Jorge Gregory: Brasil em chamas, governo em crise


Acuado pelas pressões internas e externas, pelo agronegócio e militares, Bolsonaro recua instalando um gabinete de crise para tentar apagar o incêndio que ele mesmo criou, e que tem consequências em três frentes distintas: a ambiental, as relações internacionais e a econômica.
Patético e com um discurso vazio, a única medida que anuncia é a adoção da GLO, caso os governadores dos estados afetados a requisitem. Em outras palavras, mandar os militares cuspirem no fogo. Em resumo, não só não adota nenhuma medida para resolver a crise, como demonstra que resiste em adotá-las. Crise esta gestada desde o primeiro dia de governo.
Bolsonaro fez campanha e assumiu vociferando contra qualquer ideia ou organização que cheirasse ambientalismo. Fez campanha e assumiu prometendo acabar com os órgãos de fiscalização ambiental (entre outros). Não obtendo êxito na tentativa de extinguir o ministério, nomeou o antiambientalista Ricardo Salles para conduzir o mesmo.
Este discurso e tais atitudes se constituíram em mensagem clara de que o desmatamento e ocupação de terras devolutas e reservas indígenas estavam liberados geral. E os grileiros e ruralistas não pensaram duas vezes, começaram a devastar a floreta amazônica numa voracidade nunca vista.
Não satisfeito, quando o INPE revela o estrago de desmatamento que estava ocorrendo, Bolsonaro imediatamente trata de desqualificar o instituto, dando mais uma vez o sinal verde para os devastadores seguirem em frete. Uma vez desmatada a floresta, o passo seguinte é a limpeza da terra para ocupá-la, em especial com pastagem, e a técnica mais rápida para isto é a queima da vegetação derrubada. Desta forma, com a mesma voracidade que desmataram, com o beneplácito do governo, os grileiros começam a promover as queimadas em larga escala que, sem nenhum controle, se transformam também em incêndios na floresta não desmatada.
As regiões Norte e Centro Oeste ainda enfrentarão um mês a mês e meio de seca. Até lá é muito pouco provável que as chamas sejam controladas. De qualquer forma, o período de chuvas dará conta de apagar a imensa fogueira. Porém, a devastação estará feita e ainda que haja muita vontade a ação política, serão anos para recuperar o estrago ambiental.
E haverá vontade política por parte de Bolsonaro? Exonerará Ricardo Salles? Apresentará alguma política ambiental que tenha um mínimo de credibilidade? Tudo indica que não, de forma que a o aspecto ambiental da crise só tende a se aprofundar, ainda que as chamas na floresta se apaguem.
Ainda que haja certa hipocrisia dos líderes europeus em suas manifestações sobre a Amazônia, a crise ambiental é real e a devastação da região afeta todo o planeta, de forma que não há como calarem-se diante do desastre. No entanto, se a preservação da floresta é de interesse mundial, financiar tal preservação também deve ser responsabilidade mundial, sem interferência na soberania do nosso país.
No entanto, no que diz respeito a crise nas relações internacionais, a questão ambiental é apenas a ponta do iceberg. As chamas na Amazônia apenas trouxeram à tona uma crise diplomática que começou a ser gestada no primeiro dia de governo, quando foi nomeado um completo inepto e desequilibrado ministro. Na prática, o governo Bolsonaro adotou uma submissão total ao governo Trump, desprezando tradicionais relações com outros países. Não bastasse isto, transformou-se num baba ovos de Netanyahu, algo que só interessa a alguns pastores picaretas evangélicos que pretendem obter facilidades para promoverem caravanas de peregrinação religiosas à Jerusalém, faturando rios de dinheiro.
Diante da avassaladora desmoralização e isolamento internacional pelas quais o país passa, quando se faz necessária uma eficiente ação da diplomacia, temos a frente do ministério um indivíduo que sequer consegue se fazer respeitar pelos funcionários do prédio do Itamaraty, quanto mais entre as representações de outras nações. O máximo que o inepto ministro conseguiu fazer até agora foi distribuir uma receita de manifestação às embaixadas brasileiras, receita esta preparada pelo outro inepto ministro, o do meio-ambiente.
Não satisfeito, o próprio presidente e seus filhos se lançam a desferir comentários grotescos e chulos nas redes sociais, dirigidas a chefes de estado de outras nações. Tratam as relações internacionais como se fosse um bate-boca de torcedores de times diferentes nas redes sociais.
Bolsonaro não só adotou uma política externa desastrosa, como transformou o Itamaraty em um aparelho do charlatão da Virginia. Tendo a frente do Ministério das Relações Exteriores um dos seus asseclas, não é difícil imaginar as barganhas que o astrólogo de quinta categoria deve estar promovendo junto a organizações e organismos norte-americanos. É quase nula a probabilidade de que Bolsonaro venha a alterar esta linha política e muito menos mudar o comando do Itamaraty, de forma que se a natureza, em algum momento, irá se encarregar de apagar as chamas da floresta, o incêndio nas relações externas só tende a aumentar.
Tanto a crise ambiental quanto a crise nas relações exteriores atingem de forma contundente outra frente, a econômica, em especial o segmento do agronegócios. Entre outras questões, o tão comemorado acordo UE/Mercosul pelos agropecuaristas se encontra a beira da total inviabilidade, e isto começa a ameaçar inclusive as relações do governo Bolsonaro com governos de direita da região.
Embargos aos produtos agropecuários brasileiros, tendo por justificativa a questão ambiental, mas decorrente da desastrosa política externa é uma ameaça cada vez mais presente. E aqui é fundamental lembrar que o segmento é o único que vem apresentando resultados positivos na combalida economia brasileira, em decorrência da exportação de suas commodities.
O agronegócio foi uma das principais e mais organizadas bases de apoio eleitoral de Bolsonaro. Uma ruptura com este setor representará um abalo imensurável na sustentação do atual governo, não só pela sua importância econômica como também pelo peso de sua bancada parlamentar e influência em governos de vários estados.
Ainda que vociferem em defesa da soberania, tentando demonstrar uma certa unidade, é visível também o incômodo de setores militares, em especial quanto a política externa. O inepto do meio-ambiente conseguiu gerar insatisfação inclusive no seu próprio partido, já existindo inclusive um movimento pedindo a sua expulsão.
Em síntese, Bolsonaro e suas políticas irresponsáveis abriu uma crise de largas proporções em três frentes nevrálgicas que dificilmente irá se dissipar, tendendo a acelerar-se com grande rapidez. O aprofundamento da crise tende a corroer rapidamente as bases de sustentação do governo, acentuando as disputas internas e as deserções. A resultante deste processo, no entanto, ainda é uma verdadeira incógnita.
*Jorge Gregory é jornalista e professor, trabalhou no Ministério da Educação (MEC).

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