Renato Rabelo: Chacina da Lapa, que as novas gerações saibam a dimensão da luta pela liberdade


Dentre tantas reflexões a se suscitar sobre a Chacina da Lapa – agora completando seus trinta anos de história –, é preciso mostrar às novas gerações a dimensão e o papel que teve a resistência ao regime militar. Tal resistência consegue mobilizar forças significativas, sobretudo da juventude, num momento de grandes dificuldades para o povo e para a pátria.

Além dessa dimensão histórica, há um segundo aspecto a ressaltar: nesse período a direção teve de conduzir o Partido de fora do país, devido às condições adversas criadas após a Chacina. A terceira questão envolve um aspecto notável sobre os três companheiros assassinados (Pomar, Arroyo e Drummond), que formam três gerações de lutadores. Esse aspecto é emblemático porque mostra como o Partido conseguiu juntar gerações diferentes na luta contra o regime militar.

O episódio da Lapa mostra ainda o custo pago para a redemocratização do país. O Partido Comunista do Brasil atuou em todos os níveis nesse período, tanto no plano político geral, no movimento popular (em que teve uma influência muito grande no movimento da juventude e no movimento estudantil), quanto na resistência armada. Ou seja, o Partido esteve em todas as frentes de luta e dessa maneira deu sua contribuição para o enfrentamento à ditadura.

A resistência: a juventude se destaca

Lembro-me muito bem de João Amazonas falando: “Para eles o perigo hoje é a juventude. Eles procuram o jovem!”. A juventude e os estudantes foram a força-motriz importante na luta contra a ditadura. Quando ocorreu o episódio da Lapa, estava em curso uma importante jornada de resistência na história do país. A ditadura militar durava havia mais de 10 anos. E essa resistência correspondeu a um anseio muito forte na época – sobretudo no seio da juventude – de liberdade e democracia. Uma luta abnegada marcou esse momento e uma grande quantidade de estudantes deixou escolas e universidades para se dedicar à causa – um fato talvez inédito na história política brasileira.

A ditadura enfrentou a resistência de maneira sangrenta – deixou uma série de mártires e de heróis. Pessoas que simplesmente foram fuziladas, outras morreram na tortura, outras no combate… É importante o resgate desse movimento porque talvez as pessoas de hoje não tenham idéia do nível dessa batalha e como o regime tendeu a uma ação fascistizante à medida que a resistência ia crescendo.

A Chacina

Exatamente em 1976, no bojo da resistência, ocorre a Chacina da Lapa, em que uma parte da direção central do PCdoB foi atingida pela repressão. Na realidade, o objetivo da ditadura era tentar aniquilar este núcleo dirigente porque, dos partidos de esquerda, o PCdoB foi aquele que conseguiu sobreviver minimamente e comandou a maior resistência armada ao regime: a Guerrilha do Araguaia. Assim, ele passou a ser o alvo prioritário do regime militar. Os agentes do regime perseguiram esse alvo. Por meio da delação de Jover Telles, eles conseguiram localizar a reunião de uma parte do grupo dirigente comunista. Com o objetivo de aniquilar tal núcleo e, sobretudo, sabendo que nessa reunião estaria presente João Amazonas, as forças da repressão invadiram a casa no bairro da Lapa em São Paulo em 16 de dezembro de 1976. Companheiros da direção que já haviam deixado a reunião foram presos, e os que se encontravam no interior da casa foram sumariamente assassinados – entraram atirando e as pessoas não tiveram oportunidade de reação. O objetivo era matá-las sumariamente. Talvez, essa tenha sido a última ação mais importante da ditadura contra a resistência na época.

Para as forças da repressão, João Amazonas estava no Brasil, porque o delator não sabia que ele estava fora do país. Aliás, para o delator, Amazonas estaria na reunião, porque segundo a decisão de que ele participou, na reunião anterior, Pedro Pomar é que deveria viajar para compromissos fora do Brasil. Mas, de última hora aconteceram problemas na família de Pomar e Amazonas teve de ir em seu lugar. João Amazonas, Dyneas Aguiar e eu estávamos exatamente na China. Porque além de um congresso no Exterior, estava programada uma viagem de nosso Partido à China, a convite do Partido Comunista local. Isso aconteceu em dezembro de 1976 (logo depois da morte de Mao Tsetung). Lá fomos comunicados pelo Partido Comunista da China sobre a invasão da casa em que o Partido se reunia em São Paulo. Para nós este acontecimento teve um impacto muito grande.

Em 1976 o Brasil entrava numa fase a que podemos chamar de declínio da ditadura, de derrota política e moral da própria ditadura, imposta pela resistência. Isso levou a que o regime, sobretudo a partir do governo Geisel, buscasse uma saída para a situação. Nessa época, ele definiu o caminho de uma abertura chamada “lenta, gradual e segura”. Para isso, seria necessário exterminar o que existisse de força política de esquerda, talvez mais conseqüente e que, para eles, a que de fato levou ao enfrentamento maior contra a ditadura. Então, isso também reforça essa idéia de tentar pelo menos aniquilar, ou até neutralizar, essa força política no processo de abertura. Segundo comentários de jornalistas, na época, os generais tinham feito uma espécie de juramento para destruir o Partido, porque eles não engoliam a resistência, sobretudo a do Araguaia. Tanto é verdade que houve censura em todos os níveis à resistência armada do Araguaia e a imprensa não podia noticiar nada. O próprio Exército não reconheceu a luta que ele fazia contra a guerrilha. Portanto, houve uma espécie de censura draconiana sobre esse acontecimento. Prova disso é a mobilização por parte da repressão e do Exército de grandes forças para conter a resistência. Eles foram obrigados a fazer três grandes operações, às quais chamavam de cerco e aniquilamento. Então, as Forças Armadas fizeram um grande investimento para destruir a Guerrilha. Isso, evidentemente, levou os generais a intentarem destruir esse partido, uma vez que o núcleo da direção da Guerrilha era do Partido.

Dirigindo o Partido do Exterior

Em função das mortes dos dirigentes na Lapa, tivemos de mudar de planos, na época, porque estávamos na China e não poderíamos mais voltar ao Brasil, pois havia sido atingida a maior parte do núcleo dirigente do Partido. Não havia nenhuma segurança para a volta. Isso nos levou – tanto Amazonas, quanto Dyneas e eu – a, de forma forçada, ficar exilados (só retornamos com a Anistia, no final de 1979). E então fomos obrigados a, de fora do país, tentar retomar os contatos com os companheiros. De fato nos tornamos um núcleo dirigente. Remontar o núcleo dirigente e começar a conduzir o Partido lá de fora foi nosso desafio. Começamos a fazê-lo entre a Albânia e a França, e o período em que estivemos exilados ficamos na França. O próprio jornal A Classe Operária passou a ser escrito por nós. Foi um trabalho difícil, complicado, penoso, paciente, de recomposição da organização. Até que conseguimos recompor e manter contatos para realizar aquilo que se constituiu no primeiro fórum de reconstrução partidária: a 7ª Conferência, ocorrida no exterior com os dirigentes principais que estavam fora da prisão. Este encontro aconteceu na Albânia, em 1978. Em 1979 veio a anistia, quando finalmente retornamos ao país. A nossa volta, então, dá início ao processo de reconstrução partidária. Essa reestruturação foi necessária porque o partido havia perdido 11 dirigentes do Comitê Central, além de uma série de quadros mortos no Araguaia.

Pomar, Arroyo e Drummond… três gerações de lutadores

Falar de Pomar, Arroyo e Drummond é uma forma de rendermos homenagem aos heróis e mártires desse período. Papel destacado, evidentemente, tiveram vários dirigentes partidários. No caso deles é importante considerarmos que cada um representa uma de três gerações.

Pedro Pomar – na época com 63 anos de idade – é da geração de João Amazonas, que reorganizou o Partido em 1943. Pomar vinha do Pará e desenvolvia atividade intelectual. Também foi um dos reorganizadores do Partido em 1962. Por ser de formação intelectual e um comunista de grande experiência deu grande contribuição à orientação do Partido. Ele dominava várias línguas e traduziu o livro Ascensão e Queda do III Reich, em três volumes, e contribuía com várias traduções de livros importantes. Era um homem de uma longa e destacada militância, dedicada inteiramente ao Partido em aproximadamente 40 anos.

Ângelo Arroyo tem origem operária, de família espanhola que teve papel importante nas lutas operárias de São Paulo no início do século passado. Um operário que se ilustrou no Partido. Ele já é de uma geração posterior à de Amazonas e de Pomar e tinha 48 anos. Arroyo foi formado pelo Partido e passou a escrever com muito talento nesta tarefa.

Por fim, João Baptista Drummond pertence a uma outra geração ainda. Era mais jovem. Ele veio da Ação Popular e integrou o Partido com a junção da AP. Isso ocorre exatamente no início da Guerrilha do Araguaia, por volta de 1972. Era uma pessoa jovem, na época da Chacina estava com 34 anos de idade.

O assassinato desses três companheiros, num mesmo episódio histórico, é emblemático porque é representativo de três gerações de comunistas. Cada um com sua origem, com seu papel, mas todos engajados na causa democrática e revolucionária.

Renato Rabelo é presidente nacional do PCdoB

*Artigo escrito por ocasião dos 30 anos da Chacina da Lapa e publicado em livreto do então Instituto Maurício Grabois (para baixar o livreto, clique aqui)

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