Jandira Feghali: 100 dias de um desastre


Esta semana o presidente da República reuniu seus ministros e num espetáculo fake, como é de sua característica, assinou mais um pacote de medidas para marcar os 100 dias de governo. Fazendo marketing com sua caneta bic, no átrio principal do Planalto, revogou 250 decretos, dentro os quais dezenas já estavam extintos por serem temporários e portanto já não tinham objeto. Só estavam na lista para impressionar. Mas outros estavam na revogação essencialmente para restringir a participação democrática da sociedade brasileira nos trinta e cinco órgãos criados para debates e consultas sobre políticas públicas desenvolvidas no país. Cito alguns para explicitar a gravidade da medida: Comitê Intersetorial de Acompanhamento e Monitoramento da Política Nacional para a População em Situação de Rua; comissão Nacional para Erradicação do Trabalho Escravo (Conatrae); comissão Nacional de Alfabetização e Educação de Jovens e Adultos (Cnaeja); Comissão Nacional de Educação Escolar Indígena; Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência (Conade); Conselho da Transparência Pública e Combate à Corrupção (CTPCC); Conselho Nacional de Combate à Discriminação e Promoção dos Direitos de LGBT; Comitê Gestor da Internet no Brasil e o Conselho superior de cinema.

Além do mérito absurdo de muitas medidas assinadas, Bolsonaro foi um embuste durante todos esses meses desde que tomou posse.

Os primeiros 100 dias são emblemáticos para qualquer gestão. É ali que a imprensa traz à opinião pública o primeiro recorte da sua gestão. Apenas o roteiro desgracioso de um Governo sem rumo, sem norte, sem projeto de desenvolvimento econômico, de geração de empregos ou manutenção da soberania de nossa nação.

O Governo Bolsonaro parece uma história kafkiana sem compasso. A estreia dele é com o decreto que amplia a liberação de armas. Nem quatro meses e a população já defenestrou a decisão: mais de 70% da população, segundo o Datafolha, não acredita que estará mais segura com mais pistolas e revólveres por aí.

Nem fevereiro começou e seu braço direito, o ex-ministro Gustavo Bebianno, entrou em choque com a “família 17” e ameaçou jogar algumas verdades inconfessáveis no ventilador. (Fala, Bebianno!) No meio disso tudo passou um motorista apressado, o Queiroz, ex-funcionário do senador Flávio Bolsonaro. A movimentação atípica de mais de R$ 1 milhão em 2016 alertou o COAF e Queiroz foi alçado aos trending topics e questionamentos da população da “valorosa” ética propagandeada pelos Bolsonaro durante tanto tempo. Alguma coisa estava errada. Queiroz e Flávio seguem fora dos holofotes. (Cadê, Queiroz?)

O Governo passou pela audácia ditatorial de querer filmar, sem autorização dos pais, crianças em escolas públicas cantando o hino nacional e repetindo o slogan de campanha do ex-capitão. Na sequência, o Carnaval e os tuítes pútridos sobre uma cena dantesca. Bolsonaro reduziu o período que movimenta mais de 6 bilhões de reais ao país num ato isolado de atentado ao pudor. Vendeu uma imagem péssima ao mundo. Virou, para nossa vergonha, o presidente “Golden shower”.

Aliás, seguindo sua busca de colonizado, foi vender o Brasil e lamber as botas de Trump, submisso aos interesses do Império, depois foi negar a grande articulação regional do Mercosul e Unasul e conseguiu ser rejeitado até pelos direitistas do Chile por agredir a história do povo chileno, pois não escondeu sua admiração pelo ditador sanguinário Pinochet. Manteve a trilha dos elogios aos mais repulsivos, como fez com o paraguaio sanguinário Stroessner.

E veio o Golpe de 64 sendo comemorado por ele! Mais um ataque à democracia e toda a história daqueles que morreram ou sumiram do seio de suas famílias pelos crimes da Ditadura militar brasileira. Depois, em abril, entre risos nervosos com a imprensa, anunciou que acabaria com o horário de verão. Ó, tempos que vivemos!

Na esteira de atrocidades, a reforma da Previdência, que tramita na Câmara dos Deputados ameaçando o futuro de milhões de pessoas. Sobre esta, nem se fala! Precisamos derrubar!

A que veio Bolsonaro?

Não só a gente, oposição parlamentar, questiona. É o povo que clama, angustiado e sofrendo. Os 13 milhões de desempregados, as indústrias quebrando, as empresas fechando, os miseráveis com fome. Salário mínimo abaixo do possível e da lei. Privatizações de áreas estratégicas em curso para serem entregues ao capital estrangeiro, riquezas do povo brasileiro, biodiversidade em risco. Mortes e tragédias acometeram seu estado de origem, o Rio, e ele não conseguiu sinalizar solidariedade. Fuzilamento de uma família por soldados do exército brasileiro e parece que está tudo bem!
É o pacote anticrime, de seu Ministro Moro, autorizando mais execuções, sem punição.

A avaliação do desempenho do governo e a do presidente, em todas as pesquisas, é a pior de todos os tempos! O presidente é uma arapuca do mercado, uma aposta malsucedida da elite do país e de fora do Brasil. E isso já está bem claro, em apenas 100 dias de um desastre.

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