Especial: A Batalha da China contra o coronavírus


Acaba de sair, inicialmente em versão PDF, o livro “A Batalha da China contra o coronavírus – um relatório de atividades diárias de 23 de janeiro a 23 de fevereiro”, pela editora Contraponto, com tradução de Gaio Doria. O livro traz um precioso registro de como a China lidou e lida com a pandemia que assola (e muda) o mundo em que vivemos. Publicaremos a íntegra do texto em 10 partes a partir desta quarta-feira (1°), mas já disponibilizamos o PDF do livro neste link. Boa leitura.

Nota do Editor chinês do livro A Batalha da China contra o coronavírus
“O que uma nação perde em um desastre certamente será recuperado no progresso que obtém. Continue lutando, Wuhan! Continue lutando, China! Continue lutando, humanidade!”

Há dezessete anos, quando a SARS eclodiu em Pequim, eu era um estudante universitário lá. Mas deixei o epicentro da epidemia e voltei para casa pouco antes do isolamento. Lembro-me que a tarefa do meu professor de estudos de comunicação de mídia no final daquele semestre era um relatório especial sobre a SARS.

Dezessete anos depois, um surto de COVID-19 atingiu Wuhan e eu ainda estou em Pequim. Desta vez, a tarefa que recebi foi registrar as histórias da batalha contra o coronavírus na China e publicá-las.

Eu estava ausente do epicentro dos dois surtos e não experimentei o isolamento.

Não estou em posição de dizer que posso simpatizar com aqueles que perderam seus entes queridos, pois não sofri essas separações e mortes.

Não sou um médico capaz de curar pacientes na linha de frente e nem um pesquisador capaz de desenvolver medicamentos para impedir o vírus. Eu nem sou um jornalista designado para reportar as notícias no local…

Então, que posso fazer? E o que nossa mídia pode fazer?

Como editor, posso coletar, agrupar e gravar as histórias de pessoas comuns no mês passado. Essas histórias simples da vida cotidiana não devem ser esquecidas. Devem servir para nos ajudar nos próximos anos a reviver nossas memórias de 2020, registrando como Wuhan e o resto da China combateram a epidemia.

Como tradutor, posso traduzir as histórias para o inglês e permitir que os leitores estrangeiros entendam a história de como a China lidou com o surto do vírus, e vejam uma China indomável e responsável que certamente vencerá essa batalha.

Como companheiro, espero que nosso livro acompanhe nossos leitores nesse momento sombrio até a primavera chegar.

No livro A peste, de Albert Camus, o principal protagonista, o doutor Rieux, fala com seu amigo Rambert:

“Não se trata de heroísmo. Trata-se de honestidade. É uma ideia que talvez faça rir, mas a única maneira de lutar contra a peste é a honestidade.”

“O que é honestidade?”, Rambert pergunta.

“Não sei o que ela é em geral. No meu caso, sei que consiste em fazer o meu trabalho.”

Muitas das histórias deste livro são de pessoas comuns que lutaram contra a ameaça do coronavírus “fazendo o seu trabalho”. Para nós, trabalho (e dever) é registrar a história que nos ajudará a nos preparar para um futuro melhor.

Com a batalha contra o COVID-19, acredito que todos ganharemos uma consciência maior e mais profunda da necessidade de proteger o meio ambiente, respeitar a natureza, prestar mais atenção à higiene e saúde, e construir uma comunidade global de futuro compartilhado.

O que uma nação perde em um desastre certamente será recuperado no progresso que obtém. Continue lutando, Wuhan! Continue lutando, China! Continue lutando, humanidade!

Conselho Editorial da Editora em Línguas Estrangeiras 23 de fevereiro de 2020

“Em menos de um mês, a cidade de Wuhan, um centro regional, havia se tornado o epicentro de uma epidemia”

Vamos examinar de perto: o coronavírus está devastando Wuhan, outras partes de Hubei e o resto da China. Os coronavírus têm vírions esféricos e envelopados. Dos espigões em forma de coroa em sua superfície, eles recebem o nome “corona”, que significa “coroa” em latim. A nova doença de coronavírus que causa a epidemia atual foi nomeada COVID-19 pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Um dia, em dezembro de 2019, o coronavírus encontrou seu caminho através das vias respiratórias de alguns residentes de Wuhan por meio de um trajeto desconhecido e começou a se propagar rapidamente. Em menos de um mês, a cidade de Wuhan, um centro regional, havia se tornado o epicentro de uma epidemia. O vírus se espalhou rapidamente para Pequim, Shanghi, Zhejiang, Guangdong e outros lugares, pois muitos viajaram para casa durante o Ano-Novo Chinês.

Wuhan foi colocada em isolamento no dia 23 de janeiro de 2020. Assim começou a batalha contra o coronavírus em Wuhan, Hubei e em toda a China. Um mês depois, em 23 de fevereiro, o Presidente Xi Jinping falou em uma reunião sobre controle de epidemias e desenvolvimento econômico: “O surto de coronavírus é uma grande emergência de saúde pública. O vírus de rápida disseminação atingiu a maior parte do nosso país e provou ser o mais difícil de conter. Nós nunca tínhamos visto nada parecido desde a fundação da República Popular. Esta é uma crise, e também um teste. Vimos sinais positivos graças ao trabalho duro que temos feito. É claro que a liderança central fez julgamentos sólidos no combate à epidemia e tomou medidas oportunas e eficazes. Nosso sucesso até hoje demonstrou mais uma vez os pontos fortes da liderança do Partido Comunista da China e do socialismo chinês.”

Em face da batalha, as autoridades centrais, lideradas pelo Presidente Xi, têm sido proativas e firmes nas tomadas de decisão e coordenação. O povo chinês se uniu e se ajudou nestes tempos difíceis, um exemplo perfeito do nosso espírito nacional inflexível. Como disse o presidente Xi, a nação chinesa nunca foi esmagada por nenhuma das provações pelas quais passou e ficou mais forte e melhor, sempre superando os testes e dificuldades. Com o esforço conjunto de 1,4 de bilhão de pessoas, a China está lutando uma batalha obstinada contra o coronavírus. A vitória final nos pertence.

2020, um ano que entrará para a história
Wuhan, 23 de janeiro de 2020
– Às 2:00h da manhã, o Comando de Wuhan de Prevenção e Controle do COVID-19 emitiu seu primeiro aviso: “Transporte público, incluindo ônibus, metrô, balsa e serviços de passageiros de longa distância, serão suspensos às 10:00h da manhã, 23 de janeiro de 2020. Os residentes não devem deixar Wuhan por razões não essenciais. A saída de aviões e trens será suspensa. Esses serviços permanecerão fechados até novo aviso.”

– A Comissão Nacional de Saúde emitiu o comunicado “Sobre o fortalecimento do tratamento médico de casos graves de COVID-19”, exigindo medidas estritas para colocar pacientes em quarentena, reunir médicos especialistas, angariar recursos e realizar tratamento intensivo nos locais designados.

– O governo central alocou RMB 1 bilhão para a província de Hube, tendo em vista subsidiar seus esforços para conter a epidemia.

Wuhan em isolamento

Torre do Grou Amarelo e a Ponte do Rio Yangzi, Wuhan / Foto de Xiong Qi – Agência de Notícias Xinhua

Esta cidade de 849.400 hectares é um centro de transporte que conecta muitas províncias por rodovia, ferrovia, ar e balsa.

Ocupa o coração da rede ferroviária da China. A partir daqui, leva-se em média cinco horas de trem de alta velocidade para muitas das principais cidades da China, como Pequim, Shanghai, Chongqing, Shenzhen e Hong Kong.

É um hub de aviação regional no centro da China, com quarenta voos diretos de passageiros para o exterior. É a única cidade da região que tem voos sem escalas para quatro continentes do mundo.

Esta é Wuhan, uma cidade que está sempre movimentada e pulsando com vida.

Hoje, no entanto, tudo parou por causa do coronavírus.

Depois que a epidemia eclodiu, o presidente Xi exigiu que os comitês do Partido e os governos de todos os níveis colocassem a vida e a saúde das pessoas em primeiro lugar, e tomassem medidas eficazes para conter a propagação do vírus.

Hoje, um motorista de táxi de Wuhan conta a história de uma passageira. Ele soluça.

Pegou uma enfermeira indo para o Hospital Jinyintan, na linha de frente da batalha da cidade contra o coronavírus. Era uma voluntária. O telefone dela não parava de tocar, pois sua família implorava para que não fosse. Mas ela estava determinada, repetindo que tudo ficaria bem e que partir era seu dever.

Ele não sabe o nome dela. Só lembra que usava óculos. “Espero que ela, como todos os médicos e enfermeiras, mantenha Wuhan em segurança”, diz. “Espero que se cuide e fique segura também.”

“Nunca senti tamanha emoção”, continua. “Este é um momento crítico para Wuhan. Precisamos desse tipo de energia positiva para inspirar nosso público.”

Wuhan, seja forte.

Traduzido de reportagens da CCTV News

Wuhan, 24 de janeiro de 2020
Em resposta à emergência de saúde pública, e para executar as instruções do presidente Xi Jinping e os planos da Comissão Militar Central, o departamento de logística e apoio da Comissão Militar implementou medidas conjuntas de prevenção e controle, organizando médicos das forças armadas para se juntar aos esforços.

– Aprovado pela Comissão Militar Central, o Exército de Libertação Popular organizou três equipes das universidades médicas do Exército, Marinha e Força Aérea. Todas chegaram em Wuhan às 23:44h de 24 de janeiro.

– De acordo com um oficial do Comando de Wuhan de Prevenção e Controle do COVID-19, para tratar da escassez de suprimentos médicos e ajudar mais pacientes, Wuhan construirá um hospital dedicado ao tratamento de pacientes com COVID-19 em Caidian, um distrito suburbano. O hospital será baseado no modelo do Hospital Xiaotangshan, em Pequim, construído durante a epidemia de SARS. A previsão é de que o Hospital Huoshenshan seja inaugurado em 3 de fevereiro.

Um jantar especial de véspera de Ano-Novo

O jantar da véspera de Ano-Novo é o encontro mais importante das famílias chinesas. O fascínio por esse jantar não vem da comida. Reflete uma necessidade emocional. O documentário popular sobre a cultura alimentar chinesa, A Bite of China, explica bem: “O tempo combinou esses sabores com as memórias do solo da terra natal, dos companheiros aldeões, dos tempos passados, dos mercados populares. Resiliência, emoções e crenças. Eles permanecem nas pontas de nossas línguas e habitam em nosso coração. Mal podemos diferenciá-los.”

Hoje, um vídeo de trabalhadores médicos do Hospital Tongji, durante o jantar de Ano-Novo, tocou muitos. No vídeo, dez médicos e enfermeiros com máscaras e óculos cantam: “Lute, Wuhan!” Na mesa ao lado estão alguns petiscos e uma garrafa meio vazia de refrigerante. É o jantar deles de véspera de Ano-Novo. “Não sou uma heroína, mas não vou fugir”, escreveu Wang Yuan, médica do Hospital Wuhan Número 5, na véspera de Ano-Novo. Ela está no turno da noite, atendendo pacientes com febre. Ela é apenas um dos milhares de médicos que trabalham na linha de frente contra a epidemia neste dia especial. Muitos, como Wang, passarão a noite longe de suas famílias.

Ao mesmo tempo, 135, 150 e 143 profissionais das universidades médicas do Exército, da Marinha e da Força Aérea estão decolando de Chongqing, Shanghai e Xian. Eles se despediram de suas famílias no jantar de véspera de Ano-Novo para participar da luta em Wuhan.

(traduzido de reportagens do China Business Journal)

Wuhan, 25 de janeiro de 2020

– Em uma reunião do Comitê Permanente do Bureau Político do Comitê Central do Partido Comunista da China, as autoridades centrais decidiram formar o Grupo Líder do Comitê Central do Partido Comunista da China para Prevenção e Controle do COVID-19. A liderança central enviou um grupo diretor a Hubei e outras áreas severamente afetadas, para orientar as autoridades locais a conter a epidemia. Na reunião, o presidente Xi Jinping exigiu que todos os funcionários reforçassem a confiança e a solidariedade, e adotassem medidas sólidas e direcionadas para um controle efetivo da epidemia.

– O Comando de Wuhan de Prevenção e Controle do COVID-19 emitiu seu Aviso Número 9: “Para evitar o risco de infecção causada pela movimentação de pessoas, todos os veículos a motor, exceto os veículos autorizados para negócios oficiais, para a entrega de suprimentos e para o transporte gratuito de passageiros, estarão proibidos no centro da cidade a partir de meia-noite, 26 de janeiro de 2020.”

(continua)

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