Perpétua Almeida: Democracia ultrajada


O ataque sórdido de Jair Bolsonaro à honra da jornalista Patrícia Campos Mello revela o real alvo do presidente da República. A meta bolsonarista é implodir as bases da democracia brasileira.
Bolsonaro pensa que o Estado Democrático de direito é muito chato. Afinal, existe liberdade, o que permite a todos criticarem, fiscalizarem e cobrarem o fim dos desmandos do governo.

O uso de insinuações sexuais para destruir reputações é uma forma de minar os atores que tentam impedir o avanço do autoritarismo. O objetivo é também confundir a opinião pública e tirar do foco assuntos indigestos, como a ligação da família bolsonarista com milícias. Assim, o governo não precisa dar respostas urgentes a problemas, como a falta de crescimento da economia que, segundo dados do Comitê de Datação de Ciclos Econômicos (Codace), enfrenta a mais lenta recuperação da história do Brasil e o desemprego que se alastra (12,8 milhões de pessoas em 2019). Conforme a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a taxa de desemprego no Brasil deverá se manter em patamares elevados nos próximos anos.

Patrícia não foi caluniada e difamada apenas por ser mulher. A repórter investigativa da Folha de S. Paulo, uma das profissionais mais premiadas do país, foi atacada principalmente por ter revelado ao Brasil que existe uma fábrica de fake news, comandada pelo presidente. Em 2018, ela denunciou o uso por parte da campanha bolsonarista de nomes e CPFs de forma fraudulenta para habilitar celulares e enviar ilegalmente mensagens em massa pelas redes sociais.

Nem mesmo integrantes do primeiro escalão são poupados. O então ministro da Secretaria de Governo, Carlos Alberto Santos Cruz, foi demitido após vazarem conversas de whatsapp em que o general da reserva suspostamente chamava Bolsonaro de “imbecil” e um filho dele de “desequilibrado”. Recentemente, a Polícia Federal comprovou que os diálogos eram falsos. As fake news do “fogo amigo” derrubaram o ministro, um dos generais mais respeitados dentro das Forças Armadas. Atualmente, há uma CPMI no Congresso, investigando essa grave realidade, obrigando os envolvidos a darem explicações públicas sobre o esquema.

Além da imprensa livre, outros pilares democráticos também estão na mira desse governo nefasto. A estratégia recorrente é usar as redes sociais para achincalhar e desmoralizar o Congresso Nacional, o Supremo Tribunal Federal (STF) e agora também os governadores do Brasil. A ideia é fragilizar a estrutura para dessa forma conseguir mais facilmente rasgar a Constituição Cidadã de 1988.

É inaceitável que as recorrentes quebras de decoro pautem a política. Nós da Bancada Feminina subimos à tribuna da Câmara em protesto e repudiamos essas atitudes. É hora da institucionalidade punir autoridades que se desviam da lei. Entidades, como a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), acionaram a Comissão de Ética da Presidência da República e a Procuradoria Geral da República (PGR) para dar um basta ao comportamento do presidente que envergonha o Brasil. A democracia não pode mais ser violentada e ultrajada.

Artigo publica do originalmente na Folha de São Paulo

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