Dani Balbi, mulher trans e professora, se declara salva pela educação


Em entrevista exclusiva à coluna ‘O Q da Educação‘, Dani Balbi, mulher trans, negra, professora, militante e pesquisadora fala sobre educação, literatura, política, feminismo e outros temas fundamentais nesses tempos de perplexidade.

Por Ismael Lopes, do Portal B

Foto: Portal B

 

Você costuma dizer que foi salva pela educação pública e que sua
experiência é profundamente marcada pela trajetória no sistema público de ensino, tanto
como estudante, quanto como professora. Qual o seu diagnóstico sobre o panorama atual da educação no Rio de Janeiro e no Brasil?

Com todos os problemas de gestão da educação pública, o esforço sistemático dos agentes de educação para manter o Sistema educacional integrado funcionando – conquista da carta cidadã de 1988 – é louvável. Eu sou depositária desse esforço porque, sendo mulher transexual, negra e periférica, a única possibilidade de institucionalização da vida, de integração social e exercício efetivo de cidadania é a formação pela educação.

Nesse sentido, a defesa desse direito deve ser prerrogativa da militância das causas populares e emancipatórias. Por mais problemáticas que sejam as formas, os aparelhos de educação são, muitas vezes, a única presença efetiva do estado de direito em comunidades periféricas onde tudo falta e a força armada coercitiva é constante. Essa presença é resultado da luta dos militantes da educação pela continuidade da oferta e pela ampliação do escopo da formação básica, pelo sentido da escola como articuladora social dentro das comunidades onde se inserem.

Essa luta é central como esforço de contenção e superação do fascismo. É a partir dos debates acerca dos significados e pertinência da educação que vamos construir um outro pacto cidadão, baseado na consolidação de consciências dos trabalhadores, numa operação antifascista. Não à toa, a educação pública tem sido alvo primeiro do desgovernado de matiz autoritário, obscurantista e fascista que hoje ocupa o Palácio do Planalto e o Palácio Laranjeiras.

Atualmente você é aluna do curso de doutorado em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Do que trata a sua pesquisa?

Minha pesquisa versa sobre teatro contemporâneo brasileiro, a partir da década de 1960 até as experiências contemporâneas. O recorte específico é sobre uma tendência geral do teatro brasileiro que chamo de inclinação ao ‘drama social’, sendo, pois, um teatro que seleciona argumentos ligados ao espaço público, ao agenciamento de uma esfera de problemas, tensões e soluções sociais e históricas nacionais.

Pontualmente, meu interesse é responder o motivo pelo qual, após a apresentação de “Eles não usam Black-tie”, de Gianfrancesco Guarnieri, em 1958, observa-se uma lateralização e um redimensionamento por subtração da categoria ‘trabalho’ e suas variantes nesse drama social. A quem interessa representar, matizar o espaço público, alegorizar e propor soluções pela integração catártico-diegética que não passem pelas contradições da formação da força de trabalho no Brasil?

Você tem ambições literárias?

Sim, sim. Tenho estudado roteiro, dramaturgia e trabalhado em argumentos que falem de experiências que acho pertinentes. Por hora, vamos seguindo com calma.

Em 2018, você se candidatou a deputada estadual pelo PC do B. Ainda que não tenha conseguindo a vaga, teve uma votação expressiva, com mais de dez mil votos. Como você saiu dessa campanha? Como pensa o seu futuro político? Podemos esperar Dani Balbi nos próximos pleitos eleitorais?

A campanha é sempre muito desgastante, principalmente nos tempos de
sufocamento e isolamento das forças progressistas. Eu sempre planejei minha militância na
educação, na academia e pela Cultura. Se as forças progressistas precisarem que eu me
candidate, eu estou à disposição, mas, honestamente, espero e gostaria de militar longe da
disputa pela institucionalidade do parlamento e do executivo.

Uma de suas bandeiras defendidas em sua candidatura era a inserção da mulher trans no mercado formal de trabalho. Em uma realidade na qual ultrapassamos 13 milhões de desempregados, quais estratégias podem ser adotadas para tornar possível essa inserção?

Vemos uma tentativa de rearranjo da estabilidade econômica dos países do
centro do capitalismo mundial pela força de dependência e desidratação das forças produtivas do capitalismo periférico. Aumentar as reservas de mercado e a margem financeira às custas do endividamento, depreciação do valor da força de trabalho e brutal desaceleração das economias de países em ‘desenvolvimento’.

Esse novo estágio do capitalismo internacional pode ser resumido como uma refração primitiva e, ao mesmo tempo, o mais acelerado resultado da tensão instauradora do capitalismo: a contradição capital X trabalho. O capital quer, em resumo, se reproduzir sem passar pelos riscos da remuneração, sem assumir a única força progressista que lhe é característica, que é a injeção de desenvolvimento das forcas produtivas.

Nesse sentido, entender que a contradição está no seio do capitalismo (capital financeiro rentista X capital para investimento, ambos etapas da transmutação do ‘valor’ de um único capital proditivo/industrial) nos ajuda a pensar estratégias. Regulamentar os lucros, taxar fortunas, injetar receita na produção, desonerar e fiscalizar efetivamente a geração de empregos, fortalecer o estado como indutor e regulador da economia tendo o bem estar social dos sujeitos cidadãos como premissa e procurar sanar em todos os níveis as demandas agregadas, sobretudo a de contingentes populacionais que sempre tiveram sua cidadania faturada, como negros, transexuais, população ribeirinha e periférica em relação aos bolsões de intensa atividade econômica.

Uma das mais sábias e emblemáticas frases de Dilma logo após o golpe diz muito: “Para governar o Brasil precisa ter ambição e coragem”. Acho que é isso que ela diz. Saber-se potência, apostar no poder e na autonomia povo como única forma de superação das crises econômica, política, social e humana.

Fala-se muito de resistência, de reação e de recusa. Lemas como “Não vai ter golpe”, “Ele não!”, “Não passarão”, “Nenhum direito a menos”, são exemplos de que as forças progressistas têm adotado uma pauta não propositiva, mas reativa. Entretanto, você propõe coisas. Seu discurso tem uma carga forte de denúncia, mas também propõe um mundo possível. Quais sonhos e utopias conduzem o discurso de Dani Balbi?

Meu ideal é um mundo livre da lógica da acumulação primitiva, da acumulação de capital, em que a produção de valores de uso demandados pelo conjunto seja imperativo, contra a força centrífuga da produção de valores de mercado e valores absolutos para o capital. É um mundo em que a pobreza seja crime de responsabilidade do estado, em que a diversidade não se torne justificativa para extermínio.

Eu acredito que precisamos tomar os meios de produção, tomar o desenvolvimento tecnológico para os sonhos e necessidades do conjunto. Precisamos dizer que queremos ser sujeitos do processo de produção, de reprodução, de valores, além dos valores de bens e produtos, mas dos valores de cidadania.

Precisamos gerar emprego, precisamos nos organizar em torno de uma pauta que nos permita enfrentar o capitalismo internacional, precisamos voltar para as ruas e ganhar a consciência da população para a luta contra o projeto antipovo e antinacional de Bolsonaro. Ele não dura muito se nós mantivermos unidade dos campos progressistas e voltarmos, como fizemos no segundo turno, a tomar café com nosso camaradas proletários.

Para finalizar, voltemos à literatura. Qual a contribuição da literatura para pensarmos a realidade política e social? Que livros e autores você recomendaria para nos ajudar nessa difícil tarefa de entender a realidade em que vivemos?

Certamente a pergunta mais difícil. Por hora, vou puxar a sardinha pro lado da minha pesquisa. Acho que ‘Eles não usam tenis Nique”, dramaturgia da Marcia Zanellato, tem uma questão que pra mim é crucial: a consciência bruta da exploração, o desejo pela participação na repartição de bens e valores que o capital produz mas não distribui; tudo isso em relação com a formação dos contingentes de subproletariados – categoria de análise produtiva para entender o precipício em que as forças de trabalho se veem encurraladas, presentes nos estudos de Jessé Souza e André Singer – e a formação das periferias geográficas e simbólicas, ao que a violência, a sedução pelo poder e a marginalização surgem como efeito.

Fonte: Portal B

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