A. Sérgio Barroso: Questões da estratégia de desenvolvimento (II)


Grande pensador da dinâmica econômica Joseph Alois Schumpeter [2] teorizou o desenvolvimento como um processo social. [3] Schumpeter convergiu à ideia de que o desenvolvimento econômico se dá pelo impulso rupturista da inovação tecnológica, uma “função característica do empresário”; a “destruição criativa”. Mas, esse brilhante economista austríaco “não” considerava “desenvolvimento o mero crescimento da economia” (“Teoria do desenvolvimento econômico”, 1982 [1934]). [4]

Recentemente, Joseph Stiglitiz, Amarthia Sen e J-Paul Fitoussi compuseram uma comissão (2009), [5] a partir de reexames críticos da mensuração do PIB (Produto interno Bruto), dado a sua completa desfiguração na ascensão neoliberal. Ao invés de seu “crescimento” avaliar renda líquida e familiar; o consumo no lugar da produção; renda e consumo considerados no conjunto da riqueza produzida; dados sobre evolução da renda e riqueza e suas distribuições foram as principais conclusões para uma nova metodologia.

Dez anos após, Stiglitiz, Nobel norte-americano de economia disparou: “PIB é ilusão perversa” (09/2019). Responsabilizando a grande crise iniciado em 2007-8, ainda assim indagava: “De que vale o PIB estar crescendo, se a maior parte dos cidadãos está pior?” [6] Ora, “crescendo” mesmo na China e na Índia! [7]

No artigo anterior traçamos um breve panorama do desenvolvimento econômico (e crescimento) na Coreia do Sul [8] e no Brasil. Resumindo bem: o salário real médio do trabalhador sul-coreano aumentou 4,3% entre 2000 e 2018; no Brasil, essa média foi de 0,3% no mesmo período, afirma a CNI (Confederação Nacional da Indústria, 11/2019). E, a propósito, os últimos dados sobre o PIB no Brasil foram assim apresentados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística; 03/03/2020):

Considerações finais

Perquirindo-se hoje – lições e – caminhos para retomada do crescimento-desenvolvimento, políticas à expansão, à diversificação e à inovação por meio das três frentes de expansão da economia: “investimentos em consumo de massa, em recursos naturais e em infraestrutura” seriam incontornáveis (R. Bielchovsky, 2014). [8]

  1. Coutinho (2016) [10] enfatiza “as infraestruturas e as energias” combinadas com uma política cambial competitiva que bloqueie o “esvaziamento das cadeias industriais”, ao lado do crédito de médio e longo prazo à exportação.

A nova transição energética para auxiliar a reindustrialização do país (tecnologia para turbinas eólicas, placas fotovoltaicas), a monetização as reservas (petróleo e gás, além do carvão) visando novas áreas de dinamismo econômico, devem somar-se a uma geoeconomia do “avanço das atividades exploratórias [cobalto, níquel, manganês, fosfato, platina] para além das 200 milhas náuticas” – “Marcha à leste” (R. Carmona, 8-10/2019). [11]

Em meio ao governo teratológico e entreguista de Bolsonaro, bem como imerso nas transformações da 4ª revolução industrial, o Brasil ameaça seu futuro.

NOTAS

[1] Elaborada a partir de “Estratégias de desenvolvimento (III), “Tribuna Independente” (AL), a sair.

[2] J. A. Shumpeter (1883-1950), teve seu estudo monumental da história do pensamento e da teoria da economia “Análise da história econômica”, publicado postumamente, em 1954 (Oxford University Press). Com 1371 páginas (España y América, Ediciones Ariel, 1971), nele discorre, no longo Capítulo 8 “Moeda, crédito e ciclos”, tanto sobre “Teoria estatal do dinheiro” – ressuscitada pela “Teoria Monetária da Moeda” -, de G.F. Knapp, quanto acerca da existência de uma teoria dos ciclos em Marx. Diz Schumpeter, sobre os grandes estudiosos dos ciclos econômicos do capitalismo:

“Em justiça haveria de pô-lo [Marx] em primeiro lugar, porque ele mais do que nenhum outro economista identificou os ciclos com o processo da produção e operação de más instalações e equipamentos” (“Historia del analisys económica”, Ariel, 1971, p. 1226),

[3] No seu mais famoso “Capitalismo, socialismo e democracia” (1942), onde analisa longa e criticamente as diversas incidências da teoria de Karl Marx, Schumpeter encerra o Capítulo 1, “Marx, o profeta”, com essas belas palavras:

“Para Marx, o socialismo não era uma obsessão que obliterava todas as demais facetas da vida criativa e criava um ódio e um desprezo doentios e tolos pelas outras civilizações. E, em mais de um sentido, há justificação para o título reivindicado para o seu tipo de pensamento e volição socialistas, unidos graças à sua posição fundamental: socialismo científico” (Ver: op. cit., Unesp, 2017, p. 23).

[4] Segundo Schumpeter, são cinco os elementos centrais que sustentam “O fenômeno fundamental do desenvolvimento econômico” (Cap. 2), “O desenvolvimento…pela realização de combinações”: 1) introdução de um novo bem (produto da inovação); 2) introdução de um novo método; 3) abertura de um novo mercado; 4) conquista de uma nova fonte de matéria-prima ou de bens semimanufaturados; 5) organização e uma nova indústria (um truste; um monopólio). Ver: op. cit., Abril Cultural, 1982, pp. 48-9.

[5] Ver aqui esta esclarecedora nota, da (então) analista do Banco central do Brasil Glena Braga: file:///C:/Users/Sérgio/Documents/Alem%20do%20PIB_S-S-Fitoussi.pdf

[6] Aqui: https://outraspalavras.net/mercadovsdemocracia/pib-e-ilusao-perversa-diz-nobel-de-economia/  Stiglitiz vem escrevendo sistematicamente sobre a explosão de desigualdades advinda como neoliberalismo.

[7] Tendo os dois países crescido em torno de 6,4% em 2019, são enormes no entretanto as distâncias entre o PIB per capita chinês e o da Índia, o que atesta, por este ângulo, a superioridade do desenvolvimento chinês: US$10,26­3.741 e US$ 2,044.586, respectivamente, em 2019. Em: CEICdata.com

[8] A celeuma causada pelo filme “Parasita”, do cineasta sul-coreano Bing Joon-ho – 4 estatuetas do “Oscar” – desenha o quadro cruel das desigualdades persistentes, mesmo nos casos dos países mais industrializados do capitalismo tardio. Este trecho conclusivo do bom artigo do professor Fábio Palácio (UFMA) captura o aspecto central das razões da badalação em torno do reality show hollywoodiano – cuja “academia” segue, não à toa, as pegadas das perorações do citado economista Stiglitz:

“Como sugere a narrativa, numa sociedade dilacerada pelas desigualdades, o infortúnio não afeta apenas os desvalidos. Também os opulentos são vítimas da deterioração do tecido social, por mais que se escondam atrás de muros, grades ou mundos de faz-de-conta. Em uma sociedade parasitária, ninguém está a salvo do parasitismo”.

(Aqui: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2020/02/parasita-espelha-tensoes-do-capitalismo-tardio-da-coreia-do-sul.shtml)

[9] Ver: “Estratégia de desenvolvimento no Brasil e as três fontes de expansão no Brasil na década de 200”, R. Bielchovsky et alii. Em: “Presente e futuro do desenvolvimento brasileiro”, A. Calixtre, A. Bancarelli, M. Cintra (orgs.), IPEA, 2014.

[10] L. Coutinho acrescenta, entre outras questões candentes:

“Devo lembrar que [numa economia como a brasileira] todos esses processos não se reproduzirão repetindo o passado. Estamos diante de transformações tecnológicas muito relevantes que tenderão a acelerar certos processos e a modificar as bases da eficiência e da competividade”.(…) processos muito abrangentes de automação – incluindo a manufatura de 4ª geração -, que irá, com velocidade, mudar e transformar as bases de divisão do trabalho (na indústria e nos serviços)” ( “O futuro do desenvolvimento brasileiro”, em: “O futuro do desenvolvimento. Ensaios de homenagem a Luciano Coutinho”, H. Lastres, J Cassiolato, G. Laplane. F. Sarti (orgs.), Unicamp/IE, 2016, pp. 331-335.

[11] Importante, o artigo “Brasil, potência energética – notas sobre geopolítica energia”, do professor Ronaldo Carmona (ESG – Escola Superior de Guerra) adentra em questões geopolíticas e geoeconômicas estratégicas, e esclarece, ademais sobre a natureza da referida “transição”:

“Sim, há uma transição energética em curso, derivada, em primeiro lugar, da própria evolução de tecnologias que permitem o aproveitamento mais intenso das novas fontes renováveis. Nos últimos anos observou-se uma queda bastante impressionante nos custos e na eficiência de turbinas eólicas e placas fotovoltaicas, ao lado de uma corrida tecnológica pela intensificação da capacidade de armazenagem de energia derivada do sol e do vento, por definição, intermitentes” (idem p. 3, no prelo).

 

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