Andre Motta Araujo: A elite americana prevê o fim do neoliberalismo


As 200 maiores corporações americanas, reunidas no  BUSINESS ROUNDTABLE, principal entidade de cúpula do capitalismo americano, presidido por Jamie Dimon, CEO do mega banco J.P. MORGAN CHASE, pela voz de seus executivos principais reunidos, decidiram que o credo neoliberal praticado há 40 anos, segundo o qual p principal objetivo das corporações é gerar “valor para o acionista”,  está errado e deve ser revisto porque esse ideia causou um desastre que vai COLOCAR EM RISCO O PRÓPRIO CAPITALISMO. Esse desastre se chama “CONCENTRAÇÃO DE RENDA”.

Há 40 anos, segundo o Business Roundtable, 1% da população americana detinha 7% da riqueza. Hoje os mesmos 1% detém 22% da riqueza, a concentração de riqueza aumentou TRÊS VEZES. O mito neoliberal, de que se o acionista ganhar mais toda a economia prospera, ERA FALSO. A riqueza se concentra e não beneficia o conjunto da sociedade. Hoje o crescimento dos EUA está estagnado e não passa de 2% anual, inexplicável quando o desemprego é baixo. Na prática, os EUA têm pleno emprego, mas há truques embutidos nessa constatação, há muitos trabalhando abaixo de sua competência porque não conseguiram prosseguir suas carreiras pela falta de crescimento da economia, há uma estagnação e até regressão social nítida nos EUA.

A explicação do Business Roundtable é clara: NÃO CRESCE PORQUE OS SALÁRIOS SÃO BAIXOS E A POPULAÇÃO ESTÁ ENDIVIDADA, quer dizer, não basta o pleno emprego, é preciso DISTRIBUIR RENDA para que a economia cresça e as grandes corporações NÃO DEVEM TER O LUCRO PARA O ACIONISTA COMO ÚNICO OBJETIVO, PORQUE ISSO VAI DESTRUIR A ECONOMIA DE MERCADO por causa de uma crise social que pode levar à implosão do País.

O FIM DO CICLO NEOLIBERAL

O chamado “ciclo neoliberal’, que é uma exacerbação dos princípios da Escola Austríaca, uma espécie de crença cega no mercado muito além dos princípios da primeira fase do capitalismo moderno com Adam Smith e David Ricardo, propagado pela então Primeira Ministra Margaret Thatcher, hoje demonizada no Reino Unido, com sua biografia histórica revista muito para baixo, partia da lógica errada de que a economia de mercado, LIVRE DAS AMARRAS DO ESTADO, seria boa para todos, ricos, classe média e pobres. Segundo a conclusão do Business Roundtable, evidenciado o pensamento de 178 CEOs das maiores corporações da economia produtiva e do mercado financeiro dos EUA, essa crença É FALSA. A economia de mercado sem Estado NÃO É BOA PARA TODOS, só para os ricos e se isso não for corrigido o capitalismo não terá futuro porque ele só funciona dentro de uma sociedade organizada.

O PAPEL DO ESTADO

A conclusão do Business Roundtable vai mais além. Julga que é fundamental reconsiderar o papel do Estado como regulador e garantidor dos direitos da população em suas relações com o mercado, que, ao contrário do que imaginavam os neoliberais de raiz, NÃO SE AUTOREGULA porque não é de sua natureza e nem de sua capacidade. É necessário um Estado forte para que a população seja protegida da ganância excessiva do mercado.

O BRASIL NA CONTRA MÃO ADOTA O NEOLIBERALISMO DOS ANOS 80

O Brasil, sempre atrasado na absorção de tendências do pensamento econômico elaboradas nos países centrais quer, em 2019, implantar no País a ideologia já caduca dos anos 1980, as ideias de Mrs. Thatcher já foram desmontadas na própria Inglaterra e sua biografia revista e piorada, a deputada Glenda Jackson, ex-artista de Hollywood, é hoje o maior algoz do papel histórico de Mrs. Thatcher e a crise de 2008 nos EUA foi atribuída à desregulamentação do mercado financeiro efetuada pelo Presidente Reagan, também sob revisão histórica.

O neoliberalismo dos anos 1980 foi desmontado no Chile pelos efeitos catastróficos que causou nas classes média e pobre do Chile, enquanto enriquecia o topo dos ricos.

O neoliberalismo com desmanche do Estado está em franca implantação no Brasil ao mesmo tempo em que é rejeitado nos países centrais, produzindo terríveis efeitos em um Pais com enorme população de baixa renda, produziu péssimos resultados em países ricos ao empobrecer a classe média, em países emergentes produzirá catástrofes de miséria e involução social. Vemos hoje no Brasil um sólido pensador econômico neoliberal de primeira linha, Arminio Fraga, fortemente preocupado, mais do que qualquer outro fator, com o desequilíbrio social, ao mesmo tempo em que neoliberais ideológicos, como o Ministro da Economia, incapaz de evoluir, pregando e colocando em prática no Brasil o receituário neoliberal antigo dos anos 1980, que fracassou redondamente no seu principal laboratório, o Chile. Cego a esse fracasso o atual núcleo que comanda a economia no Brasil insiste na fórmula chilena.

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Agora, com a revisão dessas premissas nos EUA, alguma luz deve se despejar sobre a mídia e os empresários brasileiros que apoiam essa catástrofe de desmonte do Estado via privatizações absurdas e concessões fantasiosas, com a alegação infantil de “o Brasil está quebrado”, quebrado estará pela incompetência de quem deveria ter projetos e ideias de revigoramento da economia onde o Estado ainda tem e terá PAPEL CENTRAL.

O NEOLIBERALISMO COMO IDEOLOGIA

Há dois eixos diferentes no neoliberalismo de Thatcher e de Reagan. Mrs. Thatcher tinha o neoliberalismo como uma ideologia em oposição ao Partido Trabalhista Inglês, que era (e é) um partido social democrata clássico. Já Reagan adotou uma forma mais suave de neoliberalismo, baseado na desregulamentação e não na privatização, não havia o que privatizar nos EUA, ao contrário do Reino Unido. Reagan era a favor da desregulamentação do mercado financeiro, que foi a causa da crise de 2008, isso dito pelo então Secretário do Tesouro dos EUA e era contra os sindicatos de trabalhadores. Mas Reagan não seguia a linha de considerar o neoliberalismo uma ideologia, era apenas uma praxis útil à economia, não era uma fé religiosa, Reagan era um pragmático.

Já os neoliberais brasileiros do atual grupo no comando da economia têm o neoliberalismo como IDEOLOGIA ou SEITA, é uma forma muito mais primitiva tosca, grosseira e ignorante de operar aquilo que é apenas uma escola de pensamento econômico que serve para um ciclo e não pela eternidade.

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O interessante é que os neoliberais da Era FHC, como Arminio Fraga, Gustavo Franco, Pedro Malan e outros não operaram a política econômica na base de ideologia, eram práticos e não fanáticos, como pessoas cultas e inteligentes alguns revisaram suas posições para ver os defeitos do neoliberalismo, caso de André Lara Rezende e Arminio Fraga, é uma característica de cérebros de primeira ordem, a capacidade de se reciclar, rever posições, refletir, e não manter a mesma ideia  até a morte, caso dos burros e limitados. Keynes se reinventou várias vezes, mudando de ideia de acordo com a época, como respondeu à observação de Lady Astor “O senhor muda de ideia a toda hora”, ao que Keynes respondeu, “My lady, eu não mudo, o que mudam são as circunstâncias”. Lara Rezende e Fraga estão hoje na mesma linha do Business Roundtable, ou o capitalismo se reforma para distribuir renda ou acaba.

E a ruptura pode vir de forma repentina, como no Chile e agora também na Colômbia, com manifestações destrutivas e intermináveis, produto da frustação acumulada de classes e pessoas que viram suas vidas serem destruídas pelo desemprego e regressão social.  A elite brasileira, historicamente atrasada, cega e surda, focada no mercado financeiro, dificilmente terá a capacidade revisionista de uma elite culta, mas fica do recado da elite americana.

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3 comentários

  1. A charge é de um (negro) puxando o mundo como um burro de cargo, mas, considero melhor (expressão) a de um (latino), estes, são quem realmente, servem de (tapete) aos norte-americanos!

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  2. A fúria de Lênin contra os que viviam revendo o marxismo para ensiná-lo as regras de convivência em uma sociedade burguesa capitalista poderia, por extensão da descrição de André Motta das virtudes dos “homens inteligentes”, ser classificada como sinal de burrice. Porém, observando a disjuntiva “ou o capitalismo se reforma para distribuir renda ou acaba”, disjuntiva que guarda alguma afinidade com o ditado “entregar os anéis para não perder os dedos”, fazemos aqui uma ressalva: para os intelectuais orgânicos da plutocracia, a percepção de que o fim do capitalismo é uma possibilidade cada vez mais real, e não apenas teórica, os obriga a mudar de posição, tentando, com isso, salvar o capitalismo desse fim que se aproxima, para, dessa forma, salvar a si mismos e o sentido que deram às suas próprias vidas, que, sem o capitalismo, não teriam mais funcionalidade; entretanto, para os intelectuais orgânicos do proletariado, essa mesma percepção recomenda maior firmeza ainda na defesa de receitas que não são nem neoliberais nem keynesianas, mas marxistas-lenistas, pois esses intelectuais não temem o fim do capitalismo, ao contrário, o desejam e, de tal sorte, que esse fim seja realizado como produto da luta de classes travada sob sua orientação teórica e ideológica. O que André Motta parece não comprender, porque, talvez, também seja, mesmo que disso não tenha consciência, como Keynes foi um dia, um intelectual orgânico da burguesia, tentando igualmente salvar o capitalismo através de políticas chamadas redistributivas implementadas por um “Estado forte”, é que, para os que defendem, de fato, os interesses dos trabalhadores e do povo, se fosse comprovada a tese de que o neoliberalismo acelera a morte do capitalismo e o keynesianismo evita esse óbito, então, os que somos contra o capitalismo e desejamos substituí-lo pelo socialismo deveríamos apoiar o neoliberalismo e não o keynesianismo, por mais absurdo que isso possa parecer. Não obstante, esse aparente absurdo deve-se exclusivamente a uma premissa falsa que é o fio condutor do texto, e que muita gente que se diz socialista, e até mesmo, comunista, passou a acreditar e difundir: trata-se da falácia de que o receituário keynesiano é capaz de impedir a morte do capitalismo, induzindo-o a ser um capitalismo bonzinho, respeitoso para com os mais pobres. Essa capacidade não passa de uma ilusão, que visa dar – e, no passado, realmente deu- ao sistema capitalista condições para superar períodos de situações revolucionarias que poderiam ser aproveitadas pela luta dirigida por um partido revolucionário para acelerar o fim desse sistema capitalista. Essa ilusão é análoga a que convenceu o sapo da conhecida fábula a transladar o escorpião de uma margem a outra do rio. Concentrar renda será sempre “da natureza” do capitalismo, que não poderá jamais a ela contrariar. Não há como salvar esse sistema sem que isso represente mais sofrimento e injustiças para a maioria absoluta da humanidade.

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