Aos 90 anos, Tereza ensina a olhar o mundo com espanto e esperança


Há uma frase de Picasso que diz que “é preciso muito tempo para se tornar jovem”. E, quando olho para a artista plástica Tereza Costa Rêgo – que este ano completou 90 anos – continuo a enxergar nela um pouco de menina. Porque ela preserva uma inquietação, uma rebeldia e um desejo de descoberta e de realização que são próprios da juventude. Tereza está sempre a nos provocar.

Por Luciana Santos*

Foto: Pedro França

 Luciana Santos homenageia Tereza Costa Rêgo ao lado do vicê-prefeito de Recife, Luciano Siqueira e da bisneta de Tereza, Nina Rozowykwiat, durante solenidade da Assembelia Legislativa de Pernambuco  Luciana Santos homenageia Tereza Costa Rêgo ao lado do vicê-prefeito de Recife, Luciano Siqueira e da bisneta de Tereza, Nina Rozowykwiat, durante solenidade da Assembelia Legislativa de Pernambuco

Há vários aspectos dessa ilustre pernambucana que mereceriam ser destacados. Mas, em um momento de tantos retrocessos, em que a cultura e o livre-saber são alvo de ataques, acho que é muito importante ressaltar o papel de nossos artistas para a história e a construção de nossa identidade.

Um artista é a memória de um povo, é parte da construção simbólica de uma nação. E se tivermos que resumir qual é o papel da arte, eu diria que é nos fazer refletir, pensar de forma crítica. Exatamente o que esse grupo que está no governo federal hoje quer nos tirar. Então, nesses dias, mais que nunca, arte é resistência.

E isso tem tudo a ver com a pintura de Tereza Costa Rêgo. Muitos artistas têm nos ajudado a contar a história do mundo e de nós mesmos. O mesmo Picasso, que citei acima, disse também que a “pintura não é feita para decorar os apartamentos, é um instrumento de guerra ofensiva e defensiva contra o inimigo”.

Então, se a Espanha teve Picasso e a sua Guernica, se os mexicanos tiveram os seus muralistas, nós temos a nossa Tereza, com suas batalhas, suas denúncias em vermelho, suas mulheres nuas, suas janelas a se debruçar sobre Olinda, seus gatos, tatus e cabras. Suas maçãs.

Intérprete de seu tempo, Tereza tem usado os fatos de nossa construção histórica como matéria-prima de sua narrativa pictórica. Sua obra é política. Trata das principais lutas do povo brasileiro. Uma jornada feita de sangue e suor, mas também de poesia. Precisamos da arte, sobretudo em tempos de sombras.

A obra e os posicionamentos de Tereza nos instigam a combater aqueles que são os inimigos de nosso tempo: a falta de liberdade, a opressão, a desigualdade, o obscurantismo.

Ela é uma mulher à frente de seu tempo, que quebrou paradigmas, numa época em que as mulheres eram criadas para, no máximo, enfeitar a sala, não para se fazer ouvir. Tereza rompeu com as estruturas. Saiu pela porta da sala, ganhou o mundo. Permitiu-se o amor, foi viver com seu companheiro, o dirigente comunista Diógenes Arruda Câmara, em um momento em que ser comunista era punido com perseguição, tortura e morte.

A maior pintora de Pernambuco e uma das maiores do país conquistou reconhecimento pela sua obra, por seu engajamento e também por seu trabalho como gestora. Eu tive a honra de trabalhar com Tereza na Prefeitura de Olinda e de dividir com ela o mesmo partido e, portanto, os mesmos desejos de um amanhã mais justo e fraterno. E tenho a honra de manter com ela não apenas uma relação institucional, mas sobretudo de afeto.

Para mim, falar de Tereza é falar de um mundo todo de beleza e luta. Como vice-governadora, digo que ela orgulha muito nosso Estado. Como presidente nacional do PCdoB, destaco que ela nos inspira a seguir em frente. Como mulher, vejo nela um exemplo de liberdade.

Soube que ela está pintando um novo quadro, no qual uma mulher está dando à luz. Nada mais simbólico. Que – nesse momento de retrocessos, de ataque à democracia, aos nossos direitos, ao conhecimento e à nossa cultura – a arte, os saberes e fazeres de nosso povo nos ajudem a parir um novo tempo.

Neste ano em que celebramos os 90 anos dessa pintora, eu resgato a forma como Eduardo Campos uma vez se referiu a ela: Tereza é uma guerrilheira dos sonhos. Só temos a agradecê-la, por seguir nos ajudando a mirar o mundo e nós mesmos com olhos de uma menina, cheios de espanto e esperança.

*Luciana Santos é vice-governadora de Pernambuco e presidenta nacional do PCdoB.

Veja abaixo fotos da homenagem feita à Tereza Costa Rêgo pela Assemleia Legislativa de Pernambuco, uma proposta pelo deputado João Paulo (PCdoB). O evento contou com a presença do Homem da Meia-noite e de agremiações carnavalescas, como Elefante, Pitombeira, Eu Acho É Pouco, Ceroula e Bloco da Ema:

Luciano Siqueira, vice-prefeito do Recife; Tereza Costa Rêgo; Nina Rozowykwiat, bisneta;  deputado João Paulo e Luciana Santos (Foto: Diego Galba)

Tereza e a bisneta Nina Rozowykwiat (Foto: Pedro França)
Mesa da homanegem à Tereza Costa Rêgo (Foto: Diego Galba)

Tereza também foi homenageado por agremiações carnavalescas como o Homemda Meia-noite (Foto: Pedro França)

Familiares e amigos prestigiaram a homenagem à Tereza (Foto: Pedro França)
Tereza reverencia o Hoem da Meia-noite (Foto: Diego Galba/VG)
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