Adalberto Monteiro: Bolsonaro é Olavo


Presidente da República faz opção por seu “guru” e por suas origens.

Por Adalberto Monteiro

 

 

Mesmo depois de Olavo de Carvalho ter enxovalhado as Forças Armadas, mesmo depois de ter ultrajado a dignidade do general Villas-Bôas, areolado por muitos como a reserva moral do Exército, Bolsonaro reafirmou lealdade e admiração a Olavo.

No confronto entre a agressiva e medíocre extrema-direita, a ala dita ideológica de seu governo, e a ala dos militares, Bolsonaro não titubeou e por absoluta coerência deu o assunto por encerrado fazendo uma louvação a Olavo.

Bolsonaro — dai a ele o que lhe pertence —, mesmo antes da criatura da Virgínia, mesmo antes da prole se meter em política, sempre foi a expressão do que há de pior na extrema-direita.

Negar Olavo de Carvalho seria negar a si mesmo. E mandou um recado: não abdicará do apoio da extrema-direita. Parece intuir que somente as hordas reacionárias, cevadas a ódio e a intolerância, é que lhe serão fiéis, em qualquer circunstância.

Desde que se elegeu vereador na cidade do Rio de Janeiro, em 1993, praticou a política da extrema direita e fez questão de deixar claro que suas concepções eram egressas do que havia de mais abominável no regime dos golpistas de 1964. Uma espécie exótica de cão raivoso remanescente dos porões da ditadura militar.

Suas atitudes agressivas e anticivilizatórias protagonizaram cenas bestiais, como aquela em que ele expôs em seu gabinete de deputado federal um cartaz com os dizeres “Quem procura osso é cachorro”, uma agressão aos familiares que buscavam os restos mortais de seus entes queridos que haviam sido assassinados durante o regime de arbítrio.

E assim ele foi se projetando como um personagem eleitoral e política insignificante, de quem em geral se procurava manter distância, até que ele angariou relevância na escalada reacionária e golpista que ganhou impulso no processo eleitoral de 2014, quando a então presidenta da República, Dilma Rousseff, foi reeleita.

Não se pode esquecer que Bolsonaro emergiu como candidato viável à Presidência da República no ambiente de criminalização da política, sobretudo da esquerda, pela Operação Lava Jato. Ele se compôs com a ofensiva do imperialismo estadunidense para recuperar o que os Estados Unidos consideram seu quintal, depois de um ciclo virtuoso de governos democráticos e progressistas na região. Formou-se, assim, o movimento de extrema direita vitorioso em 2018.

Nesse processo, os filhos de Bolsonaro, cada qual do seu jeito, também se projetaram como personagens ativos da extrema direita. Consta que foram eles que apresentaram Olavo de Carvalho ao pai. Bolsonaro encontrou um “teórico” condizente com sua prática extremista. A tampa e o balaio.

E assim a candidatura de Bolsonaro começou a tomar forma no terreno dos potenciais vitoriosos em 2018, expressando também uma tendência de governos autoritários nos marcos do neoliberalismo mundial.

Essa posição político-ideológica é a expressão de vasto setor do poder econômico e financeiro que concluiu que para sair da crise sistêmica do capitalismo, agravada com as quebras de 2007-2008, a democracia concebida pelo liberalismo se esgotou e em seu lugar deve entrar governos autoritários, dispostos a usar o porrete contra o povo e lançar-lhe sobre os ombros o ônus integral da crise. Além de banir e encarcerar os políticos que não lhes forem servis e os que se levantam contra essa barbárie dita “moderna”.

Esse figurino cabe em Bolsonaro como uma luva. Foi assim que banqueiros, financistas e monopolistas em geral, representados pelo ministro da Economia Paulo Guedes, se lançaram na sua campanha. Com eles chegaram as Forças Armadas, que em determinado momento viram a viabilidade da sua candidatura e se engajaram nela. Sua cúpula decidiu mergulhar no bolsonarismo, apoiando quem ela mesma, como instituição, havia enxotado tempos atrás, por ele se revelar um inepto para a carreira militar.

Essa aproximação foi reafirmada quando Bolsonaro atribuiu a sua vitória nas urnas ao general Eduardo Villas-Bôas e, em tom solene, disse que ambos levarão para o túmulo os segredos que trocaram.

Apoiado nos quartéis, na mídia, no poder econômico-financeiro e no imperialismo estadunidense, manipulando a religiosidade do povo e se utilizando do poder destrutivo das fake news nas redes sociais, ele se elegeu presidente.

Na campanha, quando alguma voz do establishment se levantava para questionar a capacidade de Bolsonaro de dirigir um país com a complexidade do Brasil, dizia-se que ele seria tutelado pelas Forças Armadas.

O entrevero dos últimos dias, pôs em xeque essa possibilidade.

O comedido mas incisivo tuíte do general Villas-Bôas, defendendo a dignidade e os oficiais das Forças Armadas, foi uma resposta à altura ao linguajar corrosivo, agressivo e chulo de Olavo de Carvalho contra os militares. Depois disso, o “guru” de Bolsonaro não só manteve o ataque, mas recrudesceu.

Diante do confronto, Bolsonaro escolheu um lado ao escrever um bilhete de amor a Olavo. Cena típica de uma ópera bufa. Do episódio surgiu a conclusão óbvia de que o presidente se mantém coerente com as suas origens e fiel à sua devoção olavista.

Bolsonaro é Olavo. Uma ameça real ao que resta de democracia no país.

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1 comentário

  1. Desde que Olavo de Carvalho começou a perseguir o vice-presidente Mourão – um militar – e Bolsonaro não reagiu em favor dele, e fazendo o mesmo quando o general Villa Boas passou a ser atacado, pensei que Bolsonaro, ou não sabia para que lado se virar – não esquecendo que a defesa do golpe militar foi um marco na sua campanha para presidente – ou que tudo era uma farsa. Agora o jogo político está ficando claro: o Olavo de Carvalho representa para o Bolsonaro uma direita mais ampla, capaz até de sobrepor-se aos militares. A pergunta é que direita seria essa.

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