Dilermando Toni: Uma Frente de Salvação Nacional, por que não?


Têm aparecido nestes últimos dias vários comentários pejorativos em relação à proposta de uma frente ampla pela democracia ou de uma frente de salvação nacional. Elas aparecem no contexto do ápice da crise gerada com a demissão do ministro Moro, com o intuito de dizer que Bolsonaro está quase que imune aos seus estragos.


Um amigo meu, graduado acadêmico, por exemplo, chegou a dizer: “Iludida, aturdida e na defensiva, a oposição fala em governo de ‘salvação nacional’, em ‘frente ampla’…” e a perguntar maliciosamente como seria possível isto “se não consegue entender minimamente, como a oposição lograria arrebatar o sentimento dos brasileiros?” Mal disfarçada, a crítica se dirige diretamente ao PCdoB, pai e mãe dessas propostas. Visto a carapuça e teço, em caráter pessoal, alguns comentários a respeito.
Para mim as conclusões a que chegam carecem de fundamento, têm horizontes curtos. Estão presas e quase que exclusivamente baseadas no que se tornaram experts estes respeitáveis acadêmicos, ou seja, na análise das Forças Armadas brasileiras, na supervalorização do papel que cumprem na vida nacional, na superficialidade do que pensa/falou general A ou general B, ou, mais profundamente, em uma análise unilateral – que não se confunde com uma visão acrítica de ex-membros da direção do partido – do papel das Forças Armadas Brasileiras ao longo de nossa história.


A salvação nacional ou a reconstrução nacional é, antes de um desejo, uma necessidade diante da verdadeira razia promovida pelo Mensageiro da Morte. Não ocupo espaço aqui para descrever o nível da destruição, mas só para dizer que ela chegou a um nível insuportável para o povo brasileiro. E não me prendo a pesquisas de XP ou de quem quer que seja para afirmar isto. Se a maioria vê assim ou nisso acredita no dia de hoje é outro problema.


Será aturdimento ou ilusão dizer que Bolsonaro se isola da sociedade. Em que posição está os grandes veículos da mídia, os presidentes da Câmara e do Senado, a grande maioria dos governadores com destaque para os do NE, membros do STF, entidades como a OAB, a ABI, a UNE e a UBES, setores da Igreja Católica, as Centrais Sindicais, cientistas destacados etc? É fantasia dizer que existem milhões de arrependidos? Ou seria sonho pensar que as gravíssimas contradições no campo adversário, agravadas com a saída atritada de Moro, nos são extremamente benéficas? Devemos desprezar os milhões que protestam nos “panelaços”? Isto é o que interessa, pois indica a tendência real.


A amplitude, caros, é determinada pelo próprio Bolsonaro. Não teria sido melhor antes de fazer uma crítica tão ácida que se tivesse examinado o programa mínimo proposto para a tal frente? Lá está a defesa da vida, da democracia, do emprego, dos interesses do Brasil. Postular isto é sinal de defensiva?


Três reflexões


A primeira, nenhuma análise do que se desdobrará a situação política, dos destinos do governo Bolsonaro, pode deixar de levar em conta os interesses dominantes do mundo das finanças, do chamado mercado. Para os planos dessa gente é fundamental a estabilidade política, um ambiente relativamente tranquilo no qual possam continuar a executar reformas que lhes permitam extrair o máximo possível de renda do Estado e do povo em geral. São nesse plano que se unificam os interesses da oligarquia financeira dos EUA com a brasileira. Bolsonaro como uma fonte permanente de instabilidade deixa de ser benéfico a eles e impõe a busca de uma alternativa urgentemente. A saída de Moro e a linha editorial da Globo talvez encontrem explicação por aí. Assim, me parece equivocado olhar o governo como um bloco único de interesses comuns e imutáveis.


A segunda, é que o mundo mudou. A China socialista sai ainda mais forte do pós-coronavírus. É o principal parceiro comercial do Brasil e nada indica que deixará de ser. Então o “medo da China” tão ao gosto dos EUA se choca com os interesses dos grandes exportadores agricultores e pecuaristas brasileiros que, se foram fundamentais para a vitória de Bolsonaro, hoje se encontram constrangidos pelas atitudes do núcleo central do governo de se atritar com a China. Chocam-se igualmente com os interesses dos setores importadores e dos que se beneficiam dos vultosos investimentos chineses em curso no Brasil. E, me arriscando, acredito que a inteligência das FFAA considera que China e Rússia, que hoje atual em estreita aliança estratégica, têm força muito superior aos EUA e que, portanto é arriscado se colocar automaticamente ao lado decadente dos EUA. Sopram e fazem efeitos cada vez mais fortes os ventos do Leste.


Por fim, quero crer que se deve enxergar o Brasil como o desenrolar permanente da contradição entre interesses nacionais, democráticos, de desenvolvimento de um lado, e seu oposto conservador, de que sejamos sempre um país atrasado, dependente e colonizado, pouco expressivo na cena internacional, agrário, desigual e subdesenvolvido.


Para não ir muito longe, em 30 com Getúlio venceu a perspectiva progressista, derrotando as oligarquias regionais. Mais à frente Getúlio foi derrotado para voltar alguns anos depois e nos legou uma obra de grandes avanços na industrialização e na construção de um Estado capitalista moderno. Obrigado ao suicídio, as forças reacionárias que pareciam vitoriosas foram derrotadas por JK que nos legou a integração do território brasileiro. A derrota veio com Jânio Quadros e após o interregno democrático de Jango tivemos por um golpe de Estado a ditadura militar que nos legou um país endividado, desigual e antidemocrático, fatores que toldaram por assim dizer o esforço de desenvolvimento no final do período. Cresceu a luta popular pelo fim da ditadura e novamente o povo se fez presente, pôs fim ao regime militar e construiu uma ordem democrática na Constituição de 88, respaldada num amplo movimento popular pelas Diretas-Já.


Mas veio a revanche com Collor de Melo e FHC, estes já com a perspectiva neoliberal do capitalismo financeirizado. Foram cerca de 10 anos sucedidos pelos 13 anos de governos democráticos e progressistas do PT, coadjuvado pelo PCdoB e outras forças políticas que produziram avanços consideráveis para a sociedade brasileira e para a soberania do país. A partir de 2013 adveio uma grande onda de direita, refletindo o que se passava no mundo e o governo foi derrotado em 2016, o que se consolidou com a vitória arranjada de Bolsonaro em 2018. Constituiu-se um governo de ultradireita, subordinado totalmente aos interesses do imperialismo dos EUA.


Acredito que devamos analisar a situação presente como um momento dessa luta constante para não perder a perspectiva histórica, vendo a contradição sempre em movimento. O governo Bolsonaro não está longe de ser derrotado. Não digo isso por desejo, mas pela ciência histórica, embora não possa prever a forma como isto se dará.


Foi nesse quadro que se levantou a proposta da frente de salvação nacional, da esquerda a setores de centro e de centro direita. Ao meio a uma grave pandemia que mata e infelicita nosso povo. Creio que proposta perfeitamente ajustada para o momento. Ao assim fazer os comunistas não abdicam de suas propostas por um projeto de desenvolvimento nacional progressista que possa abrir caminho para uma pátria socialista.

Credito da foto: Sergio Lima\Poder 360

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