Caçando comunistas, por Maria Prestes


Aos 90 anos de idade, depois de uma vida de lutas por justiça social e de ter criado meus filhos no exílio, ouço de figuras governistas a esdrúxula ideia de que o Brasil está ameaçado por comunistas.

A União Soviética, em que vivi boa parte dos meus melhores anos, desapareceu completamente, e com ela todo o campo socialista europeu. Cuba e Venezuela atravessam crises econômicas severas e estão centrados em seus próprios problemas internos. Do outro lado do mundo, a China, maior parceira comercial do Brasil, depois da pandemia tem agora toda uma economia para reconstruir, enquanto a Coreia do Norte permanece como um país sem grande influência no cenário mundial.

Mas na ausência de inimigos reais é necessário criar inimigos imaginários. Por isso, reviver no Brasil o antigo medo dos comunistas é imperioso para um governo que pretende desviar a atenção de suas próprias – e graves – falhas.

Da esquerda para a direita: Graciliano Ramos, Pablo Neruda, Cândido Portinari e Jorge Amado, grande intelectuais que se identificaram com as ideias comunistas

Na verdade, se formos pensar em termos históricos, muitos das pracinhas brasileiras que lutaram na Segunda Guerra Mundial, nas terras da Itália contra o fascismo, eram comunistas. Quando se dizia que em nosso país não havia uma única gota de petróleo, boa parte dos líderes que bancaram a afirmação de que nosso país tinha sim petróleo eram comunistas. Artistas como Cândido Portinari, o compositor José Siqueira, os escritores Graciliano Ramos e Jorge Amado foram membros do Partido Comunista do Brasil. Lutaram pelo que acreditavam ser certo: justiça social e uma economia mais igualitária.

Para quem trabalha no Palácio do Planalto, reside no Palácio da Alvorada ou recebe visitantes no Palácio do Itamaraty, vale lembrar que todos estes foram projetados pelo arquiteto comunista Oscar Niemeyer. Esse arquiteto símbolo do Brasil, mesmo sendo ateu, também projetou a Catedral de Brasília, bem como outras igrejas católicas, mesquitas, sinagogas e tempos evangélicos, pois nunca permitiu que suas convicções pessoais degenerassem em ódio ideológico. Na história do nosso país – um país plural, que convive com uma diversidade tão grande de credos e ideologias – os comunistas tiveram sim um papel na sua edificação.

Luiz Carlos Prestes e Maria Prestes com a família – Arquivo

Meu falecido marido, Luiz Carlos Prestes, o Cavaleiro da Esperança, dedicou sua vida a buscar condições melhores para o povo brasileiro. A melodia que ele mais entoou na vida foi o Hino da Bandeira, que aprendeu quando estudou no Colégio Militar do Rio de Janeiro: “Salve lindo pendão da Esperança / Salve, símbolo augusto da paz”. Ele lutou com tudo o que tinha para que o nosso verde e amarelo fosse símbolo da justiça social.

Precisamos ter senso crítico perante essa vontade política hoje presente de apagar a história do Brasil e criar inimigos inexistentes. Precisamos lembrar quem foram os comunistas brasileiros, quais foram as suas contribuições para a construção da nossa nação, e quais eram os seus ideais: a fraternidade e a igualdade comunitária.

Não há dúvidas de que na tentativa de construção do socialismo real ao redor do mundo houve falhas. Mas falhas, ao que a história nos aponta, houve em praticamente todos os regimes políticos que já existiram. E da mesma forma como a Igreja Católica não pode ser para sempre condenada por conta da Inquisição que perpetrou há séculos atrás, da mesma forma como seria absurdo estigmatizar eternamente o povo alemão por conta do Holocausto, também tirar o valor daqueles brasileiros que acreditaram ao longo da história em ideais igualitários de convivência humana é um erro.

Sigamos em busca de uma democracia plena, de um Estado laico voltado para as necessidades da população, no qual a justiça social prevaleça sobre os interesses escusos de uma minoria. E, por favor, sem inimigos inventados.

Publicado originalmente no Portal Vermelho

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