Haroldo Lima: Lembrar de Mandela e de Mao Zedong


O nome de Mandela foi trazido pelo governador Flávio Dino como fonte de inspiração, pelo menos para uma parte dos brasileiros. O líder maranhense tem esquadrinhado a realidade oposicionista fracionada à cata de uma saída. Como nordestino sabe como é verdadeira uma das leis de Murphy, a de que “o ruim pode piorar”, o que nos remete à outra que diz que “tudo relegado à própria sorte tende ir de mal a pior.”


Mandela é exemplo pródigo em variadas questões, como nas batalhas políticas que exigem tenacidade, na compreensão de que a luta contra ideias retrógradas deve estar integrada à luta pela construção de um estado nacional e democrático, no otimismo com que aponta futuro luminoso em meio às intempéries do momento.


Existe, contudo, uma situação em que a postura avocada do líder sul-africano é de fato paradigmática, que é a sua posição ao sair da prisão de 27 anos. Aí, livre, famoso e prestigiado em seu país e no mundo, o Mandiba, como carinhosamente seu povo o tratava, não se deixou levar por qualquer postura inflexivelmente rancorosa e vingativa. Ao contrário, optou pelo difícil caminho de unir a maior parte da gente de seu país para pôr abaixo o apartheid, este sim, seu inimigo indefectível. Flávio Dino observa que Mandela decidiu “priorizar mais o futuro dos cidadãos do que o “julgamento” de erros do passado”. Em consequência, empenhou-se na arregimentação de forças díspares, formando uma frente notavelmente ampla que o elegeu Presidente da República e viabilizou a derrocada do odiento regime de segregação racial.


A lembrança do exemplo de Nelson Mandela desperta uma outra recordação, espetacular e absolutamente educativa, a de Mao Zedong após a Longa Marcha, em outubro de 1935.
A retirada épica das Forças Revolucionárias lideradas pelo Partido Comunista da China — que começara com mais ou menos 100.000 pessoas, chegou a Yenan, no norte da China, com 20.000 sobreviventes, depois de percorrer em um ano cerca de 10.000 km. O Exército chinês, sob o comando de Chiang Kai-shek, que dera combate mortal aos retirantes durante toda o tempo, chegara também na mesma região, e se instalara em Sian, bem perto de Yenan. O assalto final ao que restava dos comunistas estava sendo preparado. Foi quando o Japão começa a ampliar a invasão da China.


Os comunistas sob a direção de Mao Zedong percebem a mudança na situação e propõem ao Exército até então inimigo mortal um pacto: suspensão das hostilidades e união de forças para enfrentar o Japão. Chiang Kai-shek não aceita a trégua proposta. Seu Estado Maior, em posição contrária, prende-o. Como o Japão avançava, a posição de Chiang Kai-shek é considerada de traição nacional e prepara-se seu julgamento. Ele poderia ser condenado à morte, que era a pena por traição.

Os comunistas sabem desses fatos. Percebem que, matando Chiang Kai-shek naquela hora, o Exército regular se dividiria, o trauma seria grande e o Japão se aproveitaria de tudo. Despacham então para Sian uma comissão chefiada por um exímio negociador Zhou Enlai, com o objetivo de impedir a condenação e morte do Chiang Kai-shek e selar com ele um acordo para enfrentarem juntos o Japão. E isto foi feito. No curso da luta, crescem as forças dos comunistas. Em 1949 o Japão é expulso, os comunistas tomam o Poder, Chiang Kai-shek foge.


As experiências não devem ser copiadas, pois as circunstâncias são sempre diferentes. Tentar traslada-las é caminho certo para o erro. Mas erro sério também é o menosprezo às lições gerais das experiências passadas.


Quando Flávio Dino aponta o caminho seguido por Mandela para derrotar o apartheid e quando, na mesma linha, rememoramos aqui a façanha dos comunistas chineses para expulsar os japoneses e chegarem ao Poder, o que se quer é acentuar que o passado nunca é esquecido, mas que as frentes politicas progressistas se constroem em função de objetivos futuros, de programa, e não de avaliações do passado.


O quadro político brasileiro é delicado. Circunstâncias internacionais e nacionais estão deteriorando o amálgama do bolsonarismo, mostrando-o como uma horda obscurantista e miliciana que ameaça o país. Seu potencial de recuperação, contudo, paira latente e seu poder destrutivo, que tanto prejuízo já nos deu, pode crescer.


Do lado do Brasil, está seu povo, heterogêneo, diversificado, com sonhos nacionais e que, na luta e em frente ampla, pode levar de roldão as falanges bolsonaristas, autoritárias, neofascistas, negacionistas, lambe-botas de americanos.
De Mao Zedong a Mandela, quando o objetivo a atingir é imperioso e elevado, o caminho é o da frente necessária.

Haroldo Lima – engenheiro, é membro da Comissão
Política Nacional do Comitê Central do Partido Comunista
do Brasil.

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