O internacionalismo e a luta anti-imperialista são princípios do PCdoB


Em pronunciamento no Encontro Nacional Sobre Questões Internacionais do PCdoB, realizado nesta sexta-feira (3) e sábado (4), em São Paulo, a presidenta da sigla, Luciana Santos, reforçou a necessária análise da situação internacional para a compreensão do que ocorre hoje no Brasil.

Por videoconferência, direto de Recife, a também governadora em exercício de Pernambuco, Luciana Santos, ressaltou os movimentos que estão em curso na cena internacional. Para ela, a sua compreensão são de grande envergadura. “As peças do tabuleiro da geopolítica se movimentam intensamente, produzindo impactos no Brasil e em nosso entorno”, explicou.

Organizado pelo vice-presidente do PCdoB e secretário nacional de Relações Internacionais Walter Sorrentino e pelo jornalista Wevergton Brito, o debate “O Brasil e o Mundo em crise – Dilemas e perspectivas” contou com a participação dos principais quadros com atuação na área, como a ex-deputada federal Jô Moraes (que presidiu a Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados), o economista Luis Fernandes (ex-presidente da Finep), a socióloga Ana Prestes, o especialista em geopolítica, Ronaldo Carmona, Márcio Cabreira, Nilson Campos, entre outros.

Em sua fala, Luciana Santos ponderou sobre a análise do cenário mundial, onde a ascensão da direita tem sido notória. Para ela, “uma mudança de época desta magnitude provoca tensões, ações e reações, contradições e conflitos. “Somos contemporâneos das guerras hibridas, contínuas, também chamadas de Quarta geração”.

O imperialismo continua usando a força para coagir aos povos e nações seus interesses. Nesse quadro impõe-se “uma visão própria dos acontecimentos do mundo, sob o prisma dos interesses nacionais e de objetivos concretos, que em última instância alimente nossa ação política em torno do nosso Programa e da construção de um Novo Projeto Nacional de Desenvolvimento como caminho ao Socialismo no Brasil”, disse Luciana.

“Uma sociedade que não possui uma visão própria de si, que não tenha um Projeto Nacional está destinada a ser subserviente a outras Nações”. É por isso que o estudo, analise e acompanhamento da “dinâmica internacional deve ser constante”. Só se pode “compreender os fenômenos que se desenvolvem no Brasil a partir de uma visão abrangente dos fenômenos, buscando compreender quais são suas correlações externas, e como elas incidem sobre nossa realidade”, enfatizou a presidenta do PCdoB.

Para a dirigente comunista, “vivemos”, disse, “o fim de um ciclo político que durou 30 anos, e a emergência de um governo que se desenvolve em um contexto marcado por crises múltiplas, e onde a instabilidade se demonstra um fator estrutural”.

Nesse contexto, “o perfil do governo Bolsonaro é antinacional, retrógado nos costumes, ultraliberal na economia, e de forte conotação autoritária”, disse.

“Em nossos debates temos destacado, entre os fatores internacionais que incidiram na emergência do fenômeno Bolsonaro, a crise do capitalismo e da globalização neoliberal; as lutas pelo estabelecimento de uma nova ordem mundial e as disputas por sua hegemonia”.

Economia

A crise econômica de 2007/2008, que resultou em milhões de desempregados, eliminou direitos, fragilizou nações, não foi superada. “As medidas para a retomada da atividade econômica têm se demonstrado limitadas. Num cenário global de instabilidade o ambiente econômico é marcado por incertezas”, disse.

A tendência principal da economia mundial é de forte processo de desaceleração do comércio internacional e rebaixamento das metas de crescimento.

“A Organização de Cooperação para o Desenvolvimento Econômico (OCDE), reduziu a meta de crescimento da União Europeia de 1,8% para 1%; economistas do Banco Central dos EUA (FED), chegaram a afirmar que o crescimento baixo será o ‘novo normal’ da economia dos EUA”. Apenas países como a China e Índia estão entre os poucos que têem conseguido manter o crescimento.

“O capitalismo em sua fase atual, neoliberal, regido pela financeirização, somada às transformações produtivas decorrentes das inovações tecnológicas, tem ampliado o fosso entre o capital e o trabalho, produzindo a retirada de direitos e a desvalorização do trabalho, e gerando uma enorme massa de desempregados, de indesejáveis, de seres descartáveis”, assegura ela.

“O velho liberalismo político, cosmopolita, que modelou a União Europeia (UE) e instituições multilaterais, tem sido questionado por uma nova direita, ultraliberal na economia, autoritária na política e conservadora nos costumes”.

Neste quadro, as elites dominantes parecem estar divididas, “diante da cada vez maior contradição entre o neoliberalismo e a democracia. De um lado estão os que querem enfrentar a situação mantendo os fundamentos do liberalismo político, com alguma margem de liberdades democráticas. De outro, cresce ao redor do mundo a opção por governos fortes, de extrema direita para, pela força, implementar sua agenda.”

Um fator importante, que precisa ser considerado é o acirramento das disputas no cenário internacional. Neste quadro de emergência de tendências à multipolaridade, “existem dois grandes atores – de um lado os EUA, que representam o atual status quo; do outro lado a China socialista, que entre as potencias emergentes se destaca com força e vigor, demonstrando disposição de se apresentar como alternativa à atual ordem, a partir da noção de desenvolvimento compartilhado”.

Tecnologia digital

Há também a tecnologia digital e as chamadas redes sociais, que estão longe de ser um simples entretenimento, e “compõem o quadro atual das disputas. Elas são um emaranhado que envolve interesses geopolíticos, inteligência artificial, guerra cibernética, finanças globais, consumo e uma acelerada apropriação corporativa de nossos dados mais íntimos”.

A disputa entre EUA e China vai além da dimensão comercial, sendo “uma disputa pelo controle da ‘ponta tecnológica’, sobretudo onde afeta de forma imediata o avanço militar, no campo da inteligência artificial, da computação quântica e da comunicação. É uma disputa que se desenvolve na esfera dos grandes acordos de investimento, na montagem de cadeias produtivas envolvendo empresas de alta tecnologia e de múltipla nacionalidade”, analisou Luciana.

O Brasil teve atuação autônoma nesse quadro de contradições. “Na última década, o Brasil avançou na construção de um desenvolvimento autônomo importante. Buscou internacionalizar suas empresas, formou sob sua liderança um polo regional na América do Sul, contribuiu para a articulação dos Brics e descobriu estratégicas e cobiçadas reservas de petróleo”.

Situação que se inverteu desde o golpe de 2016 e o consequente governo da direita. “O novo governo brasileiro, busca reposicionar o país, realizando uma opção geopolítica de se alinhar aos EUA” e “se distanciando dos Brics, contribuindo para isolar a China na região, e abandonando as iniciativas de integração regional”.

Trump: “América em Primeiro”

O Brasil no governo Bolsonaro “se torna uma peça que se move não de acordo com seus interesses, mas sim seguindo o slogan de Trump ‘América em Primeiro’. Em última instância estes são movimentos que contribuem para a manutenção da atual ordem internacional”, disse. E denunciou: “temos presenciado uma revitalização da Doutrina Monroe, da América para os Americanos. A política externa dos EUA está sob a custodia dos setores mais radicalizados do ambiente político americano. Nem no governo Bush eles tiveram tanto protagonismo. Há um esforço de tutelar a política externa dos países da região”.

Um dos maiores exemplos dessa opção antinacional do governo de Bolsonaro “tem sido os movimentos que o Brasil tem realizado, em coordenação com os EUA para desestabilizar a vizinha Venezuela. Chegando ao nível de colocar sob a mesa a opção de uso da força contra o país vizinho, sem levar em consideração as inúmeras consequências que isto poderia acarretar”.

“Outras expressões deste reacender da Doutrina Monroe é a ruptura feita em torno do projeto da Unasul, dos intentos de criar a Prosul, e dar nova prioridade a OEA”.

Luta por uma alternativa, o socialismo

Por fim, disse, há a questão que permeia o nosso debate. “A questão central que marca a nossa época, e todo este contexto, é qual é a alternativa para este modelo, cada vez mais excludente e autoritário, e que coloca em xeque a própria vida humana. A luta por uma alternativa anticapitalista, sob a forma e as condições do nosso tempo, a luta pelo socialismo. Este é o nosso objetivo estratégico, este que orienta o nosso programa, que focado na realidade brasileira se dá através da nossa luta por um Novo Projeto Nacional de Desenvolvimento”;

Nesse sentido “se destaca a atuação no Foro de São Paulo, e o nosso compromisso com seu fortalecimento. A realização da cúpula dos Brics este ano no Brasil, faz com que tenhamos como objetivo trabalhar para a realização de um encontro dos partidos comunistas destes países, com vistas a trocar impressões sobre o cenário internacional. De significado igual está o nosso compromisso com o Encontro Internacional de Partidos Comunistas e Operários”.

Uma esfera importante do trabalho internacional, disse, “é a relação com os partidos que desenvolvem suas experiências de construção do socialismo. China, Vietnã, Cuba, Coreia, Laos, são parte prioritária do nosso trabalho de relações bilaterais e fonte importante de pesquisa sobre os desafios da construção do socialismo no mundo contemporâneo”.

“Somos um partido que tem entre os seus princípios o internacionalismo e a luta anti-imperialista. Nesta atual quadra a dimensão do trabalho internacional adquire ainda mais relevância. Esta área é enriquecida com a incorporação dos camaradas oriundos do PPL, com larga trajetória neste campo. Estamos seguros que o partido irá dar saltos importantes nesta frente”, concluiu Luciana Santos.

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