Aldo Arantes: Haroldo Lima, uma vida de lutas


Ao comemorar seus 80 anos Haroldo pode se orgulhar de ter tido uma vida de lutas em defesa dos trabalhadores, da democracia, da soberania nacional e do socialismo. E de defender intransigentemente a política e o legado do PCdoB.

Por Aldo Arantes*

Acervo da Fundação Maurício Grabois.

Aldo Arantes (à esquerda) e Haroldo Lima (no centro de terno escuro)

Aldo Arantes (à esquerda) e Haroldo Lima (no centro de terno escuro)

 

Conheci Haroldo nos anos de 1960, quando atuávamos no movimento estudantil universitário. A partir daí vivemos juntos momentos de realizações e dificuldades, no curso dos quais nos tornamos verdadeiros irmãos.

Estive em Salvador em 1960 por ocasião do Iº Seminário da UNE de Reforma Universitária, oportunidade em que a JUC articulou minha candidatura à presidência da entidade. Haroldo e eu éramos militantes de JUC e dirigentes do movimento estudantil.

Eleito presidente da UNE participei da luta pela legalidade pela posse do então vice-presidente João Goulart. Sobre esse importante acontecimento lembro-me do Haroldo informar que os estudantes baianos se reuniam numa praça de Salvador para ouvir, pela Rede da Legalidade, o Governador Leonel Brizola e a mim, então Presidente da UNE.

Durante a UNE-Volante estive em Salvador, onde realizamos assembleias estudantis em defesa da Reforma Universitária e apresentações do Centro Popular de Cultura. Durante tais acontecimentos nosso relacionamento foi se aprofundando. Ganhou nova dimensão a partir da realização, em Salvador, do Congresso de fundação Ação Popular, em 1962. Nos tornamos dirigentes dessa nova organização.

Após o golpe militar AP se reorganiza. Eu fico na direção nacional de AP e Haroldo na direção da Bahia. Participamos de vários episódios da luta ideológica travada em AP, defendendo as mesmas posições. Exemplo disso foi a luta em torno da opção pelo marxismo–leninismo que levou AP a alterar seu nome para Ação Popular Marxista-Leninista.

Houve um período em que eu estava na clandestinidade e o Haroldo ainda permanecia na legalidade, como engenheiro da COELBA. Sempre que ia a Salvador ficava em seu apartamento sendo muito bem tratado pela Solange, que com o passar dos tempos, se transformou em uma querida amiga.

Em determinada oportunidade fui com o Haroldo para a fazenda Espinho, de propriedade de sua família, no município de Caetité. A estrada para a fazenda era perigosa, cheia de curvas e elevações. Lá fui eu, que mal sabia dirigir, conduzindo o Jeep do Haroldo, em meio a uma calorosa discussão, certamente sobre a situação política do País. Analisando esse acontecimento pode-se concluir que foi uma sorte grande não ter acontecido um acidente.

Mais tarde Haroldo entra na clandestinidade e vai para São Paulo compor a direção nacional de AP. Lá, por razões de segurança, não sabíamos dos respectivos endereços. Mantínhamos contato nas reuniões e nos pontos de encontro. Todavia, nossos filhos se encontravam na casa dele para brincar. Assim, foi construída a relação de amizade entre os meus filhos André e Priscila e as filhas do Haroldo, Julieta, Valéria e Leni.

A luta interna mais intensa e importante, travada em AP, foi a relacionada com a incorporação ao PCdoB. Lideravam esse processo Haroldo, Renato, eu e o Duarte Pacheco. Na época escrevemos o texto sobre a realidade brasileira para fundamentar nossas posições.

Face ao início da Guerrilha do Araguaia a maioria de AP decidiu que deveríamos acelerar o processo de incororaç.ao do PCdoB. Eu, que tinha ido fazer os primeiros contatos de AP com o Partido Comunista da China, retornei lá para comunicar a incorporação.

Enquanto viajava Haroldo e Renato tiveram uma reunião com o Amazonas e o Pomar para informar a decisão adotada, de se incorporar ao Partido. Após a comunicação, Amazonas tomou a palavra para afirmar que ficou impressionado com uma decisão daquela, num momento em que tal atitude representava um risco de vida, já que a repressão ao Araguaia havia iniciado. E mais, sem reivindicar nada em troca.

Com a incorporação ao PCdoB, Haroldo, Renato e eu passamos a compor a Comissão Executiva do Partido. Presos após a Queda da Lapa, ao sermos transportados de avião para o DOI CODI do Rio, de capuz, conseguimos nos comunicar. Apesar da repressão nos identificamos, bem como, percebemos a presença da combativa e corajosa Elza Moneratt, que protestava contra os agentes policiais.

Fomos torturados no DOI-CODI do I e II Exércitos e no DOPS de São Paulo. Em celas do Dops de São Paulo, nos comunicávamos assoviando a internacional comunista para levantar o moral. No julgamento na Justiça Militar, em São Paulo, fizemos denúncia das torturas a que fomos submetidos.

No Presídio do Barro Branco, em São Paulo, ficamos na mesma cela. Fazíamos estudos, trabalhos manuais e elaboramos o livro História da Ação Popular – Da JUC ao PCdoB. Já quase no final do período de nossa prisão, o Haroldo foi transferido para um Presídio em Salvador.

Com a anistia em 1979 ambos saímos da prisão e fomos candidatos a deputado federal. Haroldo na Bahia e eu em Goiás. Assumindo o mandato como parlamentares do MDB desenvolvemos o combate à ditadura e lutamos pela aprovação das Diretas Já, participando em comícios pelo Brasil afora.

Na eleição seguinte fomos eleitos para a Assembleia Nacional Constituinte, onde o Haroldo se tornou líder do PCdoB e eu vice-líder. Haroldo era membro da Comissão de Sistematização e se voltou para a questão da soberania nacional, sobretudo para a questão do petróleo. Eu atuei, particularmente, na Subcomissão de Reforma Agrária que integrava a Comissão da Ordem Econômica.

Após o final dos nossos mandatos Haroldo foi para a Agência Nacional do Petróleo e eu para o Programa Nacional de Extensão da Educação Profissional do MEC. Na ANP Haroldo jogou importante papel na elaboração da lei de 2010 que adotou o Regime de Partilha na exploração do Pré-sal. E criou o Fundo Social para destinar recursos provenientes dessa atividade para a educação, saúde, cultura, esporte, ciência e tecnologia, meio ambiente e mitigação e adaptação às mudanças climáticas.

Haroldo sempre foi uma pessoa com sua vida completamente voltada para a luta do nosso povo. Corajoso e decidido, Haroldo teve momentos em que essa característica ficou explícita como quando, face às manobras do Centrão, subiu à área onde ficava a mesa dos trabalhos da Constituinte e tomou o microfone do Presidente.

Personalidade alegre sempre gostou de poesias. Lembro-me dele recitando Patativa do Assaré.
Entusiasta com seu tio Anísio Teixeira, sempre se refere a ele com orgulho, destacando seu importante papel em defesa da escola pública, gratuita e de qualidade.

O Pe. Renzo, que Haroldo conheceu em Salvador, se transformou em amigo dos presos políticos visitando inúmeros presídios no País.

Contar as novidades que encontrou na China e relatar o papel desse Pais na nova fase da luta pelo socialismo é algo que faz com entusiasmo. Aliás, é exímio contador de casos e acontecimentos o que faz ]de forma contagiante.

Enfim Haroldo é uma personalidade que se destacou em nosso Partido e se projetou como importante liderança política em nosso País. É merecedor de todas homenagens.

Vida longa, amigo Haroldo Lima!

*Aldo Arantes foi deputado Constituinte de 1988. É membro da Comissão Política do Comitê Central do PCdoB.

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