Jorge Gregory: Bolsonarismo sofre duro golpe


Nenhum movimento ganha larga projeção na sociedade sem uma organização que tenha um órgão dirigente e sólidas estruturas de ligação com as massas, inclusive os de extrema direita. O nazismo e o fascismo, a partir dos seus respectivos partidos, organizaram as milícias, que faziam o serviço sujo de enfrentamentos de rua e ataques violentos aos seus opositores. O Bolsonarismo, enquanto fenômeno extremista, também tem a sua forma de organização e a ação do Facebook a atinge de forma contundente. Para entender tal arranjo, temos que fazer uma retrospectiva de fatos a partir dos acontecimentos de 2013.

O rápido crescimento daquelas manifestações pegou de surpresa até os mais experientes ativistas. Tiveram como origem uma mobilização contra o aumento das passagens – dirigida pelo movimento Passe Livre – e rapidamente envolveram milhões de pessoas, da classe média em quase sua totalidade, em um movimento aparentemente sem lideranças e sem uma pauta definida. Parecia que as pessoas iam às ruas pelo simples desejo de protestar. Com certeza, por trás de tal ímpeto de protesto havia condições objetivas como perda de poder aquisitivo, inflação, endividamento acima da capacidade de pagamento, entre outras. Quem e de que forma convocou é o de menos. O fato é que existia terreno fértil para fazer explodir enormes manifestações.

Se as redes sociais, Facebook e Twitter, as mais populares à época, foram os instrumentos determinantes de mobilização e se existiam interesses ocultos por trás das convocações é uma discussão à parte. O fato é que, segundo pesquisa realizada pela BBC Brasil, o Twitter era apontado como uma das principais fontes de informação em tempo real sobre o que acontecia durante as manifestações e o Facebook era usado para organizar atos de protesto e demonstrar posicionamentos políticos. Pesquisas da consultoria Serasa Experian apontaram que essas duas plataformas tiveram picos de acesso nesse período. Ou seja, tiveram, no mínimo, papel relevante na eclosão daquelas manifestações enquanto instrumento de organização e mobilização.

A propensão de uma enorme parcela da população para buscar a informação fácil – sem critério jornalístico ou científico – e para se deixar envolver por teorias da conspiração não era nenhuma novidade. Fofoca é uma atividade tão velha quanto a humanidade, mas costumava ser algo que raramente se propagava por outros meios senão o boca a boca, de forma que sua disseminação era lenta e seu alcance, curto. A era digital, em especial o surgimento das plataformas de redes sociais, veio potencializar essa vocação em um segmento significativo da população.

A internet e o surgimento dos navegadores também já haviam dado a uma gama enorme de pessoas de baixíssima formação a possibilidade de criarem seus próprios veículos e se colocarem perante a sociedade como “formadores de opinião”, que na verdade eram e são, na sua ampla maioria, fontes de desinformação. Com as plataformas de redes sociais, esse tipo de atividade ampliou seu alcance e abrangência. Uma classe média inculta e propensa a reclamar de qualquer coisa foi o terreno fértil para a multiplicação de blogueiros e youtubers, na sua ampla maioria alicerçados em um discurso de falso moralismo, de apologia ao totalitarismo e à violência policial, entre outros aspectos. Sem entrar no mérito de seu caráter e seus objetivos, a forma de atuação da Operação Lava Jato, fazendo uma espetacularização de suas ações, viria a favorecer sobremaneira a formação deste ambiente favorável a tais blogueiros e youtubers.

Enquanto as esquerdas, estonteadas e apegadas a métodos tradicionais de mobilização, tentavam entender a nova situação, o novo fenômeno não passou desapercebido por oportunistas e extremistas de direita. A família Bolsonaro vinha há pelo menos duas décadas, sustentada em discurso de um moralismo barato e defesa da violência policial, associada ao lado mais podre dos aparatos de segurança, assegurando mandatos parlamentares, cuja atuação se caracterizava por discursos folclóricos. A nova situação também não passou desapercebida para o clã Bolsonaro, em especial, para o filho 02. Segundo reportagem recente de O Globo, Carlos Bolsonaro, ainda em 2013, passou a recrutar blogueiros e youtubers e alocá-los em seu gabinete de vereador. Não tenho dúvidas de que este primeiro movimento decorreu mais de um instinto de sobrevivência do que na perspectiva de um projeto maior. O novo fenômeno projetava muitas lideranças conservadoras e extremistas e poderia colocar em risco a manutenção dos mandatos que a família detinha. Até então, se Jair Bolsonaro tivesse se aventurado a qualquer cargo majoritário, não teria um desempenho melhor que do Cabo Daciolo.

Aos poucos, esses grupos e indivíduos oportunistas e extremistas foram percebendo que, se a partir de um perfil em uma plataforma era possível atingir alguns milhares de pessoas, multiplicando-se estes perfis em múltiplas plataformas se atingiria milhões. Que criando perfis falsos poderiam driblar possíveis responsabilizações legais, permitindo-lhes publicar o que bem entendessem. Multiplicaram-se, então, as páginas e sítios apócrifos e os robôs nas redes sociais. O mercado, em nível mundial, tornou-se tão promissor que empresas de disparos de mensagens em massa surgiram por todos os lados.

Em um ambiente favorável a pregações reacionárias, o sucesso na adoção de tal estratégia de sobrevivência pela família Bolsonaro foi tão grande que, ao final do processo de impeachment da Presidenta Dilma, colocava Bolsonaro pai como um provável candidato ao segundo turno nas eleições presidenciais. Com os horizontes ampliados, segundo apurou a mesma reportagem de O Globo, o número de blogueiros e youtubers recrutados e profissionalizados foi se ampliando e o grupo foi definitivamente consolidado numa reunião do clã com alguns desses jovens, no salão de festas do prédio onde mora o filho 01, Flávio Bolsonaro, em 11 de março de 2017. A estratégia e a organização de campanha estavam montadas e para consolidá-las e aperfeiçoá-las, em agosto de 2018, Eduardo Bolsonaro foi a um encontro com Stephen Bannon, o arquiteto das Fake News e estrategista da campanha de Trump, que seguiu os mesmos padrões. Em síntese, a organização que daria forma ao Bolsonarismo e levaria Jair Bolsonaro à presidência estava formatada: o clã Bolsonaro na cabeça, cumprindo o papel de partido, um número razoável de blogueiros e youtubers profissionalizados, com seus milhares de robôs e simulacros de páginas informativas, cumprindo o papel de milícias digitais, mobilizando milhões de internautas alienados. Vencidas as eleições, o comando de tais milícias se instalou no Palácio do Planalto e passou a ser conhecido como Gabinete do Ódio, que vinha mobilizando as hordas bolsonaristas para manifestações antidemocráticas e defenestrando opositores e desafetos do clã. Em resumo, uma perfeita organização, nos moldes nazifascistas, em tempos de mundo digital.

Para além das implicações legais, tendo em vista o inquérito no Supremo, a CPMI das Fake News no Congresso e a ação de cassação no STE, a atitude do Facebook de exclusão dos perfis associados ao Gabinete do Ódio coloca a nu e desfere violento golpe no coração da organização fascista que se instalou no Gabinete Presidencial. Para se ter uma ideia, segundo o DRFLab, organização responsável pela auditoria que levou à exclusão, os mecanismos instalados pelo Gabinete do Ódio nas plataformas Facebook e Instagram mobilizavam uma audiência de mais de 2 milhões de pessoas. Obviamente a organização fascista ainda conta com as outras plataformas e se o Facebook não mantiver uma permanente vigilância, eles se reorganizarão na sua plataforma. De qualquer forma, abalou as estruturas da organização.

Para derrotar o Bolsonarismo e afastar a ameaça totalitária é fundamental desmontar a organização fascista que lhe dá sustentação, as milícias digitais. A pressão dos anunciantes sobre o Facebook surtiu efeito e nos mostra um caminho: manter permanente pressão sobre as plataformas e seus anunciantes para a exclusão de perfis falsos e de propagação do ódio. Por outro lado, apesar de a regulamentação das plataformas digitais ser assunto polêmico, é inevitável e urgente que o tema seja enfrentado na sociedade e no Congresso.

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