Na China, ‘Nova Economia do Projetamento’ surge em meio ao socialismo


Por Elias Jabbour

Enquanto o mundo capitalista vive a financeirização, o socialismo chinês volta a disputar a vanguarda da revolução tecnológica

Xangai, um dos símbolos da China moderna e tecnológica

Xi Jinping em algum momento de 2018 deixou claro que a China deve inaugurar “novas formas de organização industrial” baseadas na “incorporação da internet, big data e a inteligência artificial à economia real”. Essa frase diz muito e até define o que tenho sintetizado como o surgimento na China de uma “Nova Economia do Projetamento”.

O século 20 foi marcado pela conquista humana de prever as regularidades do capitalismo e se antecipar a tais. Se a revolução social e seus planos quinquenais foram a solução encontrada por determinadas sociedades ante a fase recessiva do ciclo longo, outras encaminharam sua “economia da programação” no sentido de colocar em funcionamento – via gastos públicos – o Princípio da Demanda Efetiva.

A economia monetária moderna, ao lado da planificação soviética e dos mecanismos keynesianos – completava o trio que compunha a chamada, por Ignacio Rangel, Economia do Projetamento.

Atualmente, o mundo, e a China em particular, assistem a talvez uma nova revolução tecnológica que – apesar da hegemonia pós-moderna nas ciências sociais e humanas das “micronarrativas” – alçarão o processo de produção, distribuição e circulação de mercadorias a um outro patamar, fortalecendo a noção para quem o mundo nunca esteve com tantos elementos à sua disposição para alimentar “grandes narrativas”. Ao menos podemos elencar três grandes narrativas:

1) Projetos nacionais de desenvolvimento;
2) Socialismo;
3) Novas e superiores formas de planificação econômica.

Enquanto o mundo capitalista está enredado na trama da financeirização, o socialismo (China) volta a disputar a vanguarda da revolução tecnológica com projetos como o Made in China e a mais de centena de bilhões de dólares na chamada inteligência artificial, plataforma 5G e no big data. Todos esses aparatos suportarão as já citadas, milhares de vezes, novas e superiores formas de planificação. Podemos dizer, assim, que um novo modo de produção está surgindo na China cujo nome científico indicamos de “Nova Economia do Projetamento”.

Trata-se da plena integração entre produção, distribuição, circulação, oferta, demanda e dados financeiros. Afora a rápida mudança na divisão social do trabalho com o encaminhamento planificado da fusão entre o campo e a cidade. Num país de 1,3 bilhão de pessoas a tendência é a produção daquilo que somente é necessário; resultado de uma planificação com “interesse social e ambiental”, com o fim do desperdício de matéria-prima, energia e trabalho.

O foco na economia real é o que diferenciará e oporá a Nova Economia do Projetamento à “instabilidade estável” da financeirização. A ciência de destaque do tempo presente e futuro é, e será, a ciência da planificação econômica. Essa ciência (misturada com arte) foi a maior conquista e criação humana desde o início de sua existência. Deverá ser tomada para si pelos humanistas e os marxistas de forma geral. A sua não apreensão é grave desvio intelectual e, mesmo, gasolina intelectual ao obscurantismo.

As implicações disso ao materialismo histórico deverão ser objeto de amplos e profundos estudos. Marx foi o maior pensador de todos os tempos. Incluindo o tempo que vivemos. O tempo da emergência de um novo modo de produção assentado em uma nova formação econômico-social.

*Elias Jabbour é professor adjunto da FCE/UERJ e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Econômicas (PPGCE) da UERJ. Autor do livro “China Hoje: Projeto Nacional, Desenvolvimento e Socialismo de Mercado” (Anita Garibaldi/EDUEPB, 2012)

Texto publicado orginalmente na Carta Capital

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