Machado de Assis e a oligarquia brasileira – do Império e de hoje


O grande escritor Machado de Assis (1839-1908), cujo falecimento completa 111 anos neste 29 de setembro, descreveu de forma atenta, e muitas vezes cruel, a oligarquia brasileira. Em sua obra, o pensamento e a ação daquela oligarquia de donos de terras, de escravos e do dinheiro, manipuladores do poder político, emergem descritos como a ação de seus protagonistas. Aqui está o vigor dialético de seu realismo – que muitos preferiram chamar de “ironia machadiana”.

Por José Carlos Ruy*

Machado de Assis faleceu há 111 anos e foi um “realista dialético”, sobretudo nas Memórias Póstumas de Brás Cubas

Escrevi aqui, faz algumas semanas, um texto onde classifiquei o realismo de Machado de Assis como “dialético” (O realismo dialético de Machado de Assis, Prosa, Poesia e Arte, 22/06/2019).

Aquela foi uma afirmação – pensei depois – mal explicada e desenvolvida, com base principalmente numa afirmação de Astrojildo Pereira, e não na análise própria, necessária e direta da obra de Machado de Assis. Essa visão ficou desde então borboleteando em meu cérebro, para tomar de empréstimo uma figura grata ao próprio Machado.

Machado de Assis foi um realista dialético e a melhor afirmação dessa ideia está em seu Memórias Póstumas de Brás Cubas, romance que publicou em 1881, cujo narrador já não se encontra entre os vivos: o falecido Brás Cubas.

O romance é um excelente exemplo daquilo que Marx, ao descrever o funcionamento dialético do pensamento, chamou de “concreto pensado” – o ideal como o concreto traduzido e transposto para o pensamento, correspondendo e refletindo o mundo objetivo não como um espelho ou uma fotografia (como supunha o materialismo antigo, criticado por Marx e Engels) mas na forma de um registro condicionado pelas crenças, ideias e concepções já existentes mentalmente.

Na Introdução à Crítica da Economia Política (no item “O Método da Economia Política”), Marx apresentou sua definição metodológica mais direta; ali, descreveu como as categorias caminham entre o concreto e o abstrato, produzindo representações mentais ricas de múltiplas determinações e relações. Vale lembrar extensamente o que ele escreveu: “O método que consiste em elevar-se do abstrato ao concreto é para o pensamento precisamente a maneira de se apropriar do concreto, de o reproduzir como concreto pensado”.

Marx ensina que a visão materialista moderna, dialética, vê a consciência como reflexo do mundo exterior, objetivo. Este é o ponto crucial, que levou Lênin a anotar, em sua leitura da Ciência da Lógica (de Hegel), que o materialismo estava a caminho. É o ponto que distingue o materialismo moderno de “todo o materialismo anterior”, como dizia Marx: o objeto do pensamento é o “concreto pensado”, elaborado pelo cérebro a partir da atividade prática do homem, e não um mero reflexo, como uma imagem de espelho ou uma fotografia em que a figura do mundo se fixa no cérebro passivamente, à margem do pensamento, da cultura, da história do sujeito.


Manuscrito de “A moeda de Vespasiano”, 152º capítulo de Memórias Póstumas de Brás Cubas

As categorias lógicas, escreveu Lênin, são abreviaturas, resumos, da “infinita multidão” de “particularidades da existência exterior, da ação”, categorias que, por sua vez, “servem aos homens na prática”. É assim que se formam os conceitos, e eles incluem a certeza de que a conexão objetiva do mundo é regida por leis.

A dialética materialista define o objeto de pensamento como “concreto pensado”. Envolve uma interação complexa entre o homem, seu cérebro e consciência, na qual o mundo objetivo é reproduzido na forma de construtos cerebrais, como dizia Marx, filtrados pelo conjunto de categorias em que o conhecimento humano se traduz e se desenvolve, ao longo do tempo, em aproximações sucessivas mas infinitas ao mundo real, objetivo.

Memórias Póstumas de Brás Cubas é um excelente exemplo desta forma de pensar. A estrutura do romance traduz esta dialética, embora o próprio Machado – que Astrojildo considerou um “dialético inato” – não tivesse consciência disso.

Entretanto, como se pode ver em uma passagem do conto A Mulher de Preto (Contos Fluminenses, 1870), ele resistisse ao positivismo – isto é, ao cientificismo “duro”, não dialético, herdeiro do materialismo antigo criticado por Marx e Engels.

Naquele conto, ele descreve o protagonista, Estevão, como um jovem médico que se ocupava “tanto com a cabeça que se esquecera de que tinha um coração”. Mas não era “puramente um positivista” e muitas vezes rompia o “cárcere da carne para ir correr os espaços do céu”, do pensamento, da poesia. Do qual, ao voltar, se enterrava “nos volumes à cata de uma verdade científica” – e aqui Machado, apurando o perfil “científico” de Estevão, descreve-o com uma frase que pode ser entendida como oposição ao positivismo: “Newton era-lhe o antídoto de Goethe” – a ciência “dura”, imóvel e eterna, ante a visão da poesia, do movimento e da provisoriedade.

Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, o narrador – já foi registrado – não é o escritor Machado de Assis, autor do romance e criador do personagem que o narra – um ricaço carioca já falecido, membro da classe dominante do Império, que manifesta os preconceitos e a visão de classe próprios da oligarquia que dominava naquela sociedade escravista.


Abertura da Assembleia Geral em 1823, um dos marcos iniciais do período imperial: a visão oligárquica da classe dominante predominava

O autor, Machado, apresenta o narrador, Brás Cubas, com as cores cruéis e duras da crítica machadiana à aristocracia de então – que povoa seus romances em descrições realistas de fazendeiros, banqueiros e traficantes de escravos que mandavam sob o Império. Registra a vacuidade, superficialidade, gosto das aparências daqueles homens que mandaram – e ainda mandam – no Brasil.

Foi assim que colocou na boca – ou melhor, na pena – de Brás Cubas essa autodescrição: frívolo, superficial, ignorante e interesseiro. A universidade, em Coimbra, pouco lhe ensinou – “mas eu decorei-lhe só as fórmulas, o vocabulário, o esqueleto. Tratei-a como tratei o latim: embolsei três versos de Virgílio, dois de Horácio, uma dúzia de locuções morais e políticas, para as despesas da conversação. Tratei-os como tratei a História e a Jurisprudência. Colhi de todas as coisas a fraseologia, a casca, a ornamentação, que eram para o meu espírito (…) o mesmo que para o peito do selvagem são as conchas do mar e os dentes de pessoa morta”.

A própria filosofia de Quincas Borba, o “humanitismo”, é exemplo da ideologia dessa oligarquia e dessa descrição mordaz. Ela reproduz ideias que não são do autor, Machado de Assis, mas do narrador que ele criou com base em figuras daquela oligarquia. É uma filosofia que naturaliza a desigualdade entre os homens, a injusta distribuição de riquezas, a escravização de parte da sociedade como resultado “natural” de relações de força desiguais, e que culmina no conhecido bordão: “Ao vencedor, as batatas”.

A ironia de Machado de Assis está presente nessa apresentação cruamente realista do pensamento de uma elite de senhores de terras e escravos – e donos do dinheiro. Apresentação dialética que surge como o “concreto pensado” de uma sociedade fortemente hierarquizada, assinalada inclusive pela frase final do romance – que muita gente leu erradamente como se fora uma convicção do autor, mas que, na verdade, é a manifestação do pensamento do narrador: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”. É uma confissão de impotência humana e desprezo pela humanidade.

Na obra de Machado de Assis, o pensamento e a ação daquela oligarquia de donos de terras, de escravos e do dinheiro, manipuladores do poder político, emergem descrita como a ação de seus protagonistas. Aqui está o vigor dialético de seu realismo – que muitos preferiram chamar de “ironia machadiana”.

* José Carlos Ruy, jornalista e historiador, é autor de Biografia da Nação – História e Luta de Classes

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