Jorge Gregory: Lições da vida para construção de frentes amplas


Um indivíduo muito obeso, que está convencido da necessidade de perder peso, vai à loja e compra um conjunto de roupas tamanho pequeno. Obviamente, naquele momento, tais roupas não lhe servirão para nada. Se tentar usá-las, a camisa rasgará, a calça despedaça. Ainda que queira parecer magro e elegante, a atitude correta é enfrentar o problema da alimentação e do modo de vida. Sem estabelecer uma dieta saudável e um plano de atividade física, jamais chegará ao objetivo de usar aquelas roupas que adquiriu.
Em uma de suas mais conhecidas formulações, Lenin afirma que “é preciso sonhar, mas com a condição de crer em nosso sonho, de observar com atenção a vida real, de confrontar a observação com nosso sonho, de realizar escrupulosamente nossas fantasias”. Não precisamos, no entanto, buscar nos grandes clássicos determinados ensinamentos, pois a própria vida se encarrega de nos educar. Desde cedo, seja pela própria vivência, seja pela educação familiar ou escolar, aprendemos que é necessário termos objetivos, vislumbrarmos um ponto futuro a ser atingido que oriente os nossos passos e nossas ações. Aprendemos também que para empreendermos uma determinada jornada precisamos estabelecer o caminho e precisamos dar o primeiro passo.
Outro ensinamento precioso de Lenin é aquele que afirma ser “necessário saber encontrar em cada momento particular o elo particular da cadeia a que temos de nos agarrar com todas as forças para reter toda a cadeia e preparar solidamente a passagem para o elo seguinte”. Aqui também a vida nos ensina que a cada passo de uma empreitada temos que saber escolher o problema a ser enfrentado. Precisamos escolher sempre aquele problema que, se não solucionado, impedirá a resolução dos demais. E mais, se não temos forças suficientes para resolver este problema, devemos buscar apoio de quem possa nos ajudar. Uma criança que sonha em ser engenheiro ou engenheira quando crescer e vai muito mal em português, logo aprenderá que não adianta largar esta disciplina e se esforçar nas demais que tem mais afinidade, pois correrá o risco de reprovação. Aprenderá desde cedo que, se necessário, deverá buscar apoio de seu professor, de seus colegas, de seus pais, para superar este problema que coloca em risco seu sonho.
Tais ensinamentos, sejam das doutrinas ou da vida, se aplicam também à política. Se no exemplo do indivíduo obeso nos parece tão óbvio que para atingir o seu objetivo o primeiro passo, a resolução do problema sem a qual não resolverá os demais, é estabelecer uma dieta compatível com o seu objetivo, por que para a maioria dos personagens políticos é tão difícil entender qual é o elo particular da cadeia que cita Lenin? A resposta é simples, porque a exemplo do sujeito citado, deixam seu objetivo futuro obscurecer o momento presente e, ao contrário de estabelecerem a dieta, vão à loja comprar a roupa para emagrecer. O famoso “colocar a carroça à frente dos bois”. Mais, vislumbrando tão somente o ponto futuro, são incapazes de fazer aquilo que é fundamento básico na política, a leitura da correlação de forças do momento presente.
Na luta pela redemocratização do país, no início dos anos 80, era claro que o elo particular era a necessidade de remover os militares do poder. A forma que esta luta assumiu, foi a tentativa de forçar o Congresso aprovar a emenda constitucional Dante de Oliveira, que restabelecia a eleição direta para presidente. Esta luta se expressou na memorável campanha Diretas Já, tendo à frente uma ampla frente que ia dos comunistas a setores conservadores abrigados no MDB. Muitas correntes de esquerda se negavam a subir no palanque, afirmando que esta frente significava uma conciliação com a burguesia, que a ditadura só seria derrotada com a implantação de um governo dos trabalhadores ou de um governo operário.
Derrotada, a ampla frente se alargou ainda mais, abrigando setores dissidentes do próprio regime, e lançou as candidaturas de Tancredo e Sarney. Sob o mesmo argumento de que era de conciliação, outros setores de esquerda se retiraram da frente. Vencer esta etapa abriu o caminho para a formulação de uma nova Constituição que inaugurou um Estado democrático. Mais uma vez, ainda que, pelo seu conteúdo avançado até passou a ser chamada de “Constituição Cidadã”, houve deputados de esquerda que se negaram a assiná-la.
A verdade, no entanto, é que somente foi possível Lula chegar à Presidência, que era o objetivo do PT, graças à solução dos problemas que se apresentaram na primeira metade da década de 80, com ou sem a participação do PT. E a solução só foi possível graças à constituição de frentes amplas, que foram rotuladas, muitas vezes, como de conciliação com a burguesia pelo próprio PT. Alguns setores, até hoje, ainda vociferam que a única solução é a implantação de um governo dos trabalhadores. Ficaram 40 anos à margem do processo político e assim continuarão.
O fundamental que se deve compreender, é que será o resultado de cada etapa anterior que irá descortinar as possibilidades futuras, de forma que, ainda que determinadas situações possam aparentemente se efetivar pelo acaso e não como consequência da construção histórica, tais situações se efetivarão tão somente em decorrência dos resultados das etapas presentes e passadas. Na política, mais importante ainda, é compreender que é a correlação de forças que se forma que determinará a solução da situação presente. Não basta as pesquisas apontarem que metade da população quer a saída de Bolsonaro se as forças políticas e sociais que a ele se opõem ficarem divididas. Ele continuará no poder.
No momento atual, o Brasil enfrenta uma crise epidêmica sem precedentes. Pouco se sabe sobre como combater o vírus e por quanto tempo a crise se estenderá e menos ainda se sabe quais serão as consequências sanitárias, sociais, econômicas e até políticas desta crise. Qualquer projeto político, de qualquer personalidade ou força política, está irremediavelmente condicionado à resolução da crise sanitária. A resolução da crise sanitária, por sua vez, está condicionada à remoção de Bolsonaro do poder. Quanto mais se prolongar sua permanência, maiores serão as dificuldades de se debelar a epidemia e mais profundos e arrasadores serão seus efeitos.
Portanto, todo e qualquer governador, todo e qualquer prefeito, todo e qualquer segmento social ou político, toda e qualquer personalidade que tenha a mínima consciência da crise epidêmica, passa a ser um potencial interessado em retirar o Capitão da Presidência e na articulação de um plano emergencial para o enfrentamento da pandemia e suas consequências. Até porque não se trata somente de uma questão sanitária. Generais passam a insinuar abertamente a possibilidade de golpe de Estado para defender Bolsonaro, em clara ameaça à democracia.
O tempo de uma frente é o tempo de sua necessidade histórica. Se fulano é do DEM, se beltrano é financista ou privatista e se sicrano será adversário em um momento futuro é o que menos importa. Se a remoção de Bolsonaro resultar na posse de Mourão, é um problema a ser resolvido na sequência. Personalidades ficarem se alfinetando porque disputarão as prováveis eleições de 2022 é um desserviço à causa maior que se coloca neste momento.
Se haverá necessidade de frente no pós pandemia, nas eleições de 2020 e em outras situações futuras e qual seria a composição dessas frentes, tudo isso estará necessariamente condicionado à solução da situação presente. E, neste momento, a frente necessária é bastante ampla e abarca todo e qualquer opositor de Bolsonaro e defensor do Estado Democrático.
*Jorge Gregory é jornalista e professor universitário, trabalhou no Ministério da Educação (MEC).

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