Jorge Gregory: Negacionismo epidêmico e negacionismo político


A contenção da epidemia pela Covid-19 é possível. Uma vez que o vírus é disseminado de pessoa a pessoa, iniciada a contaminação, o isolamento social é a única medida eficiente para contê-la. Isoladas em suas residências, as pessoas reduzem o contato com outros indivíduos e o vírus deixa de circular.
No entanto, mesmo numa medida extrema, de lockdown, não é possível eliminar totalmente a circulação de pessoas, visto que atividades essenciais não podem parar, até mesmo para que a maioria da população possa fazer o isolamento. Assim, aqueles que tiverem que circular, devem estar conscientes da gravidade da epidemia e devem tomar medidas de higiene e de distanciamento social para não se contaminarem e não se tornarem propagadores do vírus. Com isso, pode-se rapidamente eliminar a contaminação comunitária e, impedindo a importação do vírus através de controles de fronteiras e monitoramento de ingressantes, acabar com a circulação do vírus.
Porém, algo que parece simples, torna-se extremamente complicado diante do negacionismo da epidemia.
Negacionismo, em primeiro lugar, de governantes e de uma parcela significativa da população. Negacionismo daqueles que simplesmente não acreditam que exista um vírus, que é histeria da imprensa, complô para impor uma ditadura comunista e outras sandices. Negacionismo também daqueles que, ainda que tenham consciência da existência da epidemia, acreditam que, por serem jovens, fortes e não portadores de comorbidades, não terão grandes problemas se forem contaminados. Tais negacionistas circulam livremente, sem obedecer a regras de higiene e distanciamento social.
Mas há aqueles que se veem obrigados a circular por uma simples questão de sobrevivência. Vai da diarista que a patroa não dispensou ou não manteve o pagamento das diárias para que permanecesse em casa, do ambulante ou autônomo que se ficar em casa fica sem renda, do indivíduo que vive de bicos, entre tantas outras trabalhadoras e trabalhadores que, se não circularem, se não forem à luta, morrerão de fome. Estes não são negacionistas, mas são vítimas do negacionismo das autoridades públicas, que não lhes garantem o devido amparo para que possam ficar em casa.
As consequências do negacionismo governista, e em especial de Bolsonaro, está trazendo e trará consequências irremediáveis. Não só pelo exemplo, que motiva as pessoas a não respeitarem o isolamento, mas principalmente porque é o governo federal aquele com capacidade de tomar medidas de apoio social às comunidades menos favorecidas. As poucas medidas tomadas, como por exemplo a precária ajuda social de R$ 600,00 – que, aliás, por Bolsonaro teria sido de apenas R$ 200,00 – acabam sendo mais uma chamada para o matadouro do que uma solução para esta população. As filas e concentração de pessoas nas agências da Caixa são verdadeiros meios de cultura para a disseminação do vírus.
Mesmo com as medidas restritivas de circulação adotadas por governadores e prefeitos e a adesão de quase metade da população, a grande circulação de pessoas, segundo pesquisas, coloca o Brasil como o país com maior taxa de transmissão. Não há um único estado sem contágio e a livre circulação de pessoas entre municípios faz o vírus se espalhar por todo o território nacional. O número de contaminados e mortos cresce em ritmo assustador e provavelmente colocará o país no topo de maior número de vítimas.
A realidade, no entanto, é implacável para com aqueles que a negam. Trump e Johnson, por exemplo, tiveram que recuar e reconhecer a gravidade da epidemia. No Brasil a disseminação ainda não chegou no seu auge, mas pela velocidade de crescimento, é questão de dias para que se transforme em tragédia. Inevitavelmente varrerá os negacionistas.
A mesma autocrítica de Trump e Johnson, no entanto, não se pode esperar de Bolsonaro. Ele vem dizendo e acredita piamente que a pandemia é uma conspiração da grande mídia mundial para derrubá-lo. Quanto mais a realidade o contraria, mais se afunda no seu delírio conspiratório. Ele e sua família de delinquentes se aproveitam da impossibilidade de manifestações de massa contrárias ao seu governo, para mobilizar a sua legião de idiotizados em atos antidemocráticos que pedem golpe militar. O seu negacionismo e delírio conspiratório não só afundam o país em um abismo epidêmico e econômico, mas também o arrastam para uma crise política de proporções não menos graves. Bolsonaro se apega aos 30% que, segundo pesquisas, ainda o apoiam, e a cada dia aumenta o tom de suas provocações contra a democracia, em um jogo extremamente perigoso.
Bolsonaro se isola politicamente. Ao tempo em que sua cúpula de governo tenta rearticular uma base parlamentar compondo com o Centrão, a cada dia sofre mais defecções de peso. O PSL, partido pelo qual se elegeu, hoje é praticamente de oposição. La se foram Caiado, Mandetta e agora Moro. Até mesmo o MBL, e outros movimentos que ganharam notoriedade no impeachment de Dilma, passam a pedir a saída de Bolsonaro.
Socialmente, ainda que o insano se apegue e tenha orgasmos com as manifestações de seu bando de fanáticos, cresce e já chega à metade da população o sentimento antibolsonarista. Segundo pesquisas, já passam de 50% os que apoiam sua renúncia ou seu impeachment. Se não há manifestações de rua expressando este sentimento, os panelaços se tornam cada vez maiores, inclusive em bairros onde Bolsonaro havia obtido quase a totalidade de votos. A permanência do Capitão à frente do governo vai se tornando insustentável. A sua remoção, no entanto, esbarra em várias barreiras, entre elas, em especial, a do negacionismo político.
Negacionismo daqueles que, ainda que se oponham aos atos tresloucados do Presidente, não compreenderam ainda a gravidade da situação. Não compreenderam que o prolongamento de seu governo representará a perda de milhares de vidas de brasileiros, além de um risco cada vez maior de imposição do autoritarismo.
Negacionismo daqueles que acham que a melhor estratégia é deixar o governo sangrar até 2022, e removê-lo derrotando-o nas urnas. Tais negacionistas não dimensionam o desastre que a permanência de Bolsonaro no poder significará para a sociedade, para a economia e para a democracia.
Negacionismo de segmentos de esquerda, que têm orgasmos com os panelaços, acreditando que ainda se vive a polarização das eleições de 2018 entre direita e esquerda. Que bradam por uma frente exclusivamente de esquerda ou então uma frente, desde que não contemple fulano, beltrano e sicrano, como se fosse possível ditar a realidade segundo os seus desejos.
A polarização que se coloca hoje na sociedade brasileira é entre a vida e a morte, entre a democracia e o autoritarismo, entre bolsonaristas e antibolsonaristas. A palavra de ordem de “Fora Bolsonaro” ganha amplos setores sociais e o espectro político que vai assumindo esta bandeira já inclui até mesmo correntes de direita. Esse é o curso real do momento que vivemos e não serão os negacionismos que determinarão o seu desenlace ou a hegemonia do processo. Assim como a própria crise sanitária dará conta de varrer os negacionistas epidêmicos, o próprio processo social dará conta de varrer os negacionistas políticos. Aqueles que não compreenderem o real caráter do confronto que se trava e a amplitude do processo, serão inevitavelmente condenados ao isolamento. Quem cabe ou não na frente e quem a dirigirá será determinado pela vida e pela disputa de hegemonia do processo. Não será a vontade desta ou daquela força, ou desta ou daquela personalidade política.
*Jorge Gregory é jornalista e professor universitário, trabalhou no Ministério da Educação (MEC).

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