Eron Bezerra: O que explica tanta estupidez?


Diante dos explícitos atos de selvageria e barbárie que estamos assistindo, os quais vão da pura e simples negação da ciência à naturalização das manifestações autoritárias e ditatoriais de desprezo pela democracia, o observador menos atento certamente deve estar se questionando: o que explica tanta estupidez?

Essa dúvida, porém, é apenas do observador menos atento. Quem teve oportunidade e se deu ao trabalho de analisar os fundamentos do materialismo histórico, especialmente o clássico Ancient Society de Lewis Henry Morgan, sabe que a humanidade, ao longo de sua trajetória, passou – e continua passando – pelos estágios da selvageria, barbárie e civilização, cada uma delas datadas por determinadas características.

De forma simplificada pode-se afirmar que a Selvageria terminou com a invenção da arte da cerâmica. O Status superior de Barbárie começou com a manufatura de ferro e terminou com a invenção do alfabeto fonético e o uso da escrita em composição literária. A etapa da Civilização começou com o uso do alfabeto e a produção de registros literários tendo e tem, como principal característica, o apego pela propriedade privada.

Mas essas etapas não se desenvolveram de forma retilínea, o que explica porque existe em determinadas sociedades, como a brasileira, grupos sociais vivendo, inequivocamente, nessas 03 distintas etapas de nossa trajetória social.

As evidências obscurantistas

A revelação de que Deltan Dallagnol bisbilhotava a conta bancária do presidente do STF, Dias Toffoli, define o nível de arrogância e truculência da “república de Curitiba”, chefiada por Moro e pelo procurador da lava-jato.

Que eles não tinham limites todos já sabiam ou desconfiavam, embora alguns, por conveniência ou má fé, preferissem fingir que não viam a constituição sendo rasgada, a esquerda covardemente criminalizada e os processos acintosamente sendo forjados para condenar adversários que eventualmente pudessem atrapalhar seus negócios. Até que a truculência chegou neles e foram se convencendo de que o arbítrio, se não for combatido, em algum momento alcançará a todos indistintamente.

A estupidez está banalizada. O presidente defende abertamente a tortura e os torturadores, debocha da decapitação de presos nos presídios, insulta a memória e a família de desaparecidos políticos, questiona as taxas de desmatamento registradas pelo INPE, destila preconceitos contra nordestinos, índios, contra tudo e contra todos.

A partir do exemplo, ou melhor, do mau exemplo presidencial, as pessoas começaram a achar natural essas manifestações de truculência e de manifesta estupidez.
Os presídios brasileiros, em particular os do Norte, se tornaram palcos de matanças de facções adversárias e, tudo indica, há uma competição surda para saber quem é mais selvagem, quem é mais estúpido. A mensuração dessa competição se dá pelo nível de estupidez, onde a “importância” da facção e a notoriedade do presídio é mensurada não apenas pela quantidade de mortos, mas pela forma brutal como elas aconteceram, sendo a decapitação a expressão mais visível dessa selvageria.

O vice-presidente da república, General Mourão, diz abertamente que o STF não pode contrariar os interesses do governo. Que interesses? Seria, por acaso, acabar de entregar às nossas riquezas e à nossa soberania aos americanos?

O governador do Acre, o bravo estado em que seu povo lutou para ser brasileiro, sem qualquer temor às normas legais, determina que os produtores de seu estado rasguem as multas ambientais e se insurjam contra os órgãos de fiscalização.

Como se pode constatar, as explosões de selvageria e barbárie que se multiplicam Brasil afora são apenas a face visível dessa arrogância e desse “vale tudo” obscurantista que tomou conta do país, inspiradas, lamentavelmente no mau exemplo governamental.

* Professor da UFAM, Doutor em Ciências do Ambiente e Sustentabilidade na Amazônia, Coordenador Nacional da Questão Amazônica e Indígena do Comitê Central do PCdoB.

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