Jorge Gregory: A pandemia e o Brasil no meio das disputas sino-americanas


Primeiro país a ser atingido pela Covid-19, a China rapidamente isolou a cidade de Wuhan, construiu um hospital em duas semanas e mobilizou todos os esforços para conter o vírus. Pouco mais de dois meses após o início do surto, a cidade reabria para as suas atividades contabilizando 2.547 mortos e o país, 3.186. A província de Hubei, da qual Wuhan é capital, é importante centro de produção agrícola e industrial e seu fechamento, além dos óbitos, teve por consequência forte impacto na economia chinesa, com uma retração de 6,8% naquele trimestre.

Ao final de fevereiro, os primeiros óbitos causados pela doença fora da China começavam a aparecer no Irã e na Itália. Tendo como epicentro a região da Lombardia, em pouco mais de um mês a Itália ultrapassava os 10 mil mortos. Mesmo adotando rigorosas normas de isolamento social, o sistema de saúde do país entrou em colapso, o mesmo ocorrendo na Espanha, França e Bélgica. No Reino Unido, após um primeiro momento de negacionismo de Boris Johnson, o país também passou a adotar o isolamento social. Todos eles ultrapassaram os 30 mil óbitos, sendo a Alemanha a exceção, cujo rigor das medidas de contenção, aliado a um robusto sistema de saúde, mantiveram o número de falecimentos abaixo dos 10 mil.

Com indícios de possibilidade de uma segunda onda aqui ou ali, a Europa vai retomando lentamente a vida social e as atividades econômicas, em um movimento permanente de afrouxamento e endurecimento das medidas de contenção da doença. O tombo econômico, no entanto, foi violento. Dados referentes ao segundo trimestre apontam uma retração de 12,1% na economia, o dobro da queda chinesa. Até mesmo a Alemanha, economia mais forte do bloco, apresentou uma contração de 10,1%. No primeiro trimestre, a queda europeia já havia sido de 3,6% e as perspectivas para o terceiro trimestre não são promissoras.

Nos Estados Unidos, Donald Trump adotou, e ainda mantém, a mais criminosa política negacionista observada em nível mundial e o resultado é avassalador. Mesmo com os primeiros casos de contaminação surgindo bem mais tarde que na China e Europa, o país já contabiliza 23% dos óbitos de todo o mundo. O governante americano, ao contrário de se concentrar em políticas de contenção da epidemia, volta-se para o processo sucessório presidencial, politizando a pandemia e tentando atribuir à China a responsabilidade pela tragédia que assola o povo estadunidense. Como resultado do caos sanitário, na semana que passou vieram os dados da tragédia econômica.

O dado divulgado, de retração de 32,9% no segundo trimestre, confunde a maioria das pessoas, pois na metodologia americana o crescimento ou contração do trimestre é projetado para o resto do ano. A retração real na verdade é de 9,5%. De qualquer forma, quando somados à queda de 5% no primeiro semestre representa 14,5% em apenas seis meses, o que, para os padrões americanos já é um completo desastre, talvez nunca vivido pela economia do país ou só comparável à Grande Depressão.

Enquanto a economia chinesa já apresentou uma recuperação de 3,2%, projetando-se para o ano um crescimento de 1,2%, e a europeia tem pelo menos uma perspectiva de estabilização, a americana é de absoluta incerteza e de perspectivas sombrias. A contenção da epidemia – condição primeira para estancar a sangria econômica, visto a ineficácia das políticas adotadas pelo governo Trump – a esta altura só parece ser possível por meio da vacinação, o que nos leva a entender o desespero americano em obter a vacina antes dos demais países, em especial da China. Tal é o desespero que não só os laboratórios americanos se concentram nessa busca, como o governo ianque passou a contratar a compra total da produção de possíveis vacinas de laboratórios ingleses e alemães.

De todo modo, a retomada da economia, em qualquer país, dependerá obviamente da capacidade produtiva instalada e a velocidade dessa retomada estará condicionada, em especial, ao domínio tecnológico. Neste campo – vide a disputa pela obtenção da tecnologia 5G – a China se mostra incomparavelmente superior aos Estados Unidos. Aliás, nessa disputa entre os dois países, os norte-americanos, embora ainda sejam a maior economia do mundo, só apresentam superioridade em relação aos chineses no quesito potencial bélico. À China, não interessa a ruína da economia mundial, pois isto também restringiria seu crescimento, que depende fundamentalmente do comércio exterior. O bom senso recomendaria, portanto, que os americanos, ao contrário de acirrarem as disputas, buscassem uma pacificação e até mesmo acordos de colaboração com os chineses para salvar sua própria economia. Porém, não só o bom senso não é o forte de Trump, como ele parece estar mais interessado em politizar a crise, visando a eleição presidencial, do que em buscar soluções.

Neste imbróglio internacional e crise sanitária, o governo brasileiro, seguidista incondicional de Trump, adotou a mesma desastrosa política de imunização por contaminação de rebanho que os norte-americanos. Nossa tragédia só não é maior devido ao SUS e às políticas adotadas por governadores e prefeitos. Pior, para agradar o troglodita americano, os ministros tresloucados e os filhos mimados do presidente tratam de hostilizar o gigante asiático. Sendo um país de profunda dependência tecnológica externa e de uma economia com enorme atrelamento aos capitais estrangeiros, tais atitudes são completamente insanas, pois estamos nos indispondo com nosso principal parceiro comercial, o país que detém a melhor tecnologia para contribuir com a retomada econômica e um dos poucos que terão capital disponível para investir nas economias em recuperação. Os capitalistas americanos e europeus estarão preocupados em investir na recuperação de suas próprias economias ou nas mais promissoras de recuperação. Somado a isso, na desastrosa política externa conduzida pelo terraplanista Ernesto Araújo, tem-se criado inúmeras arestas com os países europeus.

Mesmo no que diz respeito à crise sanitária, visto que também para nós a única saída que se vislumbra é a vacinação, é bom lembrarmos que o lema de Trump é “America first”. Se dependermos do presidente americano, só teremos vacinas disponíveis depois que todos os estadunidenses estiverem imunizados. A situação se agrava ainda mais com ações como a do baba-ovos Zero Três que, não satisfeito em nos indispor com os chineses e europeus, trata de se imiscuir nas eleições americanas, criando rusgas com os democratas, que caminham para a vitória no pleito presidencial. Resultado, caminhamos não apenas para um desastre sanitário e econômico, mas também para uma situação de total isolamento internacional, inclusive em relação aos Estados Unidos.

Diante de tal desgoverno e de um cenário de tantas improbabilidades, a única certeza que me resta é a de que, se algum português fixou residência no Brasil pouco antes do início da pandemia, deve estar se perguntando: “onde fui amarrar meu burro?”

*Jorge Gregory é jornalista e professor universitário, trabalhou no Ministério da Educação (MEC).

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