Cinema brasileiro em terra de cego


“É possível que o Norte e o Nordeste do país permaneçam uma novidade refrescante para o Brasil e para o mundo. Com a diferença de que, enquanto o crítico brasileiro repete clichês sobre a nossa cinematografia ser escrachada demais, Bacurau abocanha tantos prêmios internacionais importantes quanto a Terra é redonda”.

Por Carolina Mello*

 

  

Uma parte da crítica cinematográfica, localizada no eixo Rio-São Paulo, ficou sem palavras diante do novo longa-metragem do pernambucano Kleber Mendonça Filho. O carioca Artur Xexéu, para O Globo, foi condescendente: “Tenho certeza de que ‘Bacurau’ não é para qualquer público. E eu, infelizmente, faço parte da pequena parcela que não se entusiasmou”.

Entre vago e perplexo, finaliza sete parágrafos refazendo a pergunta das personagens sulistas em visita à cidadezinha sertaneja: “Quem nasce em Bacurau é o que?”, como se o gentílico da cidade fictícia fosse importante para abraçar sua alegoria.

No filme, a resposta, deliciosa, é gritada a plenos pulmões por um moleque desaforado, e encerra qualquer discussão: “É gente!”. Quem nasce em Bacurau é gente. Ponto final.

O grito é tanto autoafirmativo quanto reivindicatório. Bacurau é qualquer cidade brasileira que não está no mapa, e o expressionismo dessa imagem pode soar de mau gosto para quem não tem enxergado essa parte invisível do país.

Daqui do Brasil de cima, pouco importa se a crueza dos diálogos pareça panfletária para os primos do Sul. São tempos de violência intensa, simbólica e real, 24 horas por dia, sete dias da semana. É para desopilar o fígado mesmo. Bacurau é catártico porque é urgente.

O paulistano Eduardo Escorel, para a Piauí, foi apocalíptico: “Celebração da barbárie”, sentenciou já no título da resenha. Ao longo do texto, divaga sobre ter saído da sessão acabrunhado com a resposta violenta dos enjeitados, e esboça ideias captadas a partir das músicas de Caetano Veloso incluídas na trilha sonora.

Talvez porque a poesia do compositor baiano seja um dos elementos mais palatáveis do filme. Em tudo e por tudo, Bacurau é um Brasil estrangeiro de tão periférico ao Brasil da metrópole. Bacurau é puro suco de Norte e Nordeste, e quem bebe dessa água de poço a primeira vez há de estranhar.

A conclusão de Escorel é tão abrupta quanto míope e o que há de mais problemático em toda a sua crítica. Para ele, evocar o cangaço é perigoso para simbolizar a resistência ancestral das populações rurais, pois pode ser um aceno às milícias urbanas do Brasil de Bolsonaro.

O equívoco dessa ideia é histórico, político e geográfico. Fortalece a tese de Kleber Mendonça sobre existirem dois Brasis tão diferentes entre si que não se reconhecem, a ponto de se apartarem. A cegueira está em achar que ter um único olho, voltado para a própria realidade, seja suficiente para fazer um julgamento menos colonizado de Bacurau.

Em seu perfil no Twitter, o pernambucano GG Albuquerque cravou, em poucos caracteres, uma crítica da crítica cultural contemporânea. “Temos um vício horrível na crítica e jornalismo cultural: confundir ignorância pessoal ou falta de biografia sobre determinada cena ou movimento artístico com a necessária inexistência desta cena ou movimento”.

Duvido muito que nossos críticos de cinema desconheçam o Cinema Novo de Glauber Rocha ou o Cinema Marginal de Rogério Sganzerla, e é por isso que eu, uma jornalista maranhense tão jovem quanto a democracia brasileira, sempre ei de me espantar com o fato de que a figura do anti-herói justiceiro, tão recorrente nos roteiros do terceiro mundo, ainda soe estapafúrdia.

É possível que o Norte e o Nordeste do país permaneçam uma novidade refrescante para o Brasil e para o mundo. Com a diferença de que, enquanto o crítico brasileiro repete clichês sobre a nossa cinematografia ser escrachada demais, Bacurau abocanha tantos prêmios internacionais importantes quanto a Terra é redonda.

Qualquer filme do Quentin Tarantino, uma versão mais bricolada da obra de Martin Scorsese, pode ensinar o espectador a gostar do nosso híbrido de western e cangaço, se você estiver preparado, é claro, para a náusea que esse deslocamento de ponto de vista requer.

Em ‘Era uma vez em… Hollywood’, o verdadeiro herói da história, interpretado por Brad Pitt, é um dublê. Enquanto o amigo, uma estrela de cinema decadente vivida por Leonardo DiCaprio, lamenta a queda para o quadro de atores do bang-bang italiano, ele vai para casa comer macarrão instantâneo, em um resumo brilhante do que é a indústria.

Para fazer ‘Terra em Transe’ e ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’, Glauber Rocha comeu do mesmo spaghetti e digeriu a sua maneira, à moda brasileira – ou seria nordestina? –, atraindo a reconhecida admiração de Scorsese, de ‘Taxi Driver’ e ‘Touro Indomável’.

Assim como esses mestres do cinema se estimavam, por que ainda é tão difícil para nós, espectadores e crítica especializada, apreciar a cinematografia de cada país? Excesso de fast-food? O próprio Tarantino está aí para refutar isso. Se a indústria é o seu prato preferido, preste atenção nos ingredientes: as especiarias ainda vem de outro lugar. As longas tomadas de Pitt dirigindo pelas ruas de Los Angeles são uma óbvia homenagem ao cinema italiano, só para citar um exemplo.

Não é à toa que Kleber Mendonça localiza Bacurau no futuro. Ainda explorado e saqueado, o Brasil que resiste à colonização continua sendo descoberto. O vilão nazista, interpretado por Udo Kier, é capturado justamente em um momento de espanto diante do espírito de Lia do Itamaracá. Nosso cinema não é indústria porque é da ordem do mitológico, do sobrenatural.

O cinema de autor, o cinema do terceiro mundo, o cinema brasileiro não tem vocação para macarrão instantâneo, e é uma pena desejar uma estética diferente ao experimentar o que os nossos criadores têm para oferecer. A minha crítica é de quem comeu um capão ao molho bem temperado, com o pé na areia, na sombra de um cajueiro: 5 estrelas.

* Carolina Mello é jornalista.

Fonte: O Impacial

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