Elias Jabbour: Moeda Digital Chinesa


Estou sendo cobrado por muitos amigos para expor minha opinião sobre essa ousada ação chinesa de cancelar o o dólar nas transações nas bolsas de valores e substituir o mesmo pelo yuan. Ao menos duas pessoas são muito mais qualificadas do que eu para falar disso. Refiro-me ao professor Carlos Medeiros e meu amigo Daniel Kosiński.

Meu pitaco inicial é carregado de conservadorismo. Não vejo ameaça imediata ao peso do dólar, percebo uma ameaça estratégica a este peso sob forma de um arranjo monetário internacional alternativo à “zona do dólar”. Este meu conservadorismo é um antídoto à euforia que pode tomar conta de muitos que acreditam que os EUA sairão muito enfraquecidos desta crise financeira e sanitária e a China muito fortalecida. É sob a força deste “desejo” que muita gente tem emitido opinião após essa “bomba” sob forma de moeda digital.

Não se constrói uma nova ordem monetária da noite para o dia. Isso depende de uma série de determinações, incluindo a acomodação de cada país à ordem instituída. Logo, a primeira questão a saber é qual país do mundo estaria disposto a deixar de lado suas posições em dólar e aceitar o yuan como lastro de troca? Eis a questão fundamental.

Não acredito que nenhum país árabe, por exemplo, estaria disposto a isso. Nem tampouco os europeus. Na América Latina somente a Venezuela. A Rússia, certamente. Na Ásia, alguns poucos vizinhos da China. Na África, o Zimbabwe destruído por sanções econômicas. E por aí vai. Neste caso, um filósofo grego dizia que a instituição de uma moeda depende da “força da lei”. O lastro do dólar também está no poderio militar do imperialismo. Algo que a China está muito distante de alcançar.

Enfim, a China ainda não detém “a força da lei”. Sua força reside na capacidade de realizar grandes empreendimentos fora de suas fronteiras como forma de elevar sua “Nova Economia do Projetamento” a outras paragens. Uma análise do futuro do lastro monetário internacional poderá ter essa capacidade chinesa como “ponto zero”. Neste caso a imposição de sua moeda como lastro monetário não demandaria “base material”, mas força política e militar suficiente para fazer com que boa parte dos países com as quais ela tem remetido investimentos bilionários aceitem fazer transações em yuan.

Essa operação não é simples. É imensa a capacidade dos EUA em constranger qualquer país do mundo que ouse colocar em questão a presente ordem. Somente um abandono em bloco do dólar poderia colocar a posição desta moeda em questão. Como organizar uma debandada dessa, eis a questão. Questão que passa por saber o que fazer com os trilhões de dólares que andam pelo mundo a desestabilizar a tudo e a todos. Logo, a questão não é somente colocar em xeque a posição do dólar. É também colocar em questão a própria financeirização como dinâmica de acumulação.

Por fim, duas lembranças. 1) Os EUA também podem criar sua própria versão digital do dólar. 2) A moeda chinesa, o yuan, deveria deixar de ser atrelada ao dólar.

Desde 1994 o dólar e o yuan são as duas faces de uma mesma moeda.

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