Pedro Gorki: “Existe uma geração disposta a lutar”


Em entrevista à jornalista Ana Cláudia Peres, da revista Radis, o estudante potiguar Pedro Gorki, presidente da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas – Ubes, fala sobre sua trajetória, das lutas da juvenude estudantil brasileira e de sua esperança em conquistar um futuro democrático, com educação de qualidade e trabalho digno.

Foto: Maiakovski Pinheiro

 Para Gorki  Para Gorki “existe uma geração disposta a lutar e seguir com o sonho da construção de um país com uma educação pública, gratuita, universal, de qualidade, libertadora”.

Ele tinha 12 anos quando iniciou uma campanha para criação do grêmio no colégio. Em 2015, já estava coordenando as ocupações nas escolas de Natal, no Rio Grande do Norte, onde morava com os pais. Ficou onze dias na sede da Secretaria Estadual de Educação e só deixou o local depois de uma reunião com o governador e sua equipe de secretários, de onde saiu com uma carta das ocupações, a reforma das escolas garantida e a anistia para os estudantes que haviam sido criminalizados. Pedro Gorki começava a se tornar um quadro do movimento estudantil. Dois anos depois, em dezembro de 2017, aos 16 anos, seria eleito presidente da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes).

Para seguir na luta cotidiana em defesa da educação em todo o Brasil, precisou se mudar para São Paulo, onde fica a sede da Ubes. É na maior cidade da América do Sul que Pedro vive agora, em uma casa compartilhada com outros diretores de entidades estudantis. A militância lhe consome “25 horas por dia, oito dias por semana”, palavras dele. O jovem, cujo sobrenome é uma homenagem ao poeta revolucionário russo Máximo Gorki, só sente falta da praia. Vez em quando também escreve poemas e consegue tempo para torcer pelo América de Natal, seu time do coração. Também organizou a agenda para conversar com Radis.

Por telefone, em um final de tarde de outubro, afirmou que luta pelo futuro e que o movimento estudantil no Brasil nunca esteve desacordado. Ao contrário. Talvez o mais correto seja dizer como no verso da canção “Latinoamérica”, um hino de resistência da banda porto-riquenha Calle 13, que o presidente da Ubes escolheu para seu perfil nas redes sociais: “Aquí se respira lucha”.

Pelo que luta a juventude brasileira? Quais as grandes bandeiras dos estudantes hoje?

Se fosse definir em uma palavra, diria que a juventude brasileira hoje luta essencialmente por futuro. Por um futuro democrático, com educação de qualidade, com direito ao trabalho digno. Por um futuro com aposentadoria, por direitos sociais estabelecidos na Constituição. Por um futuro com vida, sem genocídio da nossa juventude. Por um futuro de esperança. E a nossa luta é justamente a expressão da nossa revolta e da nossa indignação com o descaso — não somente do governo mas de todos os setores mais conservadores da sociedade brasileira. Então, nossa indignação é a expressão da nossa revolta contra a política genocida de segurança pública, implementada no Rio de Janeiro, mas também em todo o Brasil, que levou à morte da jovem Ágatha Félix, de apenas 8 anos [estudante baleada, no Complexo do Alemão, quando voltava para casa depois de um passeio com a mãe, em setembro deste ano], que matou o Marcos Vinicius, de 14 anos [estudante morto durante operação policial no Complexo da Maré em junho de 2018]. A nossa luta é a expressão da revolta da juventude contra a reforma trabalhista e a reforma da Previdência, que precariza as relações de trabalho, ataca a CLT e acaba com a nossa perspectiva de se aposentar e de envelhecer com dignidade. A nossa luta é a expressão da nossa revolta contra os cortes da educação. A nossa luta é a expressão da revolta da juventude contra o desmonte do Brasil e dos nossos sonhos. Eu acho que é isso que nos motiva.

O que significa fazer movimento estudantil no atual cenário político brasileiro? O que há de novo?

Eu acho que os ataques mais fortes do atual governo ao povo brasileiro foram dois: o ataque à educação — isto é, ao estudo — e o ataque à esperança do povo brasileiro. Ser do movimento estudantil é se armar com aquilo que o governo não quer que a gente tenha, que é justamente se armar com o estudo, com a educação e com a esperança na luta da juventude. Ser do movimento estudantil hoje é ser justamente o pesadelo cotidiano deste governo, que já recuou em várias pautas educacionais, mas que elenca a educação e o movimento estudantil como seus inimigos. Ser militante desse movimento nos dias de hoje significa ser quase um missionário da esperança do povo brasileiro. O que me deixou muito alegre nas grandes manifestações protagonizadas pelos estudantes este ano é que elas mostraram que o movimento estudantil nunca morreu ou esteve desacordado, mas sempre esteve muito ativo, especialmente no momento que mais precisamos, como foi agora na luta contra os cortes na educação. Lá estava o movimento estudantil. O que me deixou mais alegre naquelas marchas foi ver vários militantes de outras épocas, ou até gente que nunca fez parte do movimento estudantil, senhores e senhoras de idade, nossos pais e mães e avós, olharem para aquele movimento e ver que ali existe a esperança. E que pode até estar difícil, mas existe uma geração disposta a lutar e seguir com o sonho da construção de um país com uma educação pública, gratuita, universal, de qualidade, libertadora.

Certa vez você declarou em entrevista: “Se a juventude não ocupar a política, as oligarquias ocupam”. Acha que houve avanços ou recuos nesse sentido?

Olha, a gente avançou bastante na questão da inclusão dos jovens, dos negros e negras e das mulheres na política, embora ainda seja muito insuficiente para o que deve ser o espelho do nosso povo. O Congresso Nacional e os poderes Executivo e Legislativo devem ser um reflexo do que se tem na base da sociedade. Mas quando a gente vê que as mulheres são mais de 50% da população brasileira e menos de 20% do Congresso Nacional, e que os empresários são 1% da população brasileira e 50% do Congresso, a gente percebe que a desigualdade ainda é muito grande. Então, eu diria que a gente caminhou um pouco com muitas candidaturas jovens e de mulheres que foram eleitas. Mas ainda é muito insuficiente.

O que esse espelho reflete?

Isso é reflexo obviamente de uma política destruidora até da perspectiva da juventude. Então, se a juventude hoje não tem perspectiva nem de terminar seu curso na faculdade, nem mesmo de entrar na universidade, imagine de se candidatar e ser eleita. A gente tem que dar passos muito mais largos. Mas eu acho que isso só vai ser mudado com a participação política em nosso país. E com a participação política desses jovens que são mais afetados pela crise que a gente passa hoje. Essa é a única forma de a gente derrotar uma lógica cruel de muitos políticos que têm muita boca mas pouco ouvido para o que anseia a juventude. Claro que não se trata apenas de a juventude ter boa vontade. Trata-se também de uma luta por um processo de radicalização da democracia no Brasil, de condições mais iguais para as candidaturas e, especialmente, de ouvir mais o que diz a juventude brasileira. A gente não é apenas o futuro do nosso país, é também o presente, e no presente a gente quer ser escutado, quer ter voz, que ter representação e quer ocupar o poder e a política.

Você participou ativamente do movimento de ocupação das escolas ocorrido entre 2015 e 2016. O que ficou daquele momento em sua vida particular e que consequências trouxe para o movimento estudantil?

Comecei no movimento estudantil na verdade em 2012, quando eu estudava em um colégio católico e a nossa luta era para que nossa escola tivesse grêmio estudantil. Depois das manifestações de 2013, nós continuamos na luta pelo passe livre e contra o aumento das passagens. Mas, sem dúvida nenhuma, meu momento de maior maturação política foi aquele das ocupações. Ali eu já atuava como um dirigente da Ubes. E o recado que ficou, tanto para minha vida em particular como para a sociedade, foi que a gente mostrou na prática que temos condições de construir uma escola do jeito que a gente quer. As ocupações não invadiram as escolas, elas tomaram as escolas para o debate público, para oficinas, para a construção de uma educação mais democrática. Tomaram as escolas para utilizar aquele espaço não somente para “mais do mesmo” ou para aprender o bê-a-bá. Tomaram as escolas para que aquela escola tomasse partido em defesa do Brasil. Acho que aquele é, sem dúvida nenhuma, um dos momentos mais marcantes da história do movimento estudantil secundarista brasileiro e tem que ser sempre, cada vez mais, reverenciado. As ocupações mostraram que a gente tem como ser vitorioso. Mas sobretudo que a nossa vitória não será por acaso. Ela virá da nossa organização, garra, resiliência, perseverança. Ela virá da nossa esperança.

Fonte: Revista Radis

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