A China já é a maior economia do mundo, por Graham Allison


Esta semana (artigo publicado originalmente em 15/10, N.E.), o FMI apresentou seu Panorama Econômico Mundial para 2020, fornecendo uma visão geral da economia global e dos desafios futuros. O fato mais inconveniente do Relatório é um que os americanos não querem ouvir – e mesmo quando o leem, se recusam a aceitar: a China já deslocou os EUA para se tornar a maior economia do mundo. Medido pelo parâmetro mais preciso que tanto o FMI quanto a CIA agora julgam ser a melhor métrica para comparar as economias nacionais, o Relatório do FMI mostra que a economia da China é um sexto maior do que a americana (US$ 24,2 trilhões contra US$ 20,8 trilhões dos EUA).

Apesar dessa declaração inequívoca das duas fontes mais confiáveis, a maior parte da grande imprensa – com exceção da The Economist – continua relatando que a economia dos EUA é a número 1. Então, o que está acontecendo?

Obviamente, medir o tamanho da economia de uma nação é mais complicado do que pode parecer. Além de coletar dados, é necessário selecionar um padrão adequado. Tradicionalmente, os economistas usam uma métrica chamada MER (market exchange rates = taxas de câmbio do mercado) para calcular o PIB. A economia dos EUA é tomada como base – refletindo o fato de que quando esse método foi desenvolvido nos anos após a Segunda Guerra Mundial, os EUA respondiam por quase metade do PIB global. Para as economias de outras nações, este método soma todos os bens e serviços produzidos por sua economia em sua própria moeda e, em seguida, converte esse total em dólares americanos à “taxa de câmbio de mercado” atual. Para 2020, o valor de todos os bens e serviços produzidos na China está projetado em 102 trilhões de yuans. Convertida em dólares americanos a uma taxa de mercado de 7 yuans por 1 dólar, a China terá um PIB MER de $ 14,6 trilhões contra o PIB americano de $ 20,8 trilhões.

Mas esta comparação pressupõe que 7 yuans compram a mesma quantidade de bens na China que $ 1 compra nos EUA. E obviamente, não é esse o caso. Para tornar esse ponto mais fácil de entender, a The Economist Magazine criou o “Índice Big Mac” a partir do qual o gráfico no topo deste parágrafo é derivado.

Como mostra esse índice, por 21 yuans, um consumidor chinês pode comprar um Big Mac inteiro em Pequim. Se ele convertesse esses yuans pela taxa de câmbio atual, ele teria US $ 3, o que só compraria metade de um Big Mac nos EUA. Em outras palavras, ao comprar a maioria dos produtos, de hambúrgueres e smartphones a mísseis e bases navais, os chineses obtêm quase o dobro por cada dólar. Reconhecendo essa realidade, na última década, a CIA e o FMI desenvolveram um padrão de medida mais adequado para comparar as economias nacionais, que é denominado PPP (paridade do poder de compra). Como explica o Relatório do FMI, o PPP “elimina as diferenças nos níveis de preços entre as economias” e, assim, compara as economias nacionais em termos de quanto cada nação pode comprar com sua própria moeda aos preços que os itens são vendidos no território. Enquanto o MER responde quanto os chineses obteriam com os preços americanos, o PPP responde quanto os chineses recebem com os preços chineses.

Se os chineses convertessem seu yuan em dólares, comprassem Big Macs nos EUA e os levassem de avião para a China para consumi-los, seria apropriado comparar as economias chinesa e norte-americana usando o parâmetro MER. Mas, em vez disso, eles os compram em um dos 3.300 locais do McDonald’s em seu país de origem, onde custam metade do que os americanos pagam.

Explicando sua decisão de mudar de MER para PPP em sua avaliação anual das economias nacionais – que está disponível online no CIA Factbook – a CIA observou que “o PIB à taxa de câmbio oficial [MER PIB] subestima substancialmente o nível real de produção da China vis-à-vis o resto do mundo.” Assim, na opinião da Agência, o PPP “fornece o melhor ponto de partida disponível para comparações de força econômica e bem-estar entre economias”. O FMI acrescenta ainda que “as taxas de mercado são mais voláteis e usá-las pode produzir oscilações bastante grandes nas medidas agregadas de crescimento, mesmo quando as taxas de crescimento em países individuais são estáveis”.

Em suma, embora o parâmetro a que a maioria dos americanos está acostumada ainda mostre que a economia chinesa é um terço menor que a dos EUA, quando se reconhece o fato de que $ 1 compra quase o dobro na China do que nos EUA, a economia chinesa hoje é um sexto maior do que a economia dos EUA.

E daí? Se isso fosse simplesmente uma competição pelo direito de se gabar, escolher uma medida que permita aos americanos se sentirem melhor sobre nós mesmos tem uma certa lógica. Mas no mundo real, o PIB de uma nação é a base de seu poder global. Ao longo da última geração, à medida que a China criou a maior economia do mundo, ela substituiu os EUA como o maior parceiro comercial de quase todas as grandes nações (no ano passado adicionando nada menos do que a Alemanha a essa lista). Ela se tornou a oficina de fabricação do mundo, inclusive para máscaras faciais e outros equipamentos de proteção, como estamos vendo agora na crise do coronavírus. Graças ao crescimento de dois dígitos em seu orçamento de defesa, suas forças militares têm mudado constantemente a gangorra de poder em conflitos regionais potenciais, em particular em Taiwan. E este ano, a China ultrapassará os EUA em gastos com P&D (Pesquisa e Desenvolvimento), levando os EUA a um “ponto de inflexão em P&D” e competitividade futura.

Para que os EUA enfrentem o desafio da China, os americanos precisam acordar para o fato desagradável: a China já nos ultrapassou na corrida para ser a economia nº 1 do mundo. Além disso, em 2020, a China será a única grande economia que registrará um crescimento positivo: a única economia que será maior no final do ano do que era no início do ano. As consequências para a segurança americana não são difíceis de prever. O crescimento econômico divergente irá encorajar um ator geopolítico cada vez mais assertivo no cenário mundial.

* Graham T. Allison é Professor de Governo da Harvard Kennedy School, ex-diretor do Belfer Center de Harvard e autor de “Destinados à guerra: a América e a China podem escapar da armadilha de Tucídides?”

Fonte: The National Interest / Tradução livre da Redação do i21

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