A esquerda no Corner


Uma lição fundamental que qualquer instrutor de box dará a seus pupilos é de evitar que o oponente o encurrale no corner (vértice do retângulo de cordas). Encurralado no corner o lutador se transforma em alvo fixo para o oponente, pois as cordas lhe impedem amplitudes de movimentos de forma que se o adversário for hábil despejará um repertório completo de golpes.

Por Jorge Gregory*

Numa circunstância destas, apostar que o adversário será derrotado pelo cansaço de tanto bater é a mais idiota das estratégias.

É bem verdade que na antológica disputa pelo cinturão mundial no Zaire, em 1974, Classius Clay derrotou Foreman usando a estratégia de se defender, deixando o adversário bater até a exaustão.

No entanto, apesar da estratégia defensiva, em nenhum momento se deixou encurralar. Quando necessário, apelava descaradamente para o clinche, recolocando a luta no centro do ringue. E que eu tenha conhecimento, está estratégia só funcionou novamente em Rocky 3, mas aí já é ficção.

O resultado das eleições presidenciais, as tentativas de manifestações de massa que se mostram ainda débeis diante da ameaça do totalitarismo crescente e, especialmente, a recente votação da reforma da previdência, mostram um quadro de profundo isolamento da esquerda.

Somando os deputados do PT, PSB, PDT, PSOL e PCdoB totalizam 131. Corresponde a 25% do plenário da Câmara. Os votos contra a reforma foram exatos 131 votos, muito embora tenham ocorrido 19 dissidências no PSB e PDT que foram compensadas em exato igual número por votos pingados de parlamentares de partidos do centrão e até um do PSDB. Ou seja, entre ganhos e perdas, não se ampliou um único voto.

Fora do parlamento as pesquisas mostram um rápido processo de crescimento da desaprovação do governo. Entre os que desaprovam, uma boa parcela nele votou. No entanto devemos ponderar que dos 39,2% dos eleitores que votaram em Bolsonaro, somente uns 15 a 20% nele votaram por ser Bolsonaro e é a estes que a pauta de governo se volta. O restante e os que se abstiveram, é bom lembrar, assim o fizeram numa clara manifestação anti-PT e anti-esquerda, e o que estas pesquisas também demonstram é que este sentimento não mudou.

Nas eleições presidenciais a esquerda foi encurralada no corner e até agora não conseguiu se desvencilhar. Pior, segmentos de esquerda até agora não tomaram consciência da situação.
Para alguns, o desgaste acelerado decorrente da pauta voltada aos seus 15 a 20% de eleitores fiéis levará Bolsonaro a uma inevitável derrota em 2022. Tal raciocínio é algo como deixar o pugilista adversário bater até ir a nocaute por exaustão. Algo absolutamente fora da realidade.

Além do mais, tendo em vista a atual correlação de forças, para qualquer observador mais atendo não é difícil entender que ainda que a tese da derrota da extrema direita seja inevitável, é muito pouco provável que a curto ou médio prazo a saída seja pela esquerda.

Outros insistem na tese de que o atual quadro é resultante de uma derrota na disputa de narrativas. Sim, a narrativa tem sua importância no curso dos acontecimentos, uma vez que é a versão dos fatos apresentada à sociedade pelos seus atores. Porém convenhamos, não é a narrativa, até por serem versões, que determina o curso dos acontecimentos. A narrativa é a aparência dos fatos e não desvenda a sua essência. Esta tese das narrativas é mais ou menos como dizer que o pugilista se encontra encurralado e apanhando porque o locutor da luta está narrando que isto está acontecendo, mas que não é real. Compreender a essência dos fatos e consequentemente o curso dos acontecimentos, e assim nos ensina o marxismo, vai para muito além das narrativas.

No box, para sair do corner, não basta fechar a guarda e tentar contra golpear. É preciso apelar para o clinche e recolocar a luta no centro do ringue, onde se tem espaço para se movimentar e executar outras estratégias.

Na luta política, quando se está encurralado é necessário dialogar com outras forças e segmentos sociais, formular bandeiras amplas e estabelecer alianças.

*Jorge Gregory é jornalista e professor, trabalhou no Ministério da Educação (MEC).

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