Wadson Ribeiro: Bolsonaro sendo Bolsonaro


Nos últimos dias, o presidente Jair Bolsonaro lançou verdadeiros golpes verborrágicos contra várias instituições e personalidades da sociedade brasileira que se opõem ao seu governo. Assim como nas três décadas em que foi deputado federal e colecionou episódios de ataques aos direitos humanos e de exaltação à ditadura militar, essa histeria agora tem como lugar de fala a presidência da República e visa distorcer fatos históricos e fugir dos problemas reais que o Brasil enfrenta.

A ditadura militar no Brasil, assim como em grande parte da América Latina, representou um momento de profundo revés para a democracia e os direitos humanos. Torturas, perseguições e mortes foram marcas que ainda hoje deixam feridas irrecuperáveis. As investigações da Comissão Nacional da Verdade, documentos das Forças Armadas e do próprio ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos do governo federal desmentiram essa semana as declarações de Bolsonaro sobre o desaparecimento de Fernando Santa Cruz, pai do presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, no início dos anos 70. Essa provocação desrespeitosa não condiz com o cargo de presidente da República e merece ser duramente criticada, para o bem das gerações futuras.

Essa atitude do presidente em reverenciar as barbaridades cometidas pela ditadura vai ao encontro de outras manifestações polêmicas que dão o tom desse governo. Os ataques desferidos contra os estados do Nordeste, a valorização do trabalho infantil no Brasil, os ataques ao INPE e as constantes exaltações ao período militar comprovam a vocação fascista de Bolsonaro. Todos os temas ultraconservadores que a sociedade brasileira acreditava ter enterrado no passado voltam com força política nesse governo. A cabeça colonizada de Bolsonaro não consegue ver outro horizonte senão sermos sócios menores dos EUA na América do Sul e aplicar no país uma agenda fundamentalista de valores e de costumes que tornem o Brasil um Estado quase religioso e não laico.

Os problemas reais parecem não existirem para Bolsonaro. O país está mergulhado em uma crise com mais de 12 milhões de desempregados, o sistema carcerário está explodindo, as milícias e o narcotráfico avançam cada vez mais, inclusive com braços nas instituições de Estado – basta lembrar dos 39 kg de cocaína no avião da FAB. A saúde retrocede e uma grande parcela da população está desassistida pela ausência de médicos e de medicamentos. Os estados e os municípios não conseguem gerir seus serviços básicos e a qualidade de vida da população está mais baixa. Voltamos a enfrentar o fantasma da fome e do aumento das populações de rua. Mas para Bolsonaro nada disso importa.

O que deixa parte da população estupefata é o fato do governo Bolsonaro ter se originado das maquinações para retirar Dilma da presidência. A sede da direita em destronar a esquerda do poder levou ao Palácio do Planalto um dos presidentes mais desqualificados da história do país. Um homem sem nenhuma convicção democrática, um patrimonialista, entreguista e que opera a serviço de interesses internacionais na condição de presidente da República. Se metade dos atos cometidos por Bolsonaro nesses sete meses de governo tivessem sido cometidos pelos governos de Lula e de Dilma, ambos não teriam chegado nem ao final do primeiro ano de mandato. As elites, na aposta que vão aprovar toda sua pauta econômica conservadora, sustentam Bolsonaro mesmo torcendo o nariz para sua pauta moralista.

O importante agora não é o que Bolsonaro diz, mas sim barrar o que ele pretende fazer com o Brasil. Além disso, que sirva de exemplo para a sociedade que as interrupções democráticas, como no impeachment, podem representar situações que ao invés de solucionar crises, levem o país para impasses ainda maiores, haja visto o que significa o governo Bolsonaro.

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