Raul Carrion: A audácia de um líder e a mobilização de um povo


Quando Jânio Quadros, em 25 de agosto de 1961, entregou a sua carta-renúncia aos
ministros militares e ao presidente do Senado, Auro de Moura Andrade, não fez nenhum gesto
tresloucado. Ao contrário – como confessaria anos mais tarde em sua “História do Povo Brasileiro”
– foi um auto-golpe fracassado, feito na expectativa de retornar “nos braços do povo”, com poderes
absolutos e apoio militar:
O fato de o Vice-Presidente João Goulart estar na China Socialista e ser uma sexta-feira –
quando o Congresso costumava estar vazio – formavam o panorama ideal para o desenlace
planejado. Só que a artimanha foi mal calculada e “o tiro saiu pela culatra”, pois sua renúncia foi
imediatamente aceita e o presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzili, assumiu a
Presidência da República.
Tão logo Jânio tornou-se uma “carta fora do baralho”, os três ministros militares – Odílio
Deniz, Sylvio Heck e Grun Moss – comunicaram a Mazzili que não permitiriam que Jango
assumisse a presidência da República.
Ao saber da renúncia, o governador Leonel Brizola ligou para Jânio e colocou-se à sua
disposição. Esclarecido que ele não fora compelido a renunciar, Brizola assumiu a defesa da
Constituição e a posse de Jango.
Diante da atitude golpista dos ministros militares, fez contato com o Comandante do III
Exército – Gal. Machado Lopes – para saber a sua posição e este respondeu que “como soldado
ficarei com o Exército”. Ficou claro que Machado Lopes se subordinava à postura golpista dos
ministros militares.
Apesar do quadro adverso, Brizola não se intimidou. Colocou a Polícia Civil e a Brigada
Militar em rigorosa prontidão, concentrou os seus efetivos em Porto Alegre ocupou os pontos
chaves da cidade, organizou a defesa do Palácio Piratini e requisitou todo combustível disponível.
A Assembleia Legislativa instalou-se em sessão permanente. Lideres sindicais, populares,
estudantis mobilizaram-se e dirigiram-se ao Palácio Piratini, exigindo o respeito à “Legalidade” e a
posse de João Goulart. Quando lá chegarem, já eram cinco mil. Falando da sacada do Palácio,
Brizola assumiu essa palavra de ordem. Estava iniciado o “Movimento da Legalidade”.
No domingo 27 de agosto, Brizola fez um veemente discurso nas rádios, chamando à
resistência ao golpe. Milhares se dirigiram à Praça da Matriz, para proteger o Palácio Piratini.
O Comando Sindical Gaúcho Unificado organizou Comitês de Resistência Democrática. O
primeiro deles foi no “Mataborrão”, na Av. Borges de Medeiros com Andrade Neves, e inscreveu
milhares de pessoas na defesa da Constituição. Os CRDs se espalharam por todo o Estado e mais
de 100 mil gaúchos se alistaram para defender a Legalidade. Foram formados batalhões de
metalúrgicos, ferroviários, marítimos, estivadores, bancários, comerciários, enfermeiros,
estudantes, artistas, militares reformados, enfim, a cidadania organizada.
A UNE decretou uma greve nacional pela posse de Jango. Seu presidente, Aldo Arantes,
veio a Porto Alegre, transferindo para cá a sede da UNE. O governador de Goiás, Mauro Borges,
assumiu a luta pela Legalidade. O Mal. Lott exigiu respeito à Constituição, mas foi preso pelos
golpistas. Mobilizações começaram a ocorrer em todo o Brasil.
Orientado por Lott, Brizola contatou os generais Oromar Osório e Peri Bevilaqua – que
comandavam as tropas mais poderosas do III Exército –, que aderiram à causa da Legalidade e
passaram a pressionar Machado Lopes. Outras guarnições também aderiram à Legalidade.
No dia 28, ao saber que os golpistas iriam bombardear o Palácio Piratini para submetê-lo
pela força, Brizola requisitou os transmissores da Rádio Guaíba e os instalou nos porões do Palácio,
formando a “Rede da Legalidade” – que chegou a englobar 104 emissoras em todo o país –, para
defender a Constituição.
Na Base Aérea de Canoas, suboficiais e sargentos impediram que os aviões decolassem
para bombardear o Palácio de Governo. Tropas do III Exército se deslocaram até as antenas da
Rádio Guaíba – defendidas pela Brigada Militar – para calar a “Rede da Legalidade”, mas no último
momento recuaram.
O Gal Machado Lopes solicitou, então, uma reunião com Brizola, que aceitou, mas exigiu
que fosse no Palácio Piratini. Brizola fez, então, um pronunciamento dramático, defendendo a
Legalidade e afirmando que lutaria até o último alento contra qualquer golpe militar:
O povo respondeu a Brizola afluindo em massa à Praça da Matriz. Em pouco tempo, eram
mais de 100 mil. Pressionado pela mobilização popular e por seus principais comandantes,
Machado Lopes afirmou a Brizola que não mais acataria os ministros militares e apoiaria uma saída
Constitucional para a crise.
A adesão do III Exército, o mais poderoso do país, reforçado pela Brigada Militar e pelo apoio
massivo da população, equilibrou as forças no tabuleiro nacional. A resistência ao golpe
transformava-se cada vez mais em um levante popular que envolvia as próprias Forças Armadas
e punha em risco o regime.
Diante do imponderável, tanto as elites dominantes quanto os altos mandos militares
passaram a trabalhar por uma saída negociada que evitasse a guerra civil. Essa saída foi a emenda
parlamentarista, votada nos primeiros dias de setembro e aceita a contragosto pelos golpistas.
Finalmente, em 7 de setembro de 1961, João Goulart assumiu a Presidência da República,
sob regime parlamentarista. O povo, os trabalhadores, os militares democratas – conduzidos por
um grande e destemido líder – haviam vencido! A vitória não havia sido completa, mas, talvez,
tenha sido a possível naquelas circunstâncias.
O exemplo de determinação e coragem que Leonel Brizola e o povo gaúcho demonstraram
em circunstâncias tão difíceis devem nos servir de modelo e inspiração, em um momento em que
os mesmos de sempre voltam a ameaçar a democracia.

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