José Reinaldo: China e Rússia firmam aliança contra ameaças dos EUA


Sem qualquer registro visível nos meios de comunicação ocidentais, os presidentes da China, Xi Jinping, e da Rússia, Vladimir Putin, conversaram por telefone na última quarta-feira (8). Um episódio que, como veremos, tem impacto ponderável na situação global.

Em meio às dificuldades criadas pela pandemia da Covid-19 para a realização de reuniões presenciais, a conversa teve o conteúdo de um encontro de cúpula, com ambos os líderes tratando assuntos da maior significação não só para as relações bilaterais, mas também de projeção estratégica para o quadro geopolítico.

Xi e Putin sabem que seus interesses próprios e comuns têm impacto na situação global. E estão dispostos a aproveitar as oportunidades criadas na nova situação internacional, em que os Estados Unidos, rival comum, vivem um momento difícil, exibindo vulnerabilidades sistêmicas, estruturais e conjunturais.

Os dois chefes de Estado têm consciência da necessidade de projetar para o futuro de longo prazo relações estáveis, que no ano passado completaram 70 anos, considerando o período da União Soviética. Xi e Putin sabem que a rivalidade sino-soviética, que marcou essas relações entre meados dos anos 1950 e o final do século, é um fato que ficou na história. Hoje buscam o alinhamento no comércio e diplomacia multilaterais, por meio da Iniciativa do Cinturão e Rota, da União Econômica da Eurásia, da Organização para a Cooperação de Xangai, do Brics e do sistema de instituições das Nações Unidas. No plano estritamente bilateral, enfatizam o Tratado de Boa Vizinhança e Cooperação Amigável.

A situação do mundo passa por rápidas e dinâmicas transformações, com fatores de incerteza e instabilidade e ambos os países tomam cada vez mais consciência da gravidade dos desafios que enfrentam.

As atuais relações bilaterais são designadas como “parceria estratégica abrangente de coordenação”, um status elevado que requer contínua comunicação e cooperação estratégicas. Essas relações são crescentemente marcadas por conceitos e ações de “firme apoio mútuo”, “rejeição à sabotagem”, “repúdio a intervenções externas”, “defesa da soberania”, “direito à segurança e ao desenvolvimento” e “salvaguarda de interesses comuns”. É cada vez mais frequente o uso dessas expressões nas conversações entre ambos os países em todos os níveis e nos respectivos veículos de comunicação.

Além da reafirmarem a disposição para fortalecer os laços diplomáticos, políticos, comerciais, científicas, tecnológicas, culturais e militares, que são muitos, abrangendo uma imensa gama de convênios, os dois presidentes hoje protagonizam uma aliança estratégica que tende a mudar a correlação mundial de forças. Não será fácil para os Estados Unidos fazerem prevalecer as guerras comerciais, sanções econômicas, a ruptura unilateral de acordos e as ameaças à paz mundial, se dois gigantes como China e Rússia mantiverem essa união.

Na conversa entre os dois presidentes, realça-se a solene promessa mútua que fizeram de se apoiarem mutuamente na defesa da soberania nacional e dos espaços geográficos e econômicos em que têm interesses comuns.

Entre as ameaças que os Estados Unidos e eventuais aliados fazem à Rússia, destacam-se na atual conjuntura a ruptura de acordos nucleares, a concentração de tropas e realização de manobras da Otan nas proximidades da Rússia, as sanções econômicas e o fomento a movimentos internos de desestabilização política. Por seu turno, apesar dos esforços de distensionamento e paz, a China é alvo de uma guerra econômica, e de ações intervencionistas em seus assuntos internos, relacionados com a soberania nacional e a integridade territorial, como as questões de Taiwan, Hong Kong, Tibete e Xinjiang. A isto se acresce a provocação dos EUA, ao enviar intermitentemente sob o pretexto de defesa da “liberdade de navegação”, as suas belonaves ao Mar Meridional da China. Como se pode notar, são múltiplos os desafios que a Rússia e a China podem e devem enfrentar conjuntamente, inclusive aqueles relacionados com a segurança.

A China, geralmente discreta e parcimoniosa quando se trata de assuntos específicos dos países com que mantém relações, opinou explicitamente sobre o referendo constitucional realizado há duas semanas na Rússia, que mereceu duras críticas por parte de potências e da mídia ocidentais. Para Xi Jinping, o referendo em que a maioria esmagadora da população russa aprovou um conjunto de emendas constitucionais reflete plenamente o apoio popular ao governo de Putin. Uma opinião que corresponde inteiramente às expectativas do líder russo, que empenhou suas energias no referendo e cujo resultado é definidor para o futuro da Rússia. Como é óbvio, esse resultado fortalece o poder político e a governança de Putin e o ajuda enormemente a manter a estabilidade política a longo prazo, defender melhor a soberania nacional e se opor à interferência estrangeira. Por isso mesmo, o líder do Kremlin retribuiu a opinião chinesa. Mais do que uma cortesia, essa opinião representa a adesão chinesa a uma causa política russa.

A retribuição veio na forma do apoio russo a um tema caro aos chineses. Vladimir Putin disse que respalda firmemente os esforços da China para defender a segurança nacional em Hong Kong, se opõe a todos os tipos de ações provocativas que violam a soberania da China e acredita que o gigante socialista asiático é plenamente capaz de garantir a prosperidade e a estabilidade na região autônoma especial que é parte inalienável do território chinês.

No plano simbólico, que representa muito mais do que as aparências nas relações internacionais, Xi fez notar o seu contentamento pela celebração na Rússia, do 75º aniversário da vitória soviética na Grande Guerra Patriótica, uma demonstração da determinação de manter viva a história e recolher os ensinamentos dos fatos gloriosos do passado, que no presente iluminam e inspiram os esforços pelo desenvolvimento compartilhado, a cooperação internacional, a união dos povos e a paz.

A assertividade chinesa e a reciprocidade russa constituem um inequívoco sinal dos tempos, uma nova fase da diplomacia entre essas duas grandes potências, quando a superpotência estadunidense, em crise e enredada em gravíssimos problemas econômicos, sociais, raciais e sanitários, com a reeleição do presidente da República ameaçada, recorre a uma retórica agressiva, intensifica ações hostis e de rivalidade, mantém acesos focos de conflitos e uma presença ostensiva de tropas, bases militares e armas nucleares no mundo.

É estimulante e promissor que a China e a Rússia manifestem a decisão de atuar de forma coordenada no âmbito da Organização das Nações Unidas e outras estruturas multilaterais, opondo-se ao unilateralismo e ao hegemonismo dos EUA, defendendo o direito internacional, a solução dos conflitos por meios diplomáticos, a autodeterminação dos países e povos, a soberania dos Estados nacionais, a igualdade entre grandes e pequenos, ricos e pobres. Se uma cooperação deste tipo produzir resultados, criam-se condições mais favoráveis para as lutas das forças revolucionárias, democráticas e progressistas do mundo e o empenho dos amantes da paz pela construção daquilo que os chineses designam como uma “comunidade com um futuro compartilhado para a humanidade”.

Jornalista, editor internacional do Brasil 247 e da página Resistência: http://www.resistencia.cc

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