Vamos enfrentar tudo isso com a nossa história e com a nossa capacidade de luta, articulada com a luta social que saberemos, de forma unificada, colocar nas ruas deste país”, destacou.

Jandira Feghali disse ainda que para quem acha, como este governo, que as mulheres não devem estar na política enfrentará uma mulher comunista liderando a oposição na Câmara dos Deputados. Ela também afirmou, “com toda a expressão da minha emoção”, que a integração dos marxistas do Movimento Revolucionário 8 de outubro e dos trabalhistas, representados por João Vicente Goulart e por Brizolinha (Carlos Brizola, mais conhecido como Brizola Neto), era uma grande alegria por “saber que estaremos juntos, nos unificando não apenas na luta institucional, mas na luta das ruas, do movimento feminista, do movimento sindical, enfrentando e certamente derrotando esse governo”.

Jandira Feghali disse não ter dúvidas de que na luta haverá a derrota do fascismo, do fundamentalismo, da tentativa de aniquilar a luta política brasileira. “Estaremos, comunistas e trabalhistas, em frente de unidade não apenas na esquerda, mas na frente ampla, da qual precisamos, porque está em risco a liberdade, a democracia, a soberania brasileira, os direitos do povo, os direitos da população mais pobre deste país, das mulheres, dos jovens, dos negros, de todos aqueles que lutam por essa pátria livre, por esse Brasil solidário, por esse Brasil socialista”, concluiu.

Márcia Campos

Márcia Campos, fundadora da Confederação das Mulheres do Brasil e ex-presidente da Federação Democrática Internacional das Mulheres (FEDIM), falou em seguida, destacando a importância do combate à “reforma” da Previdência Social. “Quero fazer uma saudação especial à companheira Jandira Feghali pela reunião em Brasília, compondo uma grande frente que ainda vai ficar maior, porque agora que viram que ela é capaz ninguém quer ficar de fora. Todo mundo vai correr atrás, e a Jandira na frente”, disse ela, referindo-se ao encontro, articulado pela liderança da minoria, que deu início às mobilizações contra a PEC da “reforma” da Previdência Social.

Ela também saudou Luciana Santos, como forma de homenagear as mulheres. “Quero saudar a Luciana por acreditar no povo brasileiro, homens e mulheres como esses que estão aqui, por acreditar que era possível juntar esses dois partidos revolucionários, juntar como uma mãe faz, ao lado de uma mesa, de forma fraterna”, enfatizou. “Eu nunca vi momento tão bonito como esse, mostrando que a gente se superou, se emocionou, se abraçou, e que teve a segurança de que estava fazendo o certo. E quando a gente faz o certo, não dá para ninguém; a gente conquista o que precisa”, asseverou.

Manuela d’Ávila

Manuela d’Ávila, que foi candidata a vice-presidente da República, disse que os dois partidos estavam unindo as militâncias na perspectiva do que significa o histórico dessas organizações. “Unir as nossas militâncias é uma necessidade diante da tragédia imposta pelo último pleito eleitoral, mas o desafio é transformar essa tragédia em algo extraordinário”, destacou. Segundo ela, os congressos se traduziram na realização do “nosso sonho, da nossa alegria, uma festa para os militantes do Partido Comunista do Brasil”.

Para Manuela d’Ávila, essa união é resultado de um esforço cotidiano das militâncias no “enfrentamento do pior dos governos eleitos democraticamente em nosso país”, ressaltando que as duas organizações, de um mesmo campo político mas com trajetórias distintas, se aproximam pelas causas e razões vinculadas às ideias de que é possível o Brasil encontrar o caminho para o seu desenvolvimento, valorizando o trabalho e a classe trabalhadora.

Segundo ela, a compreensão do significado da questão nacional por essas organizações não é pouca coisa. “Isso é algo grandioso. Somos organizações marcadas pela defesa da soberania dos povos, pelo respeito inabalável ao direito dos povos decidam seus caminhos”, destacou. “Nos conhecemos destas frentes de batalhas, da defesa do Brasil, da democracia e do desenvolvimento no nosso povo. Somos organizações que sempre tremulam as bandeiras da pátria brasileira, com orgulho”, enfatizou.

Manuela d’Ávila também afirmou que isso é sim é a defesa da pátria, “não esse patriotismo fake que diz gostar do Brasil, mas não do povo brasileiro, porque nação sem povo não existe”. “Somos organizações que defendem a nação e o povo, não esse patriotismo vulgar, que olha só pra cima, para céu, para os Estados Unidos”, enfatizou. Ela falou ainda do significado perverso da proposta de “reforma” da Previdência Social.

Nilson Araújo Souza

Nilson Araújo Souza, diretor da Fundação Instituto Cláudio Campos, destacou que a união do PPL com o PCdoB é um fato de grande importância também para o povo brasileiro. “Estamos fortalecendo o instrumento de vanguarda do nosso povo para travar as lutas que são necessárias neste momento”, afirmou, lembrando que inicialmente surgiu a ideia da integração, a partir de uma questão legal, a superação da cláusula de barreira.

Mas a ideia foi muito além à medida que as duas organizações se conheceram melhor e se deram conta de que a identidade entre elas era muito maior, o que resultou numa integração mais profunda, destacou. Segundo ele, apesar das trajetórias diferentes os dois partidos têm a mesma característica revolucionária, a mesma raiz, o que torna possível que as eventuais diferenças surgidas pelo caminho sejam resolvidas fraternalmente.

Para ele, o processo foi rápido, mas sem atropelos. “Estamos nos unificando num momento particularmente difícil e complexo da vida nacional, em que, saído das profundezas, o ovo da serpente eclodiu e deu origem a esse caldeirão que está no governo, que consegue juntar o que há de mais rastaquera com a subordinação mais rasteira, mais atrasada, ao império norte-americano”, asseverou. Nilson Araújo Souza disse ainda que o entreguismo mais deslavado está atacando o que resta do patrimônio público e ameaçando os direitos dos trabalhadores, como a aposentadoria e as organizações dos trabalhadores.

Além da ameaça à democracia, afirmou, o Brasil atravessa a crise mais ampla e mais profunda do período contemporâneo. Uma crise que tem como raiz de fundo a dependência externa, a subordinação da economia que drena o fruto do trabalho do povo para a especulação financeira. “Chegamos à conclusão de que o PPL e o PCdoB se unem em torno dessa questão central: um projeto nacional de desenvolvimento”, enfatizou.

Renato Rabelo

Renato Rabelo, presidente da Fundação Maurício Grabois e liderança destacada dos comunistas, afirmou que diante daquele ato histórico lhe vinha à memória lembranças da história do Partido Comunista do Brasil, “esse partido que agora no dia 25 completa 97 anos de existência, caminhando para o seu centenário”. Para ele, essa longa existência se explica não por interesses subjetivos, mas por uma exigência histórica. “Talvez não tivéssemos alcançados este largo período histórico do Partido Comunista do Brasil se a luta dos comunistas no mundo não fosse uma exigência histórica”, afirmou.

Para Renato Rabelo, o mundo vive uma quadra de mudanças de grande vulto, uma mudança gigantesca na base material das sociedades. Segundo ele, revoluções dessa base material, das forças produtivas, as revoluções industriais, como disse Karl Marx, são mais revolucionárias do que o maior revolucionário da sua época. “Vejo essa gigantesca mudança tecnológica como exatamente uma realidade objetiva de grande transformação, mas que impede a transformação no âmbito da chamada superestrutura, as mudanças para os trabalhadores. Acontece o contrário, porque o sistema não é mais capaz de absorver uma quantidade maior de trabalhadores”, asseverou.

Segundo ele, essa contradição gera os chamados “indesejáveis” e o capitalismo procura saídas, por meio de governos fortes, autoritários, para conter a luta desses contingentes. “Chegamos à conclusão de que esse sistema está superado pela história”, afirmou, lembrando que nas revoluções do século XX — especialmente a russa e a chinesa —, essa massa de miseráveis teve uma importante participação. “Se o capitalismo pensa que vai criar camadas crescentes de indesejáveis e deixar esta gente na amargura, está enganado. Esses miseráveis contemporâneos se levantarão também. É assim o processo revolucionário”, enfatizou.

Para Renato Rabelo, quando duas forças revolucionárias se juntam para reforçar a perspectiva de enterrar o sistema capitalista, se configura num fato histórico. Segundo ele, enfrentar e derrotar o governo Bolsonaro é a luta imediata, mas o desafio é a perspectiva do povo, contraposta à saída do sistema capitalista, que busca se manter com governos ditatoriais. “A nossa alternativa é de superar o capitalismo e construir o socialismo, que na cena da história está começando a dar os seus primeiros passos, enquanto o capitalismo já está velho, tem de ir embora na cena da história”, destacou.

Ele acrescentou ainda que na luta pela perspectiva de transformações sociais, a união das forças revolucionárias cumpre papel de grande relevância. Para Renato Rabelo, no cenário partidário brasileiro a união desses dois partidos fortalecesse a luta do povo. A junção do PCdoB com outro partido de origem revolucionária, o PPL, foi um grande feito. “Os comunistas não traficam com princípios”, enfatizou, ressaltando que a união de forças revolucionárias se distingue do conceito de frente ampla, heterogênea.

Para ele, um país como o Brasil, da periferia do sistema e que quer sair dessa condição, tem de ter a questão nacional e patriótica como prioridade. “São fatores importantes, uma amálgama”, enfatizou. Renato Rabelo disse se lembrar de João Amazonas quando ele e outros camaradas ingressaram no PCdoB, oriundos da Ação Popular Marxista-Leninista (APML). Amazonas disse que o fato de eles entrarem para o Partido numa hora de ataques brutais da ditadura, no começo da Guerrilha do Araguaia, era uma demonstração de que eles eram revolucionários.

O mesmo pode ser dito agora sobre o PPL, disse Renato Rabelo. Numa hora como essa, de um regime de governo que tende a ser cada vez mais autoritário, a ponto de impedir a própria liberdade política no país e que os comunistas são alvos, os revolucionários se juntam”, destacou. Ele percorreu a história do PCdoB, em seus processos de reestruturação e reorganização, como a Conferência da Mantiqueira, em 1943, e a Conferência extraordinária de 1962, quando Amazonas teve um papel gigantesco, ao lado dos seus camaradas.

Ildo Sauer

Ildo Sauer, professor universitário e ex-diretor da Petrobras, destacou que numa situação como essa de um governo autoritário a união de forças combativas é fundamental. Para Sauer, este governo está se esmerando em reafirmar o que há de pior nos comportamentos humanos. “Por isso, essa união de forças baseada no ideário comunista, que antes de tudo é a afirmação humanista, da solidariedade, da fraternidade, da igualdade” é o baluarte cravado a partir dos valores da esquerda, para enfrentar as crises que, neste governo, se manifestam no servilismo, na incapacidade de compreender a dinâmica do sistema econômico.

Ele enfatizou que antevê graves crises, baseado no fato de que as “reformas” anunciadas caminham na direção contrária ao que deveria ser, citando, como fator de servilismo, o entreguismo, a exemplo  da Base de Alcântara, no estado do Maranhão, e da Embraer, uma construção tecnológica histórica do Brasil. E disse ainda que o governo Bolsonaro trama também a entrega da usina de Itaipu, “uma fábrica de dinheiro”. Sem falar no petróleo do pré-sal, afirmou, asseverando que o capitalismo tem um histórico de apropriação da energia como base para o seu desenvolvimento. Segundo ele, os ataques à Venezuela são um passo para cravar as estacas no pré-sal brasileiro.

Flávio Dino

O governador do estado do Maranhão, Flávio Dino, muito aplaudido, asseverou que aquele momento era de grande importância e alegria. Para ele, era preciso ressaltar a presença de uma corrente expressiva do pensamento político brasileiro — o trabalhismo de Getúlio Vargas, de João Goulart e de Leonel Brizola —, que ajudou a construir os direitos do povo mais pobre de modo decisivo. Flávio Dino saldou o centenário de nascimento de João Goulart, informando que em junho deste ano seu governo inaugurará um edifício em São Luis, Maranhão, com o nome do ex-presidente.

Segundo ele, a história é feita de momentos como o daqueles ongressos, que nas próximas décadas serão registrados como o momento destacado da capacidade de luta das forças populares, democráticas e patrióticas do país. Para Flávio Dino, esse processo de união entre o PCdoB e o PPL representa “um paradigma profundamente radical, dialeticamente radical, porque só há radicalidade com amplitude”. “Essa é a diferença fundamental da nossa concepção”, enfatizou, complementando que “não se trata de disputar fraseologias ou bandeiras de ordem, mas de rumos” para, como disse Marx nas Teses sobre Feuerbach, transformar a história.

O governador considerou também que ninguém estava ali por questões pessoais ou apenas para dormir em paz, com a consciência tranquila. Nem para disputar a interpretação da história, mas para transformá-la, para “que as nossas ideias sejam aceitas e compreendidas, e tenham a capacidade de conquistar aquilo que perdemos”, destacou. “Quero crer que daqui a algumas décadas esse momento vai ser visto como a afirmação de uma identidade que o PCdoB sempre fiz questão de afirmar: a sua atuação em torno da questão nacional”, asseverou.

Para ele, foi significativo o fato de que a união dessas duas organizações ocorresse exatamente no dia em que “o atual presidente da República comparece servilmente à sede do império para entregar a bandeira nacional ao imperialismo de sempre”. “E nós estamos aqui, dizendo que o verde amarelo pertence ao povo brasileiro, aos mais pobres do Brasil e à nossa nação”, destacou.

Flavio Dino também enfatizou a importância da frente ampla para isolar e derrotar Bolsonaro, lembrando que seu governo é composto por 16 partidos — entre eles, o PPL. Segundo ele, uma frente democrática exige dialogar com diferentes, abrir mão das verdades pré-estabelecidas, dos preconceitos, e ser generoso no conteúdo e na forma, mas nunca perder a dimensão estratégica, “porque senão vamos diluir a nossa identidade”.

Flávio Dino disse ainda que a noção de patriotismo anda de mãos dadas com a questão popular. São conceitos “indissociáveis para aqueles que querem construir uma nação justa e de todos”. Ele falou também da recente reunião de governadores do Nordeste em seu estado, que numa carta manifestaram oposição à chamada “desvinculação de receitas”, proposta pelo governo federal, que tira, nos estados, recursos da saúde e da educação. “Somos contra, profundamente contrários, à ideia de desvincular receitas destinadas à educação e a saúde”, enfatizou.

Outro ponto colocado no documento, afirmou, foi a questão das armas. “Não podemos minimizar o debate das armas. Colocamos no nosso documento dos governadores a defesa do Estatuto do Desarmamento. Isso é nada mais do que a defesa de uma forma da vida. Contra o ódio, a ideia da paz. Contra a intolerância fascista, a ideia de que a fraternidade é o valor que deve presidir o convívio entre os brasileiros. Ser contra a posse e o porte de armas é ser patriota, porque significa defender que haja mais coesão entre a nação brasileira”, afirmou.

Segundo o governador, “a mãe de todas as batalhas se dá em torno da Previdência”. “Quero chamar a atenção para um aspecto: o componente nacional está em jogo na disputa sobre a ‘reforma’ da Previdência. Claro que é uma agressão, um genocídio contra os mais pobres, o fim da aposentadoria dos trabalhadores rurais e os graves constrangimentos impostos aos idosos, às pessoas com deficiência, às mulheres. Mas há um subproduto nisso tudo, que é alienação da poupança dos brasileiros na mão do capital financeiro, por intermédio do tal regime de capitalização”, asseverou.

Outro subproduto, disse Flávio Dino, é o aprofundamento da desigualdade social e regional, ao constranger ainda mais o mercado interno, base para o desenvolvimento autônomo do Brasil. “Os aposentados são um conjunto de cidadãos sem o qual o comércio e os serviços não sobrevivem nos rincões deste país”, afirmou. “Então, a ‘reforma’ da Previdência, além de antipopular, é antinacional”, destacou, enfatizando que a tarefa da hora é derrotar a chamada desconstitucionalização com regime de capitalização.

Ele também recorreu à fala de Sérgio Rubens sobre Cláudio Campos, depois de dizer que aquela união era de pessoas socialistas. “Cabeça fria significa inteligência, significa capacidade de compreender a situação. Só há uma forma de manter o coração quente: respeitar o povo pobre desse país. Se você um dia estiver apto a bater no peito e dizer que é revolucionário verdadeiro, não lembre apenas das páginas de manifestos de Lênin ou das obras de qualquer outro teórico. Olhe para um mãe moradora de rua com uma criança no colo e se aquilo te doer na alma, você é um revolucionário. Olha o idoso, como tantos nesse país nas periferias existenciais de que fala o papa Francisco. Olha as mulheres, olha a comunidade LGBT, os negros, os índios e se você sentir as dores como sua, não importa se você é ou não do socialismo científico, você é um revolucionário

Flávio Dino disse ainda que é importante ter a cabeça fria e o coração quente, mas também as mãos limpas. “Isso não é o farisaico combate à corrupção de alguns. Isso é outra coisa, é ideologia. Mãos limpas é sobretudo todos os dias molhá-las na água da esperança e nas lágrimas do sofrido povo pobre deste país. Com esses atributos, podemos, sim, transformar a sociedade. Por isso que eu finalizo dizendo que mais do que o encontro de duas correntes históricas, mais do que o encontro de ideários, esse é um encontro de pessoas socialistas. Eu tenho muita alegria de rememorar a origem etimológica da palavra companheiro: aquele que compartilha o pão. Somos todos companheiras e companheiros.”

Novo Comitê Central

Ao final foram realizas as votações que resultaram na eleição do novo Comitê Central do PCdoB, com 170 membros, sendo 41 oriundos do PPL. Depois da proclamação do resultado, os delegados e delegadas dos dois partidos, agora todos já como integrantes de uma só legenda, se confraternizaram ao som da Internacional Comunista e do hino oficial do PCdoB, a música “A Bandeira de meu Partido”, de autoria de Jorge Mautner, enquanto os militantes faziam tremular as bandeiras da duas organizações.

Encerradas as atividades dos congressos, o Comitê Central recém-eleito reuniu-se para eleger os novos integrantes da Comissão Política Nacional, assim como da nova Comissão Executiva Nacional, da qual passou a fazer parte, como um dos dois vice-presidentes, Sérgio Rubens.

Da redação do Portal Vermelho

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