Wadson Ribeiro: Governos conservadores empoderam o racismo


A Nação brasileira é constituída por diferentes matrizes, de várias partes do mundo que, ao longo desses 519 anos de história, tornaram o Brasil um país plural, com uma população diferente de qualquer outra em qualquer parte do mundo.

Aqui, além dos nativos, se instalaram europeus, árabes, asiáticos e, de forma mais volumosa, escravos vindos da África. Essa diversidade, que de acordo com Darcy Ribeiro fez do povo brasileiro um povo novo, fruto de toda essa miscigenação, que conferiu ao Brasil a unicidade e a riqueza cultural de seu povo, mas, por outro lado, não corrigiu as assimetrias socioeconômicas advindas da colonização e que ainda hoje se manifestam.

Há duas semanas, durante o clássico entre Atlético e Cruzeiro os irmãos Adrierre e Natan da Silva, torcedores do Atlético, agrediram o segurança do Mineirão Fábio Coutinho chamando-o de “macaco” e cuspindo em sua direção. Dias antes, a cuidadora de idosos Eliangela Carlos Lopes, denunciou à Polícia mineira um anúncio de emprego recebido que vetava a seleção de negros. Em outro episódio condenável, o representante do MBL (Movimento Brasil Livre) em Minas, Tiago Dayrell, ofendeu a cozinheira de um restaurante da capital chamando-a de crioula. Esse fato, aliás, parece ter sido premeditado, pois o agressor filmou a confusão que provocou para sensacionalizar nas redes sociais, algo típico desse movimento de caráter fascista.

O problema é que episódios como esses não se circunscrevem apenas a cidadãos comuns, o que já revelaria uma aberração, e estão ganhando agora dimensão institucional. Na última terça-feira (19) o deputado federal Coronel Tadeu (PSL-SP), da tropa de choque de Bolsonaro, quebrou ao meio um quadro que estava em exposição em plena galeria da Câmara Federal e que retratava o genocídio da população negra no Brasil. O quadro do chargista Latuff expunha a condenável estatística que demonstra que entre 2007 e 2017 a taxa de homicídios de negros no Brasil aumentou em 33,1%. Além disso, a taxa de homicídios de negros foi para 43,1 para cada grupo de 100 mil indivíduos em 2017, ou seja, para cada indivíduo não negro que sofreu homicídio em 2017, aproximadamente 2,7 negros foram mortos.

O empoderamento do racismo no período Bolsonaro se caracteriza por atos e gestos que guardam entre si uma conexão subterrânea. A agressão verbal aos brasileiros que vivem no Nordeste, o aumento das manifestações de racismo nas ruas, a relação que o presidente nutre com setores evangélicos mais radicais, que fomentam ataques à outras religiões, especialmente às de matrizes africanas. O relacionamento com milicianos que exterminam jovens negros nas periferias, ou no asfalto, como no caso da vereadora Marielle, o desespero em armar a população branca e de classe média para se defender da ameaça pobre e negra. Esses são exemplos de um ambiente político e, talvez cultural, que vai se criando e que naturaliza o racismo, a exploração e a violência.

Por fim, o que torna o futuro um grande desafio para essa Semana da Consciência Negra é que além da luta de classes, que faz com que uma pequena parcela se torne cada vez mais rica e uma imensa maioria cada vez mais pobre, fenômeno que se intensificou nos últimos anos, a população negra tem ainda que lutar contra o racismo, que em governos como o de Bolsonaro ganham força por sua concepção e composição política e econômica.

* Presidente do PCdoB-MG, foi presidente da UNE, da UJS e secretário de Estado

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