Haroldo Lima: Rechaçar o baixo-calão de Olavo de Carvalho


O noticiário político dos últimos tempos foi dominado por uma saraivada de ataques vazados em palavreado chulo, grosseiro, insultuoso e provocador. O autor dos estúpidos impropérios é um brasileiro que mora nos Estados Unidos há cerca de 14 anos, sem se saber bem como se sustenta, e que, cheio de presunção, se autoproclama intelectual, sociólogo e professor, e atende pelo nome de Olavo de Carvalho.

Por Haroldo Lima*
Olavo de Carvalho atua como guru de Bolsonaro Olavo de Carvalho atua como guru de Bolsonaro
Essa figura excêntrica e caricata tinha tudo para permanecer ignorado na penumbra exotérica em que viceja, às voltas com adivinhações e suposto conhecimento astrológico. Fanfarrão, sua falsa erudição não lhe permitia sair da mediocridade obscura em que vivia, posto que, suas profecias e pensamentos, em ambiente letrado, provocavam risos e espanto, de tão extravagantes.

A influência de Olavo de Carvalho era assim restrita aos que acompanhavam suas aulas de digressão piegas, que ele chama de “filosóficas”. Mas ganhou uma conotação maior depois da eleição de Bolsonaro para presidente da República, quando o setor mais delirante do governo declara que o tem como uma espécie de guru orientador. Esse setor tem à frente o próprio presidente, seus três desatinados filhos e os aloprados ministros que o próprio astrólogo teria indicado o das Relações Exteriores, o da Educação e a da Mulher, Família e Direitos Humanos.

Sobretudo no capítulo da política internacional, vieram à tona dessintonias marcantes dentro do governo do capitão reformado. A corrente mais bolsonarista, solidamente identificada com o astrólogo de Virgínia, Olavo de Carvalho, teria sido a maior responsável por atrelar a política externa brasileira à americana. O Brasil, com tradição diplomática de independência, passou a ser caudatário dos Estados Unidos.

Nessa virada gigantesca, os fatos e os sinais se multiplicam e vem desde antes das eleições de 2018. Bolsonaro aí, já se esmerava em bater continência, sem mais nem menos, à bandeira americana e, logo depois de eleito, a funcionário subalterno do governo ianque que o visitara. Na linha de assumir uma postura agressiva na defesa da política e interesses estadunidenses, chegou a fustigar a China, o que lhe valeu uma resposta pronta da República Popular, expressa por um editorial do China Daily, de 1º de novembro de 2018, onde ele é chamado de “Trump tropical”.

Mas onde foi mais conflitante a diferença entre o ponto de vista do grupo bolsonarista orientado pelo Olavo e o do grupo militar presente no governo foi na forma de tratar a questão da Venezuela. O grupo bolsonarista ligou-se de tal maneira à diplomacia americana nesse particular, que tem causado constrangimento aos diplomatas e aos generais brasileiros a freqüência com que o ministro Ernesto Araújo vai a Washington. As combinações são feitas pelo ministro, antes de tudo, com Washington, depois com o Itamaraty e as Forças Armadas brasileiras.

A certa altura, o centro da discussão esteve na aceitação ou não de intervenção militar na Venezuela, com tropa americana acantonando-se no Brasil, na passagem para o país vizinho. O ministro Ernesto Araújo, em sintonia com Olavo de Carvalho, que atua junto com o Steve Bannon, ultra-direitista americano, foi logo dizendo que essa hipótese era possível. O vice-presidente da República, general Hamilton Mourão, falando para o Grupo de Lima, afastou essa alternativa. O ministro Ernesto e seu guru Olavo amargaram enorme e pública desautorização.

Daí por diante, em diferentes oportunidades, o Olavo de Carvalho lançou seguidos petardos contra o general Mourão e contra outros militares que também não seguiam suas diretrizes. E aí é que aparecem os ataques mais furiosos e, sobretudo de mais baixo nível, canhestros, cheios de palavrões, desrespeitosos com os atingidos e afrontosos à própria instituição das Forças Armadas brasileiras.

O setor militar no Governo sente-se incomodado, não só pela bestialidade com que é tratado publicamente pelo Olavo, mas, sobretudo, porque o presidente Bolsonaro não lhe presta solidariedade efetiva, nem lhe dá apoio explícito. A rigor, nunca fez qualquer reparo às imprecações infamantes do Olavo de Carvalho. Pede esquecimento, “virar a página”.

Os democratas brasileiros fazem oposição firme a esse governo de extrema-direita. No particular, repelem frontalmente a capitulação feita na política externa do Brasil, que transformou nosso país em um capacho dos Estados Unidos. A crítica que fazem aos militares que tem discordado dessa linha não é por terem discordado, mas porque poderiam ter discordado mais.

De qualquer maneira, independente do mérito das questões postas, são repulsivos e devem ser rechaçados sem vacilação, os termos baixos, ultrajantes e insolentes que tem caracterizado os vitupérios desferidos contra oficiais-generais das Forças Armadas brasileiras pelo senhor Olavo de Carvalho. A nossa luta continua, mas em outro nível.

*Haroldo Lima é membro da Comissão Política Nacional do Comitê Central do Partido Comunista do Brasil.

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