Jorge Gregory: Coronavírus coloca Bolsonaro na UTI


Analistas, protagonistas políticos e cientistas sociais fazem as mais diversas análises do catastrófico pronunciamento de Bolsonaro na noite de 24 de março. A maioria procura desvendar qual o cálculo político estabelecido para tomar tal atitude. De uma forma geral, a tese mais admitida é de que, prevendo uma derrocada econômica, tinha por objetivo jogar no colo dos governadores o resultado do desastre econômico, pós–pandemia. Caso o pronunciamento fosse um fato isolado, tal tese seria admissível. Mas não é.

A evolução dos processos políticos e sociais, que muitas vezes têm a interferência de elementos externos e imprevisíveis como no momento atual o Covid-19, é determinada pela intervenção das vontades individuais e objetivos de seus atores. Como a resultante é uma soma de vontades e objetivos de diversos atores, via de regra se pode afirmar que nunca corresponderá a uma destas vontades. Assim, é fundamental conhecermos as vontades individuais para podermos entender o curso dos processos e visualizar os possíveis cenários futuros e, desta forma, estabelecermos as ações que melhor nos aproximam de nossos objetivos. Esta capacidade de análise o Capitão e o núcleo ideológico olavista que o cerca, em especial seus filhos, decididamente não possuem. Portanto, embora exista motivação, não há cálculo político no ato do pronunciamento.

Para entendermos tal motivação, temos que retroceder a um fato anterior, a manifestação do general Heleno no dia 18 de fevereiro, de que o governo se encontrava refém das chantagens do parlamento. O vazamento de tal manifestação serviu de deixa para os bolsonaristas fanatizados convocarem manifestações contra o Congresso e o STF e em apoio a Bolsonaro, o que inflou o ego do próprio, que passou a ser atuante mobilizador nas redes sociais.

Diante da péssima repercussão do fato de estar fazendo chamamentos e da reação dos presidentes do Congresso e do STF – provavelmente aconselhado por segmentos mais sensatos do governo –, resolveu recuar e usar a iminente aceleração da contaminação do Corona vírus no Brasil como justificativa para fazer pronunciamento em cadeia nacional desaconselhando a realização das manifestações.

Como a vaidade sempre fala mais alto no caso de Bolsonaro, em escala em Boa Vista no curso de sua viagem aos Estados Unidos, tendo uma plateia à sua frente e cercado pelo núcleo ideológico, esqueceu os aconselhamentos anteriores e voltou a fazer convocação para as manifestações. Retornou ao Brasil com novo desgaste e ora tentou negar que tivesse convocado, ora afirmou que manifestações são democráticas.

No dia 15 de março, diante da manifestação esvaziada, não resistiu e foi ao seu encontro, misturando-se a seus apoiadores com apertos de mão e abraços para selfies. O desgaste então não era só por participar de manifestação de afronta ao Congresso e STF, mas também pelo fato de a epidemia estar em plena ascensão e ele próprio poderia estar contaminado e contaminando os manifestantes, visto que membros de sua comitiva de viagem já haviam obtido resultado positivo para o Covid-19.

Os sucessivos erros levaram a sucessivos e cumulativos desgastes e ao início de um processo de crescente isolamento. Recuar e mudar de rumo são conceitos que, no entanto, não fazem parte do dicionário de Bolsonaro. Para ele e seus fanáticos seguidores olavistas só existe uma estratégia, a de que a melhor defesa é o ataque. Agem como aquele moleque franzino que se mete em briga com alguém bem mais encorpado, sabe da desvantagem, mas baixa a cabeça e parte para o ataque com mordidas, chutes e socos desorientados. E quanto mais apanha, mais se enfeza e mais baixa a cabeça e mais tenta agredir de forma desorientada.

Diante de tantos erros e da incapacidade de conduzir a reação à crise epidêmica, ainda que tenha, em alguns lampejos de sanidade, tentado assumir esta condução, a sua concepção kamikaze do menino franzino só o faz enxergar como estratégia desacreditar a epidemia para sustentar os seus atos insanos anteriores. Entre uma tentativa aqui de assumir o controle da condução das ações e um ataque ali, culminou no ridículo pronunciamento.

O desastre, desta vez, foi tão grande que abalou o pouco que lhe restava de base institucional, sendo que a resposta mais contundente e simbólica veio do seu até então fiel aliado, o governador Ronaldo Caiado. No próprio governo, os sinais são de que o racha é profundo, só lhe restando o círculo ideológico olavista. No campo popular, em especial na classe média, os panelaços se seguiram por cinco dias consecutivos. Aqui também, resta-lhe o apoio dos fanáticos olavistas, acrescido dos milicianos, baixo clero empresarial e evangélicos neo-pentecostais. Com relação a estes últimos, é conhecido o fisiologismo e oportunismo de seus pastores, que não costumam permanecer em canoa furada, e não será surpresa se a debandada não demorar.

Bolsonaro se meteu e afunda cada vez mais num beco sem saída e já não governa. Perdeu totalmente o controle da situação e a única possibilidade de que retome a autoridade perdida é a estagnação e o arrefecimento da crise epidêmica. A realidade, no entanto, caminha no sentido contrário de forma acelerada, mas Bolsonaro continua insistindo na sua tese de que é uma mera “gripezinha”. A crise política está instalada, agravada pelo aprofundamento da crise epidêmica e a decorrente crise econômica.

O país está a um passo da maior tragédia de sua história e o prolongamento da crise política instalada por Bolsonaro só a fará tornar-se ainda maior. O Covid-19 colocou o Capitão na UTI política e a exigência de que renuncie imediatamente ganha força em importantes setores da sociedade e, ao que parece, até mesmo em parcela de seu governo. Bolsonaro se auto converteu no principal obstáculo para que o país atravesse esta tempestade.

*Jorge Gregory é jornalista e professor, trabalhou no Ministério da Educação (MEC).

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