A. Sergio Barroso: Questões da estratégia de desenvolvimento[1]


Os sistemas de financiamento (para o investimento privado/público), e de
inovação são os dois pilares que sustentam a estratégia do desenvolvimento.
Seja no capitalismo ou nas atuais experiências socialistas, não é possível
prosperidade e avanços econômicos-sociais consistentes sem o Estado arbitrar
quem e o que se deve financiar na economia, de modo a fazer crescerem a
renda e o emprego.
O investimento permanece sendo a variável independente da dinâmica
econômica (Marx,1867; Keynes, 1936). [2] O progresso técnico é a chave para
o crescimento e a difusão da produtividade, o que possibilita salários reais mais
elevados. Ao contrário, o atraso e a dependência tecnológica bloqueiam o
desenvolvimento. [3]
A propósito, uma das principais conclusões do insuperável estudo de Alice
Amsden, “A ascensão do resto. Os desafios ao ocidente de economias com
industrialização tardia” (UNESP, 2009) reside na antinomia entre China, Índia,
Coreia do Sul e Taiwan; e Brasil, Argentina, Chile, México e Turquia: os
primeiros decidiram “fazer tecnologia”, os segundos “comprar tecnologia” (p.
484). Isto constatado pela pesquisadora (Harvard), no ano 2000.
Isso (também) explica porque, durante uma década (2003-2013), o crescimento
da Ásia foi o principal responsável pela voraz absorção do ciclo de alta latino-
americana das commodities – em especial pela China. Em antagonismo, a
América Latina e Caribe cresceu -1,1%, em 2019 (CEPAL).
No Brasil, após uma depressão econômica entre 2015 e 2017, o chamado “teto
dos gastos” simplesmente liquidou o investimento público, hoje reduzido a 1%
do PIB. Ao lado disso, a taxa de investimento (máquinas, equipamentos,
inovação e construção civil) caiu de 19,3% (2010) para cerca de15,5% (2019),
a menor em 50 anos!
O governo ultraliberal e entreguista de Jair Bolsonaro tentou até destruir o
sistema nacional de inovação, construído a duras penas nos últimos 70 anos. A
Finep (“Financiadora de Estudos e Projetos”) foi ameaçada de extinção, o que
foi rechaçado pela mobilização da comunidade científica e setores do
parlamento. [4] Igualmente, as universidades públicas passam a ser
perseguidas, tudo em nome duma influência do “marxismo cultural”, um delírio
paranoico do Olavo de Carvalho, um astrólogo apátrida que vive na Virgínia
(EUA); não por coincidência estado que sedia a CIA, organização conhecida
por assassinar opositores do império americano.
Vivemos no Brasil de hoje uma perversa busca da destruição do processo
histórico – tortuoso – de seu desenvolvimento. Mas há saídas, sim.
Imperialismo e desenvolvimento desigual
Não se compreende a evolução do capitalismo sem uma ideia crucial do teórico
russo Vladimir Lênin: seu desenvolvimento desigual – trata-se de uma lei. O

capitalismo não é apenas uma espécie de síntese complexa de um padrão
universal e de uma singular configuração histórica: é determinação do estágio
imperialista – palavra sempre escondida – do regime global do capital.
Exemplo: entre 1870-80, a Alemanha já produzia química fina; a
industrialização ali acelera de 1871 a 1873. No Brasil, a química fina é
produzida somente nos anos 1970, quer dizer cerca de 100 anos depois da
Alemanha! [5]
Acima assinalamos a crucialidade dos sistemas de financiamento e de
inovação – absolutamente indispensáveis nos países de “capitalismo tardio” -,
e da relação produtividade/salários reais. Nos anos 1950, a Coreia do Sul
recebeu apoio dos EUA para implementar uma reforma agrária; e entre 1970-
90 farta tecnologia do seu vizinho rico, o Japão. O Estado pôs-se a construir
“chaebols” (grandes conglomerados industriais); engatou-se então na 3ª
revolução industrial. O processo foi denominado de “desenvolvimento a
convite”. O PIB da Coreia cresceu uma média de 5,4% entre 1980-2000.
Entretanto, o principal fator estratégico – decisão de Estado – para o
desenvolvimento sul-coreano foi a aplicação de 5% do PIB (Produto Interno
Bruto) em P&D (pesquisa e desenvolvimento), na década de 1990. A
educação, orientada à força de trabalho especializada complementou o
avanço. Num país feudal, dividido, nos anos 1950 e destroçado pela guerra,
sua parte sul passou ao mais novo integrante do grupo dos mais
industrializados.
Em “Chutando a escada. A estratégia de desenvolvimento em perspectiva
histórica” (Unesp, 2004), Ha-Joon Chang (Cambridge) prova: o curso capitalista
dos “Países Atualmente Desenvolvidos” (Grã-Bretanha, EUA, Alemanha,
França, Suécia, Bélgica, Holanda, Suíça, Japão, Coreia do Sul e Taiwan)
originou-se, essencialmente, de políticas industrial, comercial e tecnológica
francamente protecionistas, assim como do manejo de políticas econômicas
“fundamente oposto” ao receituário neoliberal (p.106).
Note-se: de 2000 a 2018 a produtividade do trabalho na indústria sul-coreana,
de 4,3% ao ano, ensejou o mesmo nível de incremento dos salários. No Brasil,
a produtividade do trabalho na indústria cresceu 0,7% médios entre 2000 e
2018, (CNI, Confederação Nacional da Indústria, novembro/2019).
Nos últimos 24 anos (FHC a Temer) a taxa média real de crescimento do PIB
foi de 2,3% ao ano (IBGE, março/2019).
O horizonte econômico mundial atual é péssimo. E voltaremos ao fracasso se –
além de tudo – não reabrirmos a chave da infraestrutura e da energia.
NOTAS
[1] Baseado em “Estratégias de desenvolvimento I e II”, “Tribuna Independente”
(AL), 7 e 27/02/2020.
[2] A relação entre acumulação, lucros e determinação dos investimentos
aparece com maior nitidez no Livro 3 de “O capital”. Nele diz Marx:

“E assim o rio de capital continua a crescer(..) ou continua sua
acumulação, não proporcionalmente à taxa de lucro, mas em proporção
ao ímpeto que ele já possui” (Apud Miglioli, J. 2004, p.135).
Interpreta Miglioli:
“É interessante observar que esta explicação – que no texto de Marx
constitui apenas uma afirmação feita de passagem – é, para muitos
economistas modernos, um elemento de grande importância na teoria
dos determinantes do investimento: a acumulação seria um incentivo
para si mesma (isto é, teria um [ímpeto próprio) na medida em que gera
um favorável ‘estado de expectativa’ (para empregar a expressão de
Keynes)”. Ver: “Acumulação de capital e demanda efetiva”, Hucitec,
2004, 2ª edição, ibidem.
[3] Marx, novamente – e inacreditável!
“Subjugação das forças da natureza, maquinaria, aplicação da
química à indústria e à lavora, navegação a vapor, caminhos de
ferro, telégrafos elétricos, arroteamento de continentes inteiros,
navegabilidade dos rios, populações inteiras feitas saltar do chão
– que século anterior teve ao menos um pressentimento de que
estas forças de produção estavam adormecidas no seio do
trabalhos social?” (“Manifesto do Partido Comunista”, K. Marx e F.
Engels, Edições Avante!, 1997 [1848], 2ª edição, p. 41).

[4] Ver o relato detalhado, bem como uma balanço da situação do sistema de
inovação no Brasil recente, no artigo de Luis Fernandes. Aqui:
https://vermelho.org.br/2020/01/12/sistema-de-ciencia-e-tecnologia-esta-sendo-
desmontado/
[5] O mesmo Lênin, em sua obra imorredoura “O imperialismo, fase superior do
capitalismo” (1916) afirma, entre outras, sobre o estágio do desenvolvimento
capityaliista da Alemanha:
“Segundo Liefmann, em 1897 havia cerca de 40 cartéis internacionais
com a participação da Alemanha. Em 1910 aproximavam-se já de uma
centena”. Em: “V. I. Lenine – Obras Escolhidas, v. 1. Edições Avante,
1881, p.631.

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