Wadson Ribeiro: O racismo em tempos de pandemia


A pandemia ocasionada pelo coronavírus parece ter despertado a consciência de grandes parcelas da população global sobre os perigosos rumos que o mundo vem tomando. O aumento da miséria, a perda de empregos, as crises econômicas e o aumento do autoritarismo ficaram mais evidentes para grandes contingentes da população em vários países. As passeatas contra o racismo nos EUA, que agora ganham o mundo, são parte da falência de um sistema que não consegue vencer o racismo e o aumento das desigualdades sociais.

A morte de George Floyd, de 46 anos, na cidade de Minneapolis, nos EUA, por um policial branco, em cenas que chocaram o mundo, suscitou grandes manifestações em vários estados americanos e em várias partes do planeta. Esse caso soma-se a tantos outros casos de racismo que resultaram em mortes nos EUA e em outros lugares do mundo. A diferença está nas dimensões políticas que tais atos vêm assumindo. Para alguns historiadores, as manifestações norte-americanas se comparam ou superam em volume os grandes protestos antirracistas ocorridos nos anos 60, sob a liderança de Martin Luther King. Contudo, a força dos atos de agora se deve, além do racismo estrutural norte-americano, à falência de uma sociedade baseada apenas nos valores do consumismo exacerbado.

No Brasil, o assassinato do garoto João Pedro, de apenas 14 anos, no morro do Salgueiro, em São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro, pela ação genocida da polícia militar, só faz engrossar as estatísticas de crimes contra negros no país. De acordo com IPEA, no boletim de Análise Político Institucional lançado em 2019, para cada três pessoas assassinadas no Brasil, duas são negras. Ainda segundo o órgão, a chance de um adolescente negro morrer vítima de homicídio no Brasil é 3,7 vezes maior que a de um não negro. Quando se trata de mulheres negras o quadro de racismo se agrava. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública aponta que 61% das vítimas de feminicídio em 2018 eram negras. No Brasil, dos cerca de 13,5 milhões de pessoas que vivem na extrema pobreza, 75% são negras.

O Brasil foi um dos últimos a abolir a escravidão e, quando o fez, não se preocupou em propiciar à população negra moradia, local no mercado de trabalho e acesso aos bens e serviços públicos. Os negros foram empurrados para os morros que depois se transformaram em favelas, tiveram ocupações com menores salários e sempre de mantiveram à margem das conquistas econômicas e sociais. Por isso, a Fundação Palmares, que não por acaso carrega em seu nome uma homenagem a Zumbi dos Palmares, grande figura histórica da luta dos negros por sua liberdade, não merece ser presidida por um cidadão que afirma que a escravidão no Brasil “fez bem aos descendentes africanos” e que insulta o movimento negro chamando- o de “escória maldita”. Enquanto o mundo marcha contra o racismo, o presidente da Fundação Palmares exalta a escravidão!

Como dizia Renato Russo em sua canção Índios: “nos deram espelhos e vemos um mundo doente”. Não é apenas a pandemia que torna o mundo atual doente, mas também o racismo, a intolerância, as guerras, a miséria, a estupidez, o negacionismo e o ataque às utopias. O que torna o mundo doente é a forma estúpida como partiram George Floyd e João Pedro. Os efeitos sociais e econômicos da pandemia são os subprodutos de um sistema capitalista caótico, que segrega negros, árabes, latino-americanos e todos aqueles que precisam ser explorados em nome do enriquecimento de poucas pessoas e países. Sob o manto do capitalismo, as vidas importam menos que o lucro e a exploração – aliás, só importam se puderem ser exploradas.

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