Governo vinga Nordeste: só 2,2% dos empréstimos da Caixa vão à região


Sob o governo Jair Bolsonaro, a Caixa reduziu a concessão de empréstimos para o Nordeste. É o que aponta um levantamento do Estadão/Broadcast, com base nos números do próprio banco e do sistema do Tesouro Nacional. De janeiro a julho de 2009, o banco autorizou novos empréstimos no valor de R$ 4 bilhões para governadores e prefeitos de todo o País. Para o Nordeste, foram fechadas menos de dez operações, que juntas totalizam R$ 89 milhões, ou cerca de 2,2% do total.

 

Ordem para não contratar operações para estados e municípios do Nordeste veio do presidente da Caixa, Pedro Guimarães, indicado por Bolsonaro Ordem para não contratar operações para estados e municípios do Nordeste veio do presidente da Caixa, Pedro Guimarães, indicado por Bolsonaro

O volume é muito menor do que em anos anteriores. No ano passado, por exemplo, a região recebeu R$ 1,3 bilhão – o equivalente a 21,6% dos R$ 6 bilhões fechados pela Caixa em operações para governos regionais. Em 2017, o banco contratou R$ 7 bilhões, dos quais R$ 1,3 bilhão foi direcionado para governadores e prefeitos nordestinos (18,6% do total).

De acordo com fontes do banco e da área econômica, a ordem para não contratar operações para os estados e municípios do Nordeste veio do presidente da Caixa, Pedro Guimarães. Sob condição de anonimato, elas confirmam que ouviram a orientação em mais de uma ocasião. Na quarta-feira (31/7), ao saber do teor da reportagem, Guimarães prometeu conceder uma entrevista na quinta-feira (1º) sobre esse ponto. O banco, porém, apenas enviou uma nova nota.

Nela, a Caixa afirmou que as contratações (novas concessões) apresentam “sazonalidade” e variação ano a ano, “dependendo ainda do número de pleitos recebidos bem como da aprovação dos ritos anteriormente relacionados”. Segundo o banco, de R$ 2,8 bilhões desembolsados neste ano para estados e municípios, R$ 706 milhões foram para o Nordeste, “número expressivo em âmbito nacional”.

Os desembolsos são diferentes das contratações porque estão relacionados a contratos que foram firmados em anos anteriores. A Caixa não respondeu sobre os números de contratações neste ano. Na semana passada, o banco orientou a reportagem a fazer a procura no site. Depois, ao ser questionada sobre a queda na participação do Nordeste na comparação com o que foi contratado nos anos anteriores, a Caixa destacou “problemas de endividamento” decorrentes da crise pela qual passam alguns estados e municípios, inclusive das regiões Norte e Nordeste.

As operações do Nordeste neste ano saíram para seis municípios baianos, um de Pernambuco e outro de Sergipe. Ao contrário do que diz o banco, há uma fila de pedidos de empréstimos para a região Nordeste que não foram autorizados pela instituição. Entre eles, está o de um financiamento de R$ 133 milhões para a prefeitura de São Luís (MA), para bancar obras de infraestrutura. O pedido do prefeito Edivaldo Holanda Júnior (PDT) foi feito no dia 9 de maio e até hoje não houve uma resposta.

A orientação para a área técnica, segundo apurou a reportagem, era de não aprová-lo mesmo estando tudo certo. A estratégia foi protelar até os documentos vencerem em 30 de junho. A prefeitura de São Luís foi procurada, mas não se manifestou.

Situação oposta teve a prefeitura de Florianópolis, de Gean Loureiro (sem partido). O pedido de crédito de R$ 100 milhões para obras de infraestrutura, transporte, energia e logística feito no início de julho foi atendido em menos de uma semana e anunciado solenemente por Pedro Guimarães no dia 17 de julho, quando visitou a cidade. Para a solenidade estava prevista a presença do presidente Jair Bolsonaro, que cancelou a ida.

O governo da Paraíba, de João Azevedo (PSB), também fez um pedido de R$ 188 milhões no dia 11 de junho e também ficou sem resposta. O estado informou que ainda aguarda aval da Caixa para operação.

Neste mês, antes de um café da manhã com jornalistas estrangeiros, em uma conversa informal com o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que daqueles “governadores de ‘paraíba’, o pior é o do Maranhão; tem que ter nada pra esse cara”. Depois, se justificou dizendo que fez uma crítica de “três segundos” aos governadores do Maranhão e Paraíba, que são “intragáveis”.

Para conseguir um desembolso de R$ 293 milhões em 8 de julho, o governador do Piauí, Wellington Dias (PT), precisou recorrer à Justiça e, mesmo depois de decisão favorável, teve de esperar algumas semanas. A operação foi travada por pendências de documentação. O governo estadual, porém, as sanou e conseguiu que a Justiça determinasse o repasse.

Já Goiânia recebeu sinalização de que vai conseguir R$ 780 milhões para mobilidade urbana mesmo sem aval da União (ou seja, se o município der calote, o governo federal não cobre). O pedido de Iris Rezende (MDB) foi feito em 7 de julho.

Nesta sexta-feira (2), Bolsonaro contestou a reportagem do Estadão e afirmou, sem apresentar dados, que as prefeituras da região são as mais inadimplentes do País. “Houve um equívoco nessa informação. As prefeituras do Nordeste são as mais inadimplentes e a Caixa precisa de garantias para poder emprestar”, disse.

Ao ser questionado sobre a reportagem, ele ligou para o presidente da Caixa, Pedro Guimarães, e colocou no viva-voz para que os jornalistas que o aguardavam na saída do Palácio da Alvorada pudessem ouvir a explicação. Na “jogada ensaiada”, Guimarães respondeu que “não existe nenhuma indicação para não favorecer uma região ou outra”.

Com informações do Estadão

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