Walter Sorrentino: EUA polarizado e em decadência, mas em mudança


Qualquer que seja o resultado final das eleições nos EUA, quando proclamado, não se deve perder de vista que o país segue polarizado, meio-a-meio praticamente, com radicalidade. Trump prometeu destruição e nada prosperou sob os escombros de seu governo.

Que sentimento tão poderoso é esse dos eleitores de Trump, que despreza a ciência e a razão, e vota na intolerância geral com que ele conduz o governo, após mais de 9,5 milhões de casos de COVID-19 — que ontem mesmo bateu recorde de casos novos num único dia! — e 235 mil mortes pela doença? Mais ainda: sem uma perspectiva econômica sólida para a retomada?

Esse é o próprio mal estar do tempo, que leva os eleitores a apoiar a mudança da trajetória tradicional do país, no plano interno e externo, nos valores e na cultura, enfim, um poderoso sentimento anti-establishment. Em linguagem mais crua — acreditam que para sair da atual situação é preciso mesmo destruir os alicerces da política. Por isso, mais uma vez nestas eleições, os debates não convergem para o centro para formar uma maioria — mas um chamado para se unir aos extremos, como grita Trump. Isso fica.

Fica porque as recorrentes crises de governabilidade, econômicas e sociais, o antiglobalismo de Trump, são expressão de um fenômeno maior. Em um tempo de grandes avanços tecnológicos potencialmente emancipadores, que consenso é oferecido pela agenda do neoliberalismo senil, que esperanças oferece às pessoas? Pelo contrário, ela promove não levar em conta o social, o humano, a sociedade é atomizada.

O que há é a crua lógica da acumulação de capital financeiro, riqueza produzindo riqueza sem sequer passar pela produção, massa de milhões sem terem sequer o direito a ser explorados mediante um salário. Uma realidade insustentável de concentração de renda X pobreza crescente, de regressão civilizacional e retrocessos democráticos. Essa agenda está levando à crise o próprio liberalismo político — tão forte nos EUA — e à decadência do país.

A derrota do atual presidente dos EUA põe apenas um ponto-e-vírgula na onda conservadora que ele cavalgou, nascida de certa divisão das classes hegemônicas sobre como manter seu domínio. Os fatos por vir mostrarão o quanto esse curso político será transformado com a vitória de Biden, face aos poderosos mecanismos do establishment norte-americano em seus objetivos nacionais-imperiais permanentes.

Esses objetivos não mudam estruturalmente com uma troca de governos. Muda o modo de persegui-los. Biden não tem, por exemplo, como evitar a competição estratégica com a China e pela contenção militar da Rússia, mesmo que nos marcos da “convivência” dado que, se algo já mudou na ordem internacional, é a unipolaridade e unilateralismo.

Está em jogo aí a transição histórica de hegemonia dos EUA desde a 2ª. Guerra Mundial, processo longo e tormentoso que vive o mundo, o de uma disputa entre a globalização neoliberal em crise e uma globalização progressista, mediante o multilateralismo, a que se propõe a China, em disputa pela ponta tecnológica e por caminhos de desenvolvimento acelerado, como acontece na China há quatro décadas.

Mas isso não quer dizer que a derrota de Trump deixe de ser muito importante em todo o mundo. Haverá impactos de monta quanto ao papel dos EUA na agenda política, ideológica e geopolítica, também comercial e diplomática. Serão repostos na agenda a luta contra o aquecimento global com o Acordo de Paris, a busca de cooperação, a rejeição à guerra cultural, maneirar com direitos humanos, racismo e homofobia.

Biden já declarou que a OTAN é a aliança militar mais importante da história, e que a fortaleceria. Também prometeu que vai reconstruir o Departamento de Estado e devolver à diplomacia o papel de principal instrumento da ação externa. Segundo ele, a força só deveria ser usada em última instância e quando se puder definir objetivos claros.

Quanto ao Brasil, de saída caem as relações carnais de Bolsonaro, não com os EUA, mas com Trump. Bolsonaro negará toda a sua agenda atual no plano internacional? A questão ambiental, a Amazônica, a agenda antiglobalista, a agenda dos valores? Parece mais plausível que o completo isolamento internacional do país, de todo inédito, se aprofunde, escanteando ainda mais Bolsonaro, sem ambições nem apoio nas relações bilaterais com os EUA.

Ficam também mais limitadas as condições para a retomada econômica do Brasil. Aliás, a maioria democrata no Congresso já enviou o relatório da comissão que sugere ao departamento de comércio dos EUA, opondo-se a qualquer negociação ou acordo a fim de aumentar as exportações brasileiras para os Estados Unidos.

Claro, sempre haverá o pragmatismo e, provavelmente, o governo terá que rever suas patacoadas contra a China. Mas pragmatismo é coisa de gente madura… Enfim, poderia ser o epitáfio de Ernesto Araújo.

Precisamos valorizar as lutas do povo norte-americano – que contribuíram decisivamente para a vitória de Biden, ao tempo em que aproveitamos quaisquer fissuras para dar combate ao imperialismo guerreiro dos EUA no mundo, pela paz mundial e pelo desenvolvimento soberano de nosso país, mantendo as relações devidas com aquele país, mas com estratégia própria e autônoma, explorando as contradições atuais da situação internacional em benefício de nossos povos.

(*) Médico, Vice-Presidente Nacional e Secretário de Política e Relações Internacionais do Partido Comunista do Brasil (PCdoB). Presidente do Conselho Curador da Fundação Maurício Grabois e diretor da União Brasileira de Escritores.

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