Jorge Gregory: Redes sociais, movimentos identitários, religião e crime organizado


Um debate atual que se coloca é se as esquerdas não estariam abandonando os movimentos populares e privilegiando a disputa política nas redes sociais e nos movimentos identitários.

Penso que se coloca uma falsa polêmica nesta discussão, uma vez que a adesão às redes sociais se dá majoritariamente nas camadas médias da sociedade e a classe média sempre foi um campo de disputa. Também é falsa a polêmica no que diz respeito aos chamados movimentos identitários, pois as bandeiras de igualdade de gênero, de combate aos preconceitos, sejam eles de ordem racial, religioso, de opção sexual etc., sempre foram incorporadas pelas esquerdas. Ou seja, nunca houve contradição no fato das esquerdas atuarem junto a segmentos médios e/ou segmentos identitários e os movimentos populares comunitários.

Já os movimentos populares, mais especificamente o comunitário, e sindicais operários, por sua vez, passaram por uma verdadeira desestruturação a partir das décadas de 80/90, o que resultou em grandes dificuldades de ação das organizações de esquerda nestes seguimentos e, consequentemente, levou a uma aparente opção por atuação prioritária nos segmentos médios e movimentos identitários.

O movimento sindical operário, após as vigorosas greves metalúrgicas do final dos anos 70, foi perdendo força com as mudanças no mundo do trabalho promovidas pela imposição dos conceitos neoliberais e pelo avanço da automação, associados também às crises econômicas. O movimento sindical se manteve forte no funcionalismo público e nas empresas estatais, lembrando que os petroleiros sofreram um forte revés no governo FHC.

Ao final dos anos 70, em que pese o desmantelamento das organizações de esquerda pela violência repressora do regime militar, não só o movimento sindical no ABC paulista era vigoroso, mas também os movimentos no campo e principalmente o movimento comunitário, organizado nas periferias das grandes e médias cidades. Tal força tinha como elemento motor os setores progressistas da Igreja Católica, em especial aqueles ligados à Teologia da Libertação, que conseguiam estabelecer profunda capilaridade nos seguimentos populares através das CEBs (Comunidades Eclesiais de Base). Todo este movimento convergiu para a organização da ANAMPOS (Articulação Nacional dos Movimentos Populares e Sindicais) em 1980, que fundaria e se constituiria na corrente majoritária do Partido do Trabalhadores. A penetração desta corrente era de tal ordem que, em menos de uma década, converteria o PT no maior partido de esquerda e em duas décadas chegaria ao poder.

Com a anistia e o processo de abertura, os partidos tradicionais de esquerda começam a se rearticular e a buscar reconquistar sua influência de massas. No decorrer dos anos 80, em especial nos movimentos comunitários e no campo, encontravam os espaços ocupados pelas pastorais que colocavam ferrenha resistência em dividir sua influência com outras forças, muitas vezes até mesmo expressando uma posição anticomunista explícita.

A partir dos anos 90 a Teologia da Libertação passa a sofrer forte oposição dentro da Igreja Católica, em especial do próprio Vaticano, ao tempo que no campo religioso as igrejas evangélicas começam gradativamente ocupar os espaços das CEBs nas periferias dos grandes centros. De um percentual de 9% da população que professava credos evangélicos contra 83% de católicos em 1991, segundos dados do IBGE, em 2010 já representavam 22% contra 65% de católicos e, segundo o Data Folha, atualmente o percentual já é de 32%. Em 2030, permanecendo a atual tendência, os evangélicos serão a maioria com aproximadamente 45% da população convertida.

Os indicadores apontam também que este crescimento exponencial se dá principalmente nas periferias dos grandes centros. O Rio de Janeiro e sua região metropolitana é a região que apresenta o maior crescimento.

Este fenômeno não representa tão somente uma conquista de espaço religioso, mas também passou a representar um movimento político que controla o voto e a participação política de seus fiéis. Adquiriu tal dimensão que há anos a chamada bancada evangélica, congregando pastores de diversas igrejas, atua como um verdadeiro partido. Na atual legislatura soma 82 parlamentares na Câmara, muito superior às duas maiores bancadas que são a do PT (56) e PSL (52). Destes, 28 são ligados à Assembleia de Deus, de Silas Malafaia e outros 17 a Igreja Universal, de Edir Macedo. São Paulo elegeu 17 deputados evangélicos e o Rio de Janeiro 11.

Importante lembrar também que em 2002 e 2006 os evangélicos apoiaram Lula e em 2018 foi uma das principais bases eleitorais de Bolsonaro.

Não foi, porém, só o avanço dos evangélicos que afastou as esquerdas dos seguimentos populares. Já no início dos anos 80 surge a organização criminosa chamada Comando Vermelho, estruturada inicialmente no presídio de Ilha Grande, passando a controlar posteriormente o tráfico de drogas e armas nas favelas do Rio e se expandindo no restante do país, dando origem inclusive a sua hoje grande rival, o PCC. Estas duas organizações criminosas se digladiam atualmente em quase todas as unidades da Federação pelo controle dos presídios e dos bairros periféricos nas capitais, grandes e médios centros.

Mas não só o narcotráfico tomou forma organizada. Nos anos 90, originárias dos esquadrões da morte, começam a atuar também de forma ostensiva e organizada as milícias que passam a disputar o controle de territórios com as organizações de narcotraficantes. Passam a controlar não só as atividades criminosas, mas também organizações populares como associações de moradores e, principalmente, dar salvo conduto ou vetar quem pode ou não pode fazer política nos territórios sob seu controle.

Da mesma forma atuam as organizações de narcotráfico em territórios sob seu controle Em muitos casos, tais organizações, milicianas ou de narcotráfico, atuam em acordo explícito ou velado com evangélicos. Chegamos ao absurdo de ouvirmos falar hoje de narcotraficantes evangélicos. Junto as castas militares e judiciárias, esta combinação explosiva e escabrosa entre religião e crime se transformaram no elemento motor de retrocessos não só no Brasil, mas em muitos países da América do Sul.

Portanto, travar a disputa com estes segmentos não se trata somente de recuperar a influência sobre as massas mais pobres e periféricas, mas principalmente fazer frente a ofensiva reacionária e conservadora em curso no Brasil e no Continente. Encontrar formas de capilarização nos bairros, vilas e favelas, rompendo o cerco criminoso e religioso é o grande desafio do momento. As redes de educação, saúde e movimentos culturais talvez seja um caminho a ser explorado.

*Jorge Gregory é jornalista e professor, trabalhou no Ministério da Educação (MEC).

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