Fábio Palácio: A revolução irracional


Nos anos do imediato pós-Revolução Russa, obstáculos hercúleos ameaçavam a sobrevivência do nascente regime socialista. Os desafios multiplicavam-se a cada dia, enquanto os recursos necessários para enfrentá-los, fossem eles humanos ou materiais, mostravam-se pouco à altura da tarefa. Não fosse o bastante, o novo poder ainda se viu obrigado a enfrentar, entre os anos de 1917-20, uma cruenta guerra movida pelas antigas elites tzaristas, que, contando com apoio externo, tentavam a restauração. Ao final de anos de guerra civil, o país encontrava-se em situação falimentar. Era necessário trazer ao primeiro plano as tarefas da reconstrução. Dizia Lênin naquele período: “Temos agora perante nós uma tarefa muito complexa: depois da vitória na frente sangrenta, a vitória na frente sem sangue. Esta guerra é mais difícil” (1).
A luta havia mudado de forma. Suas armas agora eram a retomada da produção e do comércio; a estruturação do controle contábil nas empresas; a elaboração de metas e estímulos factíveis; a implementação de medidas e reformas; a reorganização das instituições políticas e da vida civil. Impunha-se, para tanto, mobilizar maiorias usando apenas a força das ideias. A construção da nova sociedade galgava uma fase por assim dizer negativa para alcançar uma etapa positiva. Era necessário “girar as baterias”, evocando uma nova atitude política. Não mais se tratava de empreender uma tarefa destrutiva – sujeitar o inimigo militarmente e derrubar as velhas estruturas. O momento exigia a abordagem da tarefa construtiva de edificação do novo modo de vida. Era chegada a hora de administrar o país. A respeito da nova situação dizia Lênin:

“Existem momentos históricos em que o mais importante para o êxito da revolução consiste em acumular a maior quantidade possível de escombros, isto é, fazer saltar o máximo de instituições velhas; existem momentos em que, depois de ter feito saltar o suficiente, se coloca na ordem do dia o trabalho ‘prosaico’ (‘aborrecido’ para o revolucionário pequeno-burguês) de limpar o terreno de escombros; existem momentos em que o mais importante é tratar com solicitude os germes do que é novo, que crescem por entre os escombros num terreno ainda mal limpo de entulho. […] É necessário saber encontrar em cada momento particular o elo particular da cadeia a que temos de nos agarrar com todas as forças para reter toda a cadeia e preparar solidamente a passagem para o elo seguinte.” (2)

A fim de coligir sob uma única baliza o conjunto dos desafios colocados, a liderança revolucionária adotaria, a partir de 1920, a consigna construção econômica pacífica (3). Ela buscava traduzir uma mudança de orientação. Esta se encontra codificada, em particular, na expressão “pacífica”, que denota um esforço menos ostensivo e mais habitual, de caráter extramilitar. Não menos digno de nota é o termo “construção”, quando seria possível, e até esperável, que se utilizasse “revolução”, no contexto de uma revolução econômica pacífica. Porém, como em revolução permanente – consigna erguida ainda antes de 1917 por Leon Trótski –, o termo poderia soar inadequado. No momento em que se buscava pôr fim à guerra e reconduzir o país à normalidade, a palavra “revolução” – ainda mais se “permanente” – poderia passar a ideia de um estado continuado de exceção, espécie de convulsão persistente do corpo social.
Por distante que nos pareça a realidade acima narrada, sobretudo quando cotejada com o Brasil de nosso tempo, a história tem sempre algo a dizer. É verdade que o passado por vezes parece discrepar demais do presente para que seja capaz de trazer qualquer aprendizado. Na maioria das vezes, contudo, as lições da história estão ali, a um palmo da razão, mas acessíveis apenas a quem se abre a elas. E o contexto russo do imediato pós-revolução legou um tesouro de ensinamentos, hoje incorporados ao patrimônio da teoria revolucionária.
Neste ponto me permito uma breve digressão. Ao contrário do que pensam mentes estreitas, a teoria revolucionária do marxismo não pertence apenas ao campo socialista. Compõe uma tradição mais ampla de pensamento político realista que inclui nomes como Aristóteles e Maquiavel, entre muitos outros. Ora, da mesma forma que seria medíocre conceber Aristóteles como um pensador restrito à Antiguidade escravocrata, ou Maquiavel como um autor meramente “burguês”, o mesmo pode ser dito de importantes pensadores da tradição marxista: pertencem ao patrimônio universal do conhecimento humano. Servem a todas as correntes que fazem política e desejam empreender transformações. Revolucionar a realidade, todos sabemos, é esforço por demais complexo para ser conduzido de forma espontânea, apenas à base da gana e do arrebatamento – por mais importantes que sejam.

Um fenômeno disruptivo

No Brasil de nosso tempo, a ascensão do bolsonarismo trouxe à cena da história um movimento que se proclama revolucionário. Seu caráter antiestablishment conferiu-lhe, ao longo do processo eleitoral, uma aura de “autenticidade” que ajudou a garantir a adesão de uma população cansada da mesmice e ciosa de alguma rebeldia. Dotado de invejável ímpeto disruptivo, o movimento habilitou-se a encarnar aquilo que unifica todos os conceitos de revolução: a ideia de uma mudança brusca e radical – venha ela das classes sociais ou das ideias. Desde seus primeiros atos de governo, o bolsonarismo bate-se pela subversão do ordenamento jurídico imposto com a Constituição de 1988. Pratica a ruptura até mesmo em áreas como a diplomacia, dotadas da perenidade e dos sólidos alicerces que caracterizam as políticas de Estado.
Em seus primórdios, essa corrente politica soube posicionar-se para as tarefas da fase negativa – aquelas que se impõem antes da chegada ao poder. Quando foi chamado a combater um inimigo convicto e organizado, a esquerda lulista, não hesitou nem um instante. O movimento bolsonarista – muito mais amplo, diga-se, do que o partido que mal o consegue abrigar – dotou-se rapidamente de convicção e disciplina. Diante das exigências dos embates políticos, desenvolveu-se de forma rápida em seus componentes militares.
O termo “militares” pode prestar-se a confusões. No sentido rigoroso em que aqui o empregamos, não designa necessariamente um movimento “de armas na mão” – muito embora já se tenham tornado óbvios os componentes milicianos inscritos no DNA do bolsonarismo. O elemento militar, lembra Gramsci (4), compreende o aspecto propriamente orgânico de uma força política. Trata-se da dimensão imediatamente decisiva, que envolve a capacidade de colocar contingentes em movimento para a execução de missões operativas. Quem conhece a história do esporte e suas origens militares sabe bem do que estamos falando. Uma equipe esportiva bem poderia ser definida como um pelotão desarmado – ou melhor, um pelotão municiado com armas não letais. Este é um fato que línguas como a italiana codificam muito bem, ao chamar, por exemplo, de squadra um time de futebol.
Ainda segundo Gramsci, a dimensão militar envolve dois níveis. De um lado temos o nível técnico-militar, que responde pelos componentes táticos de uma força política, como o nível organizativo e os instrumentos de que dispõe, entre eles o arsenal de comunicação e formação de quadros, quesitos em que o bolsonarismo mostrou-se forte; de outro lado, temos o nível político-militar, que indica o grau de convicção e preparo de uma força política. Para Gramsci, esse segundo nível define-se pela qualidade dos quadros dirigentes e do pessoal de primeira linha, fator que “pode dar a vitória a forças aparentemente inferiores (quantitativamente) àquelas do adversário” (5).
É forçoso admitir, no entanto, que uma coisa é vencer, outra bem diferente é saber o que fazer com a vitória. E é neste ponto que o bolsonarismo apresenta sinais de esgotamento. Passada a etapa negativa de sua missão, o movimento exibe dificuldades em organizar-se como governo para administrar o país. Não consegue passar à fase positiva. O Executivo, sob Bolsonaro, mostra-se incapaz de atuar como maestro, centro coordenador de um conjunto mais largo de instituições estatais. Parece mesmo, muitas vezes, desdenhar das tarefas da governabilidade. Para O Estado de S. Paulo, a “deliberada desorganização política do governo [é] causada por um presidente cada vez mais desinteressado de suas tarefas políticas e institucionais” (6).
Seria de esperar que, como gesto inaugural de governo, o presidente convocasse as lideranças partidárias para conversar, alinhavar consensos e pacificar o país. Seria previsível que envidasse esforços para estabelecer uma sólida base aliada e isolar a oposição. Nada disso acontece. Ao invés de compor com os partidos e coordenar-se com o Parlamento, o governo assanha seus apoiadores contra potenciais aliados, taxados de defensores da “velha política”. Muitos desses aliados, contudo, não apresentam mais do que discordâncias pontuais em relação aos projetos prioritários do governo – se é que são realmente prioritários aqueles que ele jurou defender durante a campanha eleitoral.
Além de indispor-se com o campo eleitoral-parlamentar, o governo trinca relações com outras instituições precípuas da vida republicana, como o Judiciário e a imprensa. Ao assim proceder, não apenas se vê impedido de solidificar maioria. Sujeita-se, ainda, à sucessão de derrotas que vem sofrendo, não apenas no Parlamento – onde assiste à desfiguração de sua proposta de reforma da previdência –, mas também na arena judicial. Nesta, a operação lava-jato, um dos mais poderosos vetores da nova hegemonia, sofre importantes reveses, e o próprio presidente é acuado no tema das “comemorações” do golpe de 1964. Bolsonaro esgueira-se, perigosamente, por sobre o vazio de um precipício mortal: o do completo isolamento político.
Muitos se perguntam: como isso pode ocorrer a um governo eleito ainda ontem, por razoável maioria? Por que agiria Bolsonaro de maneira a insular politicamente seu próprio governo? Haveria método em toda essa loucura? Estaria Bolsonaro buscando desgastar as instituições que não aderem incondicionalmente a suas premissas, ao lançá-las à conta da “velha política”? Teria ele em mente deixar a elas o ônus da desaprovação de seus projetos, caso rejeitados? Em outras palavras, estaríamos diante de uma estratégia tão sofisticada quanto insondável? Ou tudo não passa de simples estultice? A fim de examinar o problema, é útil revisitar o elemento capital de toda construção política: a questão programática. Gramsci contribui para a reflexão sobre o tema quando afirma que uma corrente política só se torna edificadora, construtora, no momento em que se converte em programa, isto é, em partido político com estratégia claramente delineada. Acompanhemos o raciocínio do teórico italiano em suas próprias palavras:

“[…] Pode imaginar-se […] que seja produtivo de efetividade um instrumento que deixa a vontade coletiva na sua fase primitiva e elementar de mero formar-se, por distinção (por cisão), mesmo com violência, isto é, destruindo as relações morais e jurídicas existentes? Mas essa vontade coletiva, assim formada elementarmente, não cessará subitamente de existir, dissolvendo-se em uma infinidade de vontades individuais que adiante, na fase positiva, seguem direções diversas e contrastantes? Isso, além da questão de que não pode existir destruição, negação, sem uma implícita construção, afirmação, e não em sentido ‘metafísico’, mas praticamente, isto é, politicamente, como programa de partido.” (7)

Com base no argumento gramsciano podemos afirmar que, se na fase negativa, definida como “primitiva e elementar”, sobressai-se o conflito – às vezes “com violência” –, na fase positiva deve predominar a cooperação. Só nesse último estágio, quando é enfim chamada a governar, uma tendência política atinge a plenitude programática e efetiva-se como construtora. Uma força que não consegue saltar de uma etapa a outra corre sério risco de dissolver-se “em uma infinidade de vontades individuais” que passarão, adiante, a seguir “direções diversas e contrastantes”. Afinal, dizia o grande Lewis Carrol, quando não se sabe que caminho seguir, todo caminho serve. Qualquer semelhança com os atuais conflitos internos na legenda bolsonarista – hoje menos um partido do que um bando – não é mera coincidência.

Programa contrário à modernidade

No plano concreto de nossa abordagem, a partir daqui algumas questões se impõem: o bolsonarismo atingiu a plenitude programática? Habilitou-se à condição de força construtora? Essas perguntas remetem a outras, que as condicionam imediatamente: o que traz esse movimento à cena da história? Que objetivos inexpugnáveis o movem? O que pretende fazer com o poder conquistado? Tais questões circunscrevem todo o problema, e suas respostas devem ser buscadas nas afirmações da própria liderança bolsonarista.
Já em seu discurso de posse, o presidente localizou o fulcro de seu governo no combate às “ideologias nefastas” que “destroem nossos valores e tradições” (8). Essas ideologias são identificadas com aquilo que o presidente e seus sequazes chamam vagamente de “marxismo cultural”. Este, porém, é muito mais um nome de fantasia. Sublinhe-se, aliás, que qualquer análise do bolsonarismo precisa manter-se atenta a seu léxico, que nem sempre pode ser tomado pelo valor de face. Quando esse movimento ultraconservador diz que luta contra o marxismo, seja ele “político” ou “cultural”, pretende, antes, solapar os valores da Ilustração e as promessas da Revolução Francesa. Tem por alvo a própria modernidade.
Esse programa de retorno ao passado – que já movimentou multidões na Alemanha e na Itália dos primórdios do século 20 – promove verdadeira cruzada contra instituições caras à moderna vida republicana. O bolsonarismo briga com o Parlamento; desdenha dos partidos; desconhece o sistema das Nações Unidas; contraria a liberdade de imprensa; afronta os achados da ciência experimental; censura a arte moderna. Ora, seria muita generosidade chamar tudo isso de mero “antimarxismo”. Como os próprios liberais vão percebendo – às vezes da pior maneira –, o bolsonarismo opõe-se a um conjunto muito mais amplo de ideias e valores do que aquilo que poderíamos chamar de marxismo stricto sensu.
Muitos, como o ideólogo-mor Olavo de Carvalho, pensam poder mandar às favas não apenas o legado de Kant, mas todo o Iluminismo e sua “ganga” racionalista. Isso não é tão simples. Tome-se, por exemplo, a ideia kantiana do imperativo categórico. Quando nos fala das consequências deletérias da mentira e do falso testemunho, em meio a outros exemplos de atitudes moralmente rebaixadas, o pensador alemão nos adverte para o fato de que, embora possamos erigir tais ações em princípios de nossa conduta pessoal, jamais poderíamos pretender que se tornassem normas de ação universal. Se o tipo de conduta que resulta no falseamento ou na distorção pudesse ser tomado como lei universal da racionalidade, isso nos conduziria a paradoxos insolúveis: a informação se converteria no seu oposto, acarretando a implosão do próprio intercâmbio de ideias, incluindo o de ideias falsas. Em outras palavras, a própria circulação de mentiras e falsificações só é possível porque a falsidade não pode ser postulada como regra universal.
O célebre imperativo, assim como outros conceitos caros à Ilustração, incomodam profundamente o bolsonarismo, sempre disposto a torcer a realidade – inclusive a golpes de fake news e falsificação histórica – até que esta se pareça com seus próprios desígnios. É assim que, no fantástico planeta Bolsonaro, o nazismo é de esquerda, a terra é plana e 1964 foi uma epifania democrática. Por bem-sucedidas que se mostrem tais “descobertas” em tempos de obscurantismo, o fato é que, como prova o arrazoado kantiano, há algo na herança civilizatória do Iluminismo de que não podemos nos livrar assim sem mais, de forma tão desinibida. Por isso um programa político de destruição das conquistas da modernidade é tão realizável quanto girar para trás a roda da história. Qualquer governo que se comprometa com um programa como este condena-se ao fracasso antes mesmo de assumir (9).
Bolsonaro e Olavo de Carvalho parecem ter consciência desse fato, mesmo que de forma sub-reptícia. Paulo Guedes, não. Recentemente o superministro da Economia, durante o jantar que reuniu, em Washington, representantes do bolsonarismo e do trumpismo, perguntou ingenuamente a Olavo de Carvalho: “Por que o líder dispara contra a revolução que inspirou?” (10). O que Guedes não percebe é que Olavo – “malandramente”, como diz o funk carioca – antecipa-se ao fracasso de sua própria receita, nomeando de antemão os “culpados” pela derrota de um projeto cuja falência deve-se, porém, apenas à sua própria natureza.

Distopia contrarrevolucionária

Mesmo àqueles cujas lentes turvaram-se pelo cego favoritismo (este sim uma ideologia “nefasta”), a verdade escancara-se límpida a cada dia: o bolsonarismo não tem projeto factível para o país. Por isso receia abandonar a conflituosidade da fase negativa para engajar-se nos esforços ciclópicos requeridos de qualquer revolução em sua fase construtiva. Bolsonaro sabe que não veio para edificar nada. É ele próprio, aliás, quem o proclama, durante o banquete de Washington:

“O Brasil não é um terreno aberto onde nós pretendemos construir coisas para o nosso povo. Nós temos é que desconstruir muita coisa. Desfazer muita coisa. Para depois nós começarmos a fazer. Que eu sirva para que, pelo menos, eu possa ser um ponto de inflexão, já estou muito feliz.” (11)

Os dizeres de Bolsonaro são sempre ricos em significados latentes. É útil esmiuçá-los. Note-se que, mesmo quando fala em “começar a fazer”, é apenas para explicar, logo em seguida, que isso não é para já, que ele já estará “feliz” se for apenas um “ponto de inflexão”. A hora é de desconstrução. A construção não precisa acontecer agora. Bem entendido: a construção não virá. Virá sim, em seu lugar, a destruição dos pilares da ordem democrática erguidos a muito custo e consignados nos mais diversos diplomas legais – do Plano Nacional de Educação à Lei de Diretrizes e Bases, da Lei de Execuções ao Código Penal, da legislação infraconstitucional aos direitos fundamentais garantidos na Constituição de 1988.
O problema de tudo isso é que ninguém ascende ao poder apenas para “desfazer”. É da natureza da política, em sua fase positiva, o fazer construtivo: estabelecer sinergias, cimentar consensos, edificar projetos. A tudo isso Bolsonaro se mostra refratário. Quando diz ser contra a “velha política” – e aqui atentemos novamente ao ilusionismo do léxico –, o presidente quer dizer que é contra a própria política. A política boa e santa que não significa corrupção, mas entendimento e concertação. Bolsonaro é contra a política como já Aristóteles (12) a definia: a forma mais elevada de solucionar conflitos e definir os rumos da comunidade de destino, a pólis.
O bolsonarismo pretende destruir a política em seu estágio supremo para retorná-la a seu estágio “primitivo e elementar”: a guerra. Uma guerra infinita, contra praticamente tudo e todos, pois que uma guerra contra a civilização. Como sustentar um projeto como este de forma puramente intelectiva? Como convertê-lo em racionalidade programática? Como impulsioná-lo sem recorrer ao puro sentimento, ao ardor quase religioso, ao mais completo transe irracionalista?
Não espanta que o bolsonarismo viva à base de arroubos emocionais, oscilando freneticamente entre o eros da autoexaltação e o tanatos do ódio ao outro. Tampouco devia surpreender que assuma por vezes a aparência de um movimento acéfalo. Dotado de claros apetites irracionalistas, dos quais resulta seu pendor anti-intelectualista, esse movimento – como outros fenômenos disruptivos da cena contemporânea – não passa de um brado de fúria contra os excessos da globalização e do neoliberalismo selvagem. Pelas incongruências próprias de sua visão de mundo, contudo, jamais poderá oferecer qualquer solução efetiva. É um subproduto do câncer, não sua cura.
Contra “tudo isso daí”, o bolsonarismo – da mesma forma que o trumpismo, seu irmão siamês – apenas imagina, de forma quase instintiva, o conforto de um passado idílico, a restauração de um estado primaveril anterior à crise. Sequer cogita que as raízes da crise residem precisamente nesse estágio original, e que portanto qualquer solução precisa apontar para a superação, não para a restauração do passado. Até porque esse passado perfeito, ao desenvolver-se, resultaria inevitavelmente, uma vez mais, no futuro do pretérito, que é o nosso presente simples, e não no futuro do presente, que é o que buscam as correntes verdadeiramente renovadoras.
Ao contrário das aparências que a muitos engabelam, o bolsonarismo não é portador de uma utopia, mas de uma distopia. Não é fruto daquilo que todos desejam, mas daquilo que todos temem. Não é uma revolução, mas uma autêntica contrarrevolução. Por isso o núcleo duro de suas propostas jamais poderá ser objeto de negociação, muito menos de consenso. Terá sempre de ser imposto.
Decididamente, não devia causar estranheza que, tornado poder, essa corrente exiba tamanha inapetência para a orquestração política construtiva. Se vive de paixão e entusiasmo, despojado de clareza programática, pouco pode construir. “Sem teoria revolucionária não há movimento revolucionário”, dizia Lênin (13). Com efeito, para enfrentar tarefas destrutivas a febre das emoções é muitas vezes o que vale. Já para saltar à etapa construtiva da administração de governo torna-se imprescindível a ponderação racional em sua forma política superior: o programa de partido. E um programa sem efetividade não é um verdadeiro programa político.
O bolsonarismo vive o dilema das tendências que, como resumiu recentemente a deputada Tabata Amaral (PDT-SP) (14), vivem plenas de “desejos”, mas desprovidas de projeto de futuro. O movimento não sabe ao certo o que fazer com sua “revolução”, pois não possui autêntica vocação transformadora. Afinal, nas palavras de Gramsci, “não pode existir destruição, negação, sem uma implícita construção, afirmação”. Dado que não consegue alçar-se à fase afirmativa-construtiva, o bolsonarismo precisa manter-se em revolução permanente. Só assim consegue abastecer os apetites distópicos de seus seguidores.
Há como ser diferente? Poderia ainda a tendência bolsonarista, ao longo do tempo de governo que lhe resta, empreender uma inflexão, abandonando os excessos e inclinando-se ao centro? Sim, mas apenas ao custo da própria alma. Este é o dilema de Bolsonaro: se insiste em sua “revolução”, isola-se cada vez mais e desnuda a essência destrutiva de seu projeto. Se, porém, desiste de materializar sua ruptura e rende-se ao establishment, torna-se uma espécie de Michel Temer sufragado. Seria um triste fim para fenômeno tão efusivo.

Notas

(1) LENIN, V.I. “IX Congresso do PCR(b) – Relatório do Comitê Central”. In: ________. Obras Escolhidas. V. III. Moscou: Progresso; Lisboa: Avante!, 1982. p. 270.
(2) LENIN, V.I. “As tarefas imediatas do poder soviético”. In: ________. Obras Escolhidas. V. II. Moscou: Progresso; Lisboa: Avante!, 1981. P. 585.
(3) A nova orientação preparava terreno para reformas na área econômica. Com efeito, cerca de um ano após o lançamento da consigna construção econômica pacífica, surgia a Nova Política Econômica (NEP), uma abordagem nova e criativa que buscava, por meio de concessões à iniciativa privada e da criação de sociedades mistas, a exploração de processos capitalistas em benefício da reconstrução econômica. Introduzia-se, em termos práticos, uma modalidade de capitalismo de Estado como forma concreta de transição ao socialismo nas condições de um país semifeudal.
(4) GRAMSCI, A. Quaderni del Carcere. Volume terzo – Quaderni 12-29. Edizione
critica dell’Istituto Gramsci – A cura di Valentino Gerratana. 2ª ed. Torino: Giulio Einaudi editore, 1977.
(5) Id. Ibid. p. 1610.
(6) PROCURA-SE um presidente. O Estado de S. Paulo [online]. 26 mar. 2019. Disponível em: https://opiniao.estadao.com.br/noticias/notas-e-informacoes,procura-se-um-presidente,70002767978.
(7) GRAMSCI, A. Op. Cit. p. 1557.
(8) ALMEIDA, M.R. “Bolsonaro atacou ideologias em discurso ideológico, dizem intelectuais”. Folha de S.Paulo [online]. 4 jan. 2019. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/01/bolsonaro-atacou-ideologias-em-discurso-ideologico-dizem-intelectuais.shtml.
(9) Há, evidentemente, núcleos de apoio ao governo que não comungam in totum com essas concepções, mas isso não significa que possam desvencilhar-se facilmente do comum naufrágio.
(10) DIAS, M.; CARNEIRO, M. “Incomodado, Guedes pergunta por que Olavo dispara contra ‘revolução’ da direita”. Folha de S.Paulo [online]. 18 mar. 2019. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2019/03/incomodado-guedes-pergunta-por-que-olavo-dispara-contra-revolucao-da-direita.shtml.
(11) SOARES, J. “Olavo de Carvalho recebe afagos até dos militares”. O Globo, Mundo, 19 mar. 2019, p. 19.
(12) ARISTÓTELES. A política. 2ª ed. Brasília: Ed. UnB, 1985.
(13) LÊNIN, V.I. “O que fazer?”. In: ________. Obras Escolhidas. V. I. Moscou: Progresso; Lisboa: Avante!, 1981. pp. 96-97.
(14) ROSSI, M. “A jovem deputada que jogou contra as cordas o ministro da Educação e sua ‘lista de desejos’”. El País [online]. 29 mar. 2019. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/03/28/politica/1553801628_869241.html.

* Fábio Palácio é jornalista, doutor em Ciências da Comunicação (ECA/USP) e professor adjunto do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Maranhão (UFMA).

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