Bolsonaro arrastou o Brasil para o atoleiro


Pode-se dizer que o primeiro PIB de Bolsonaro é um legítimo subproduto da restauração do modelo econômico que ficou bem conhecido na América Latina nos anos 1990, um vistoso resultado das utopias neoliberais. Os 0,2% negativos no primeiro trimestre deste ano, de acordo com o levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é o resultado mais concreto da coalização que se mobilizou para promover o impeachment golpista de 2016 e, em consequência, a vitória da extrema direita nas eleições presidenciais de 2018.

A resposta da restauração dessa agenda — no Brasil, acompanhada de uma pauta política autoritária — foi imediata. Esses primeiros meses do governo Bolsonaro foram suficientes para demonstrar que o país mergulhou numa mediocridade neoliberal em cujo legado é impossível encontrar qualquer coisa de positivo. No rol da ruindade presidencial, nenhum outro presidente do período pós-ditadura militar supera Bolsonaro.

O efeito imediato mais perverso da retomada dessa agenda é a taxa de desemprego, que atinge 13,2 milhões de trabalhadores, um número que seria ainda mais elevado se não fosse o crescimento do desalento (pessoas que desistiram de procurar um posto de trabalho). Este índice vem crescendo sucessivamente nos últimos trimestres e chegou a 4,9 milhões de pessoas desalentadas. Já o Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getúlio Vargas (FGV) indica que a desigualdade no mercado de trabalho aumentou pelo 17º trimestre consecutivo e alcançou seu maior nível em pelo menos sete anos.

Esses números servem também para desmascarar a arrogância truculenta do ministro da Economia, Paulo Guedes, que, a exemplo do presidente Bolsonaro, tenta impor seus pontos de vista à base de ameaças e chantagens. Na verdade, ele repete a cartilha do universo das finanças, pregando que esse fluxo mirabolante de capital não falha nunca em premiar os países que abrem suas economias e promovem ”reformas estruturais”, garantindo a lógica do mercado financeiro como mão invisível nas decisões sobre compra e venda de papéis para beneficiar este ou aquele país.

Esta autossuficiência esclarece muitas coisas dos problemas sociais e econômicos do Brasil. Já na montagem do governo, o assédio institucionalizado do setor financeiro aos ativos públicos foi explícito, uma espécie de reedição do vício histórico do patrimonialismo em que o público se vê refém do privado. Esse desfile público de cinismo faz os defensores dessa agenda perderem a aura de santidade com a qual se apresentam em público. E sem o ar de modernidade à maldade insana da sua receita, o que aparece são dados catastróficos como esses do IBGE.

No Brasil, essa receita resgatou as “reformas” previdenciária, sindical e trabalhista, além das privatizações selvagens, uma agenda que na América Latina dos anos 1990 resultou em situações como a do ex-presidente do México, Carlos Salinas de Gortari, que, perseguido pela polícia, foi se esconder nos Estados Unidos com suas malas cheias de dólares. Assim como Gonzalo Sánchez Lozada, da Bolívia.

Como a história é sempre um bom guia, a realidade desse início de governo Bolsonaro indica como caminho para a superação da sua agenda ultraliberal e neocolonial a ação política, ampla e contundente. Essa é a primeira condição para se formar um movimento com força capaz de tirar o país desse atoleiro neoliberal. Um bom exemplo disso é a greve geral convocada de forma unitária pelas dez centrais sindicais brasileiras, que superaram suas diferenças pontuais em nome da mobilização popular em defesa da aposentadoria, contra o desemprego e os cortes de verbas na Educação.

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